O país das minorias

Cartaz lamentando que a presidenta não tenha sido enforcada e "todos eles" mortos em 1964? Exceção. Faixa pedindo intervenção militar? Meia dúzia. Chacina em Osasco? Não representa a corporação. Uma pessoa linchada por dia no país? Nada que seja a sua marca. No país...

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Cartaz lamentando que a presidenta não tenha sido enforcada e “todos eles” mortos em 1964? Exceção. Faixa pedindo intervenção militar? Meia dúzia. Chacina em Osasco? Não representa a corporação. Uma pessoa linchada por dia no país? Nada que seja a sua marca. No país das minorias, ser efetivamente uma delas significa ter destino certo na marcha do brasileiro cordial. E ele não é na Paulista
Por Murilo Cleto
Quase vinte mortos na última chacina na região metropolitana de São Paulo. A julgar pelos antecedentes, é possível que o crime tenha sido motivado por vingança, já que um policial e um guarda foram assassinados em locais próximos e os atiradores chegaram perguntando, segundo o prefeito, quem tinha passagem pela polícia. Se sim, tiro. Dos dezoito assassinados, doze não tinham.
Se confirmado o envolvimento de policiais no crime, não é difícil de prever as reações. Uma delas já tem sido anunciada por grande parte dos comentarista de portal a postos: “o que estavam fazendo uma hora dessas na rua? Coisa boa que não era” ou, o clássico, “bandido bom é bandido morto”, dois dos mais populares. Outra prefere pôr aqueles velhos panos quentes dizendo que o incidente não representa toda a corporação.
Por enquanto, isso tudo não passa de especulação, à exceção do fato de que a violência nunca foi um valor nosso. É sempre de uma minoria outra qualquer. Quem faz questão de tocar nesta ferida é o historiador Leandro Karnal, que, em palestra no Café Filosófico, da CPFL Cultura, recorre à maior das ausências nos livros de história do Brasil: o termo “guerra civil”.
Em Canudos, foram cerca de 25 mil mortos; no Contestado, 20 mil; na Cabanagem, 40 mil; na Balaiada, 12 mil. E nenhum deles é “guerra civil”. E por quê? Segundo Karnal, a violência é sempre visitante. Do outro. E, por isso, provisória. Parte substancial deste paradigma descende do mito do brasileiro cordial, originado por uma leitura conveniente de Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. No Brasil, lincha-se uma pessoa por dia. Mas já pensou imaginar que essa seja uma marca do país? Jamais.
Neste domingo, faixas pediam a volta da ditadura militar e até da monarquia por toda Avenida Paulista e por diversas capitais do Brasil. Mas era só uma minoria, não? Um cartaz lamentava que a presidenta não tivesse sido enforcada pelo Doi-Codi, embora estivesse, claro, longe de representar o movimento. Outro, um pouco mais amplo, dizia que “todos eles” deveriam ter sido mortos em 1964. Um caso isolado, certamente.
Entusiastas de 15 de março, 12 de abril, e, agora, 16 de agosto, rebatem as denúncias dizendo que estão tentando deslegitimar o movimento com meia dúzia de paspalhos. Mas, é preciso confessar, são tantas meias dúzias que parece difícil encontrar essa tal legitimidade, perdida, talvez, no meio de alguma coreografia ensaiada pedindo “Fora, PT!”
Um minoria também agrediu verbal e fisicamente quem passava pelo protesto pacífico vestindo vermelho. Outra pediu para que se retirasse – gente civilizada jamais expulsaria – um rapaz que relembrou os mortos da semana passada pelos justiceiros na Grande São Paulo. Ali não era lugar pra aquilo, alertavam-no.
E não mesmo. No país das minorias, ser efetivamente uma delas significa ter destino certo na marcha do brasileiro cordial. E ele não é na Paulista. Aliás a cadeia, dizia outro deles numa entrevista, nem era tão ruim assim com os militares. Nada que represente o conjunto, né, mas é bom registrar.


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