“Adora Coca Zero, mas é magra e faz academia”

Para manter lucros e abovinar consumidores, indústria alimentícia recorre a curiosa estratégia: insinua que é possível comer mal e ser saudável

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Para manter lucros e abovinar consumidores, indústria alimentícia recorre a curiosa estratégia: insinua que é possível comer mal e ser saudável

Por Julicristie M. Oliveira*, do Blog da Redação do Outras Palavras

Discussões acerca das mudanças nos padrões alimentares, bem como corporais, no Brasil e em outros países, são constantemente noticiadas e divulgadas. O aumento no consumo de alimentos industrializados (processados e ultra-processados) ricos em carboidratos, gorduras saturadas, açúcar e sódio, bem como nas taxas de sobrepeso e obesidade, tornaram-se a pauta de muitas políticas públicas.

A ciência tem papel importante neste processo, pois a identificação de fatores de risco para doenças cardiovasculares e outras doenças e agravos não transmissíveis foi possível em decorrência da atuação de vários pesquisadores de diversos países. Refrigerantes, carnes processadas (salsichas, hambúrgueres, etc), biscoitos recheados, doces, dentre outros, foram vistos como alimentos que devem ser evitados, pois compõem as “dietas não saudáveis”. Em contrapartida, as combinações como “arroz com feijão”, frutas e hortaliças são consideradas fatores de proteção e devem ser consumidas, pois compõem as “dietas saudáveis”.

Em decorrência destes apontamentos, por meio das políticas públicas e com o esforço de pesquisadores e gestores, foi lançado ano passado no Brasil uma nova versão do Guia Alimentar para a População Brasileira. Ele recomenda, destacadamente, reduzir a ingestão de alimentos ultra-processados, o que inclui os refrigerantes. Alguns pesquisadores americanos também têm participado da discussão e lançam duros golpes às indústrias de alimentos.

Os contra-golpes destas, por sua vez, têm sido igualmente duros, ou ainda mais. Propagandas com o intuito de convencer a população que tais alimentos podem fazer parte de uma alimentação saudável, associando o consumo com ações “mais humanas” como adoção de crianças, as refeições em família, com ênfase nas relações sociais, são constantemente desenvolvidas e divulgadas. As marcas entram nas novelas, patrocinam programas, invadem as redes sociais e os canais do youtube.

Além de tomar espaço nas mídias, as indústrias também esforçam-se para conquistar os pesquisadores. O patrocínio a eventos científicos, o financiamento de pesquisas e a aproximação das indústrias com as universidades são pontos de debates acalorados. Me chamou a atenção um artigo recente, de 9 de agosto, do The New York Times em que se discutia a criação de uma nova rede de pesquisa pela indústria gigante de refrigerantes mais famosa do mundo. Simplificando os fatos, esta rede financia pesquisadores que realizam estudos e divulgação científica apontando que o aumento da atividade física seria mais benéfico do que as alterações dietéticas – que incluiriam a redução da ingestão de refrigerantes, é claro. Assim, muitas dúvidas e confusões são lançadas, as controvérsias ganham espaço, os pesquisadores confrontam-se, a indústria mantém seu nicho de mercado e os conflitos de interesses tornam-se evidentes. É, a ciência não é neutra. Há parcialidades e incertezas.

Parte do imbróglio está na relação estado-capital, como o primeiro depende do segundo, pois, como exemplo, por meio de arrecadação de impostos tem orçamento para, inclusive, desenvolver políticas públicas e financiar pesquisas – pois no Brasil parte importante são financiadas pelo estado. Então, os mecanismos para reduzir o impacto das indústrias na saúde da população podem ser pouco fortalecidos. Ademais, há lobby, financiamento de campanhas políticas e outras obscuridades.

O que pouco debatemos, porém, é a complexidade das concepções sobre o comer e o corpo. Convive com as pressões pela magreza o estímulo constante à ingestão de alimentos ultra-processados com alto valor energético. As questões que necessitariam de discussões mais aprofundadas são generalizadas nos debates e há a dificuldade de lidar com as exceções, pois magreza não é sinônimo de saúde, nem estar fora dos padrões corporais é sinônimo de doença.

Assim, talvez um dos caminhos possíveis seja dar mais atenção aos aspectos culturais, com a valorização da alimentação como patrimônio. A promoção do resgate dos pratos tradicionais, das frutas e hortaliças da nossa biodiversidade, dos conhecimentos agrícolas e culinários envolvidos nos processos, pode assumir papel mais protagonista nas pautas sobre alimentação e nutrição.

*Professora da FCA/Unicamp



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