Lawrence Lessig, o pai do Creative Commons, quer se tornar presidente dos EUA

Um dos ativistas mais conhecidos da Cultura Livre lança um quase impossível crowdfunding para disputar as primárias do partido Democrata. O objetivo: chegar à Casa Branca, aprovar reformas e, em seguida, renunciar ao cargo

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Um dos ativistas mais conhecidos da Cultura Livre lança um quase impossível crowdfunding para disputar as primárias do partido Democrata. O objetivo: chegar à Casa Branca, aprovar reformas e, em seguida, renunciar ao cargo

Por Marta Peirano, tradução livre a partir do El Diario

Esta é uma matéria da Fórum Semanal. Confira o conteúdo especial da edição 209 clicando aqui

Embora os candidatos de sempre se engalfinhem como nunca usando slogans no Twitter como arma, o professor Lawrence Lessig planeja se converter no homem mais poderoso do planeta, mudar uma lei e depois sair do cargo. Esse é o plano do advogado e ativista que se fez famoso desmontando o monopólio da propriedade intelectual.

Na última década, o tema dos direitos autorais tem contado com o trabalho de muitos ativistas, mas poucos têm sido tão influentes como Lessing. Afinal, ele escreveu um livro que mudou nossa maneira de entender a cultura. Seu famoso ensaio Cultura Livre analisava os argumentos que fundamentaram a criação das leis de propriedade intelectual para proteger o acesso à produção artística e seu acidentado caminho até o modelo atual, um monopólio controlado pelas grandes indústrias culturais que regulam a criatividade e castigam o seu consumo.

Mickey Mouse e o Copyright: a história de um sequestro

Lessig denunciou que cada vez que Mickey Mouse estava a ponto de entrar em domínio público, o Congresso norte-americano aprovava uma extensão do Copyright para que ninguém fizesse às Corporações Disney o que Walt Disney fez com o legado dos irmãos Grimm. Ao todo, foram onze extensões em quarenta anos em um país onde a indústria do entretenimento tem uma decisiva influência sobre o Congresso, já que seu apoio é fundamental para qualquer campanha política (por exemplo, Yes We Can).

Mas o legado de Lessig pode ser especialmente percebido na criação, em 2001, de uma série de licenças alternativas ao “Todos os direitos reservados”, a chamada Creative Commons. As famosas licenças CC não foram as primeiras, mas sim as que conseguiram concentrar o apoio das principais organizações de direitos online e assegurar a compatibilidade das licenças de cada país, graças ao trabalho não remunerado de centenas de advogados locais. Depois de dez anos de luta contra o lobby do entretenimento, Lessig passou a considerar que nada conseguiria mudar nada nunca sem desbaratar o sistema de lobbies de uma forma geral.

Hoje Lessig é presidente do Creative Commons, membro do Conselho da Eletronic Frontier Foundation e membro da Junta Diretiva do Software Freedom Law Center, mas, desde 2007, abandonou o tema da propriedade intelectual para se concentrar em uma reforma do Congresso. “A palavra de Jefferson de que ‘todos os homens são criados iguais se transformaram na de George Orwell: Somos todos iguais, mas uns são mais iguais que os outros”, dizia em um vídeo publicado na última terça-feira (11). Isso porque um pequeno número de pessoas e organizações disparatadamente ricas dominam a política norte-americana e sua candidatura às primárias do partido Democrata tem como objetivo tirar-lhes esse poder.

Um plano “antidemocrático” para salvar a democracia

O plano, de acordo com Lessig, é renunciar às doações que empoderam os lobbies e os milionários e deixar o financiamento de sua campanha nas mãos de uma iniciativa cidadã de crowdfudning. Se conseguir reunir um milhão de dólares para o Dia do Trabalho – isto é, a primeira segunda-feira de setembro – sem dever favores a ninguém, se apresentará às primárias democratas. E se ganha as primárias, voltará a fazer uma campanha cidadã para se tornar presidente. Se conseguir – e este é um grande “e se” – então fará reformas que julga necessárias para tirar o país do estado de corrupção e, uma vez aprovadas, abandonará a Sala Oval em favor de seu vice-presidente.

Estranhamente, o que propõe é muito democrático. Porque, se vence, Lessig teria sido eleito democraticamente, mas o vice-presidente quem teria escolhido seria ele, transformando a presidência em um cargo escolhido a dedo. Em entrevista, Lessig disse que procuraria um vice-presidente que fosse muito fortemente identificado com os valores do partido Democrata. E mencionou o senador Bernie Sanders.

“Obviamente, inclusive se não conseguir chegar a ser candidato, ter a oportunidade de mostrar cada aspecto deste problema e explicar a necessidade de restabelecer a igualdade cidadã é incrível”, assegurava o advogado e ativista. Seja uma performance ou não, Lessig não é Rodolfo Chikiilicuatre. E domina naturalmente uma linguagem que para seus adversários continua sendo secundária: a Rede.

Foto: SimSullen⎪CC

 



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