“O alvo sempre foi Lula”

Em entrevista à Fórum, o historiador Lincoln Secco avalia que, embora haja um esforço da oposição para abalar a gestão de Dilma Rousseff, o que interessa de fato é atingir o ex-presidente: "É possível levar o governo Dilma até o fim de 2018 com...

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Em entrevista à Fórum, o historiador Lincoln Secco avalia que, embora haja um esforço da oposição para abalar a gestão de Dilma Rousseff, o que interessa de fato é atingir o ex-presidente: “É possível levar o governo Dilma até o fim de 2018 com uma perspectiva da oposição substitui-la, mas permanece sempre o espectro do Lula”

Por Anna Beatriz Anjos e Glauco Faria

Esta é uma matéria da Fórum Semanal. Confira o conteúdo especial da edição 210 clicando aqui

Quando Lincoln Secco falou pela primeira vez à Fórum, em setembro de 2014, o PT lutava para manter a presidência da República pelo quarto mandato consecutivo. À época, às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais, Marina Silva (PSB) ainda ameaçava a reeleição de Dilma Rousseff e fazia com que sua campanha “se inclinasse à esquerda”, nas palavras do próprio historiador, também professor da Universidade de São Paulo (USP) e autor de A História do PT.

Quase um ano depois, a conjuntura se alterou completamente. A força política atribuída a Dilma pelas urnas é posta em xeque pela deterioração de sua popularidade, que despencou a níveis inferiores a 10% de aprovação no começo deste mês. Uma somatória de fatores pode ser apontada como determinante para o atual quadro, sendo o mau momento da economia – uma realidade em boa parte dos países do mundo – um dos principais. Mas, na análise de Secco, tanto a presidenta como seu partido têm um papel fundamental na crise política que se instalou no país. “Dilma cometeu todos os erros, imagináveis e inimagináveis, desde que começou o segundo mandato”, aponta. “O governo implementa um programa que é contra a sua base social.”

Em entrevista à Fórum, o historiador afirmou também que, apesar de Dilma estar no centro dos holofotes devido à pressão pelo impeachment, é a cabeça de Lula que realmente interessa à direita brasileira. “O que a oposição quer é, entre aspas, o impeachment do Lula. É possível levar o governo Dilma até o fim de 2018 com uma perspectiva da oposição substitui-la, mas permanece sempre o espectro do Lula”, avalia.

Confira, abaixo, a íntegra da entrevista:

Fórum – Como você avalia as manifestações do dia 16 de agosto? Que significados têm para o governo e para a oposição?

Lincoln Secco – Essas manifestações, embora numerosas, são compostas predominantemente por quem já era de oposição ao PT. São, em geral, eleitores do Aécio, com um perfil racial e socioeconômico de elite. Na verdade, o grande problema da presidenta Dilma com a insatisfação social é que ela se divide na verdade em dois grupos. Um é esse núcleo que já era oposicionista e que cresceu a partir dos escândalos de 2005. O outro é a camada social mais pobre, ou de classe média baixa, que apoiava o PT e ficou descontente. Essas pessoas não estão nas ruas, mas aparecem nas pesquisas.

Para Lincoln Secco, "não podemos acreditar que o PT simplesmente desapareceu do mapa": "Ele até pode se tornar um partido muito frágil, mas ainda representa um campo político estável na sociedade brasileira"(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Para Lincoln Secco, “não podemos acreditar que o PT simplesmente desapareceu do mapa”: “Ele até pode se tornar um partido muito frágil, mas ainda representa um campo político estável na sociedade brasileira” (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Fórum – A oposição tem capacidade de converter essa insatisfação em ganhos políticos e eleitorais?

Secco – O problema da oposição é que ela não sabe o que fazer no dia seguinte. A possibilidade do impeachment existe, mas considero improvável. Primeiro porque é um processo muito desgastante para o país, para a imagem internacional do Brasil; não é um processo fácil contra uma pessoa como a Dilma Rousseff, porque ela representa um campo político organizado no país; e a própria oposição teria que decidir se o vice-presidente assumiria, se o caminho seria pelo Superior Tribunal Eleitoral – aí não seria o impeachment, seria a cassação da chapa –, se haveria novas eleições. É uma incerteza muito grande. Além disso, quem assumisse a presidência da República não eliminaria a crise. Acho que é muito difícil que a oposição chegue a um acordo sobre o que fazer no caso de uma ruptura institucional.

Fórum – A popularidade de Dilma, segundo as pesquisas, piorou de março para cá, no entanto, as manifestações posteriores ao dia 15 daquele mês contaram com menos pessoas. Há uma dissociação entre a maioria dos que estão insatisfeitos com o governo e os manifestantes?

Secco – Existe. Há até uma reportagem da Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, que conta a história de um grupo do extremo leste de São Paulo que foi às manifestações e se sentiu estranho ali. De fato, esses manifestantes têm uma agenda que não é a da maioria da população que está insatisfeita com Dilma. Porque a agenda desses manifestantes é o Estado mínimo, por exemplo. Mas as demandas dos eleitores da Dilma que estão descontentes com ela não é de Estado mínimo, estão reclamando, na verdade, da ausência do Estado, do ajuste fiscal – que atinge principalmente a classe trabalhadora –, do fato de que os pobres é que sempre pagam a conta num ajuste desse tipo. São insatisfações opostas. O problema é que a solução que a presidenta encontrou é terceirizar o governo para o PMDB e descontentar ainda mais a sua própria base social, que poderia defendê-la numa crise como a de um impeachment. A situação dela é muito difícil.

Fórum – Acredita que se o impeachment fosse, de fato, uma ameaça iminente, o PT conseguiria mobilizar suas bases para defender o governo de Dilma?

Secco – A situação é mais complicada hoje do que foi na época do Collor, por exemplo, porque a CUT, o MST, e mesmo grupos muitos descontentes com o PT, como o MTST, provavelmente sairiam às ruas para defender o mandato da Dilma. Mas há também uma base numerosa de pessoas de oposição nas ruas. É muito diferente de 1992, quando o Collor pediu para que as pessoas saíssem com camisetas verde e amarelas e ninguém fez isso – pelo contrário, saíram com camisetas pretas. Dessa vez haveria uma espécie de embate nas ruas. Além disso, o PT não tem mais uma bandeira para levantar – ela se resume apenas à defesa do mandato. O PT não pode romper com o governo, evidentemente, e o governo implementa um programa que é contra a sua base social. O partido também não tem mais a bandeira da ética. É uma situação única.

Já aconteceram crises graves nos mandatos de praticamente todos os presidentes que estiveram no poder desde a redemocratização. O Sarney começou como o mais popular da história do Brasil com o Plano Cruzado e terminou sendo chutado como cachorro morto por todos os candidatos em 1989. O Collor sofreu o impeachment. O Fernando Henrique Cardoso, em seu segundo mandato, foi acusado exatamente de estelionato eleitoral, porque desvalorizou o real, e sua popularidade caiu; ele se envolveu no escândalo da compra de votos no Congresso e, além disso, havia suspeitas sobre as privatizações que havia feito – inclusive o PT pediu sua renúncia. Agora, Dilma passa por uma situação parecida, com uma diferença: o Fernando Henrique não tinha a oposição quase total da grande imprensa como o PT.

A situação está imprevisível. Eu diria isso, também, porque não podemos acreditar que o PT simplesmente desapareceu do mapa. Ele até pode se tornar um partido muito frágil, mas ainda representa um campo político estável na sociedade brasileira – o campo político social, reformista, de centro-esquerda ou de esquerda. Ele continuará a existir, mais ou menos organizado, porque as pesquisas indicam também um dado que a grande imprensa não destaca: o Lula partiria com mais de 30% dos votos se houvesse uma eleição hoje. Justamente ele, que é achincalhado todos os dias pela grande imprensa. É um dado impressionante e ninguém fala disso.

Fórum – Diante da opinião pública, a figura do Lula vai além do PT?

Secco – Hoje sim, porque o PT perdeu qualquer possibilidade de ação organizada da sociedade, mas o Lula está guardado na memória das conquistas sociais de um setor da população brasileira. Até diria que é uma memória que antecede a ele, é a memória do Getúlio Vargas, do trabalhismo. Isso se consolidou. Para se ter uma ideia, em 1947, quando houve eleições no Brasil para governadores, Vargas não elegeu nenhum candidato, foi dito que estava enterrado politicamente, saiu em 1945 da presidência acusado de ter feito o governo mais corrupto da história do Brasil e depois, em 50, é eleito presidente. Não podemos dizer que a situação é a mesma, mas é muito cedo para dizermos que o Lula desapareceu do mapa. A gente não sabe se ele será preso pela Operação Lava Jato, mas ainda que isso acontecesse, as decorrências também não são previsíveis. Conhecendo um pouco da alma do povo brasileiro, eu diria que ele sairia até como mártir. Está tudo em aberto.

" Ela [Dilma] de fato terceirizou o governo, já sinalizou que acredita mesmo nesse caminho de ajuste fiscal neoliberal", analisa o autor de "História do PT" (Foto: Lula Marques/Agência PT)
” Ela [Dilma] de fato terceirizou o governo, já sinalizou que acredita mesmo nesse caminho de ajuste fiscal neoliberal”, analisa o autor de “História do PT” (Foto: Lula Marques/Agência PT)

Fórum – Na sua análise, quando e por que surge o antipetismo? Por que ele é um sentimento notadamente mais forte em algumas camadas sociais como, por exemplo, a classe média?

Secco – O antipetismo da classe média existe desde a fundação do PT. Mas havia um setor dessa classe média, menos ideológico, digamos assim, que muitas vezes aderiu ao PT por conta do discurso moralista que mantinha. Hoje o partido reclama dos adversários terem um discurso moralista, mas é o mesmo discurso que tinha nos anos 1990, principalmente. Então, o PT tinha o apoio de um pequeno setor da classe média, porém o setor mais ideológico e antipetista, a partir de 2005, com o escândalo do Mensalão, passou a exercer uma certa hegemonia sobre as camadas médias da sociedade, porque o discurso foi se tornando único.

Hoje, os setores médios são multifacetados, mas dos mais baixos aos mais altos são antipetistas. Há uma razão para isso, nas parcelas mais elevadas da classe média, que é bastante conhecida: o medo da queda econômica em momentos de crise. E esse medo muitas vezes é percebido através da ascensão dos mais pobres aos seus espaços de privilégio. Isso aconteceu no segundo mandato do Lula. As pessoas ficaram descontentes de ter que andar de avião com pobre e assim por diante.

Fórum – Na última segunda-feira (17), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse que a renúncia de Dilma seria um “gesto de grandeza”. O que está por trás dessa atitude?

Secco – Na verdade, ele está dizendo a mesma coisa que o PT disse a ele em seu segundo mandato: que renunciasse. A renúncia é um ato pessoal de um presidente da República. Em um sistema presidencialista, exceto pelo impeachment ou golpe, não há como esperar que o presidente tome a decisão A ou B, porque é algo totalmente pessoal. Pedir a ela que renuncie é a mesma coisa que pedir nada. O Collor tecnicamente renunciou, antes da votação do processo de impeachment. Mesmo assim, a renúncia não foi aceita. Na verdade, não significa muita coisa, é mais uma arma de combate. O interessante é que ele [FHC] mudou um pouco de posição, porque, há pouco tempo, disse a uma revista alemã que Dilma era honesta e que o culpado era o Lula, e agora acha que ela deve renunciar. A oposição está como biruta de aeroporto, assim como o governo do PT. Ninguém sabe o que fazer.

Fórum – Hoje, qual é o maior problema do governo, a crise política ou a econômica?

Secco – Por incrível que pareça, a crise política. Dilma cometeu todos os erros, imagináveis e inimagináveis, desde que começou o segundo mandato. Ela, em grande parte, é responsável pela crise política, especialmente no Congresso. É claro que o ambiente econômico faria, de qualquer jeito, com que sua popularidade sofresse quedas, atingira sua própria base social, que é quem pode defendê-la, mas é evidentemente política a crise. Ao contrário daquela frase de mau gosto “é a economia, estúpido”, eu diria que é sempre, na verdade, a política, porque independentemente do ambiente econômico, se ela tivesse uma base sólida no Congresso – que agora se dissolveu – e tivesse pelo menos capacidade de manter um apoio mobilizado em um setor da sociedade, não estaria sofrendo a pressão por um impeachment.

Fórum – Podemos afirmar que foi um erro de leitura por parte dela e das pessoas que a aconselham?

Secco – Sem dúvida. Dou o exemplo do governo Sarney, que citei anteriormente. Foi um governo catastrófico a partir da segunda metade do mandato, mas ninguém falou em impeachment, porque ele continuou com apoio suficiente no Congresso para terminar a gestão. Além disso, a Dilma está numa crise de início de mandato, o que piora a situação.

Fórum – De que forma você vê as conversas entre o governo, principalmente por meio do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e Renan Calheiros em torno da Agenda Brasil? É uma possibilidade de o governo “respirar” ou pode significar um comprometimento definitivo com medidas de cunho neoliberal?

Secco – Acho que, na verdade, as duas coisas. Ela de fato terceirizou o governo, já sinalizou que acredita mesmo nesse caminho de ajuste fiscal neoliberal. Pode ser que esteja fazendo um cálculo – alguns setores do PT já faziam isso – de que a economia melhore na metade do mandato, e que a partir daí ela possa retomar a agenda social. Mas, ao mesmo tempo, é o que pode dar o fôlego para o governo terminar. Dilma já entregou a coordenação política para seu vice-presidente, já se rendeu ao presidente do Senado, a economia ela também não controla…

Fórum – Na sua avaliação, há alguma chance desse quadro se reverter até o fim do mandato?

Secco – Esse é um cálculo que seus pseudo-aliados fazem: salvar o mandato dela não poderia permitir uma recuperação no final do governo? Há também o fator Lula: ele não pode vir a ser um candidato competitivo, apesar de tudo, em 2018? A oposição também faz esse cálculo, e é por isso que a situação está muito aberta. Acredito que, se não cair – e acho improvável que caia –, ela, como figura pública, maculou sua história, porque terá abandonado completamente o programa com o qual se elegeu. Para a esquerda, também será o pior dos mundos, porque embora as eleições de 2018 sejam uma incógnita, o Brasil já se deslocou para a direita – há uma hegemonia nos valores da direita no Brasil.

Fórum – A base social do PT vem, de fato, se deteriorando?

Secco – A maior parte da população, no Brasil, em qualquer época, não vê uma crise política como algo que esteja em seu cotidiano. A maioria das pessoas sente a crise econômica: pode aumentar o desemprego, os salários reais podem cair a assim por diante. Mas a crise política em si é acompanhada lateralmente, afeta diretamente apenas a vida de quem vive a política, ou dos setores médios que se julgam mais informados. Não é que a população mais pobre seja desinformada, mas há uma grande distância entre ela e o sistema representativo. Ele não representa a população, o Congresso também não. Na verdade, a base eleitoral do PT está descontente sim, mas se eleições presidenciais fossem realizadas agora, uma grande parte dela escolheria o Lula como o “menos pior”. Foi aquilo que citei anteriormente sobre as pessoas da periferia que foram aos protestos na Avenida Paulista: quando olhavam gente tirando foto com a Tropa de Choque, pensavam: “isso já é muito para mim”, porque essa não é uma realidade deles. Há um outro tempo da política para a maioria da população.

"Essas manifestações, embora numerosas, são compostas predominantemente por quem já era de oposição ao PT. São, em geral, eleitores do Aécio, com um perfil racial e socioeconômico de elite", avalia o historiador (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
“Essas manifestações, embora numerosas, são compostas predominantemente por quem já era de oposição ao PT. São, em geral, eleitores do Aécio, com um perfil racial e socioeconômico de elite”, avalia o historiador (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Fórum – O ex-presidente Lula tem se tornado alvo principal de parte da mídia tradicional e da oposição, e essa própria mídia tem recuado em relação ao impeachment de Dilma. O alvo da oposição e de parte dos setores que combatem o PT, agora, passa a ser Lula ou, no fundo, sempre foi ele?

Secco – O alvo sempre foi ele. O que a oposição quer é, entre aspas, o impeachment do Lula. É possível levar o governo Dilma até o fim de 2018 com uma perspectiva da oposição substitui-la, mas permanece sempre o espectro do Lula. O Lula, nesse ponto de vista, é mais ou menos como o Getúlio Vargas, quando saiu do poder na primeira vez: sua sombra continua sobre a política brasileira. Por isso acho que ele é um alvo da Operação Lava Jato sim, e não é impossível que seja preso, ainda que rapidamente, para que seja humilhado. Não estou nem entrando no mérito do que é a operação, mas há a expectativa do oposição de que isso aconteça. A própria prisão de quem já estava preso – o José Dirceu – tinha esse objetivo: buscar um vínculo com o Lula, esperar que ele fale alguma coisa que a oposição desejaria ouvir, o que é praticamente impossível. A oposição hoje está dividida não só no Congresso, porque há os setores que também têm medo da Lava Jato, há outros que não se entendem sobre qual seria a melhor maneira de tirar a presidenta e há outros que não querem sequer que ela saia – como o Alckmin, que não ganha nada com sua saída; temos que lembrar que ele é a figura da oposição com maior poder político no Brasil. Já o Aécio foi derrotado não apenas nas eleições, como em seu estado, e não tem a máquina pública nas mãos. Para o Alckmin não interessa nada uma queda da Dilma agora, porque pode ser candidato em 2018.

Tem ainda outra coisa a ser acrescentada: o setor mais moderado da oposição – talvez o próprio Fernando Henrique Cardoso, o próprio José Serra –, e não publicamente, porque nessas condições tem de ser mais virulento, mas em seus jantares finos, deve pensar que o PT cumpre um papel organizador de um campo social que é bom para oposição. Afinal, a oposição sonha em ser governo, mas não sonha em governar o caos. Do ponto de vista deles, o PT é uma maneira de contenção de movimentos sociais. Para a classe governante governar de maneira civilizada, o PT é indispensável. Os setores mais radicalizados, que não têm representação no sistema político e estão nas ruas, nem imaginam isso, mas quem é que vai governar depois? Os aspirantes a esse cargo precisam pensar nisso, em como governar de maneira civilizada. A prisão do Lula seria um choque para a população, do qual seria difícil de se recuperar. Como é que se explica que o ex-presidente de origem operária, eleito e reeleito, que fez transformações sociais aprovadas mundo afora seria um simples criminoso que está na cadeia? Você desmoraliza o sistema político brasileiro. O edifício cai, porque PT e PSDB, apesar de opostos, são alicerces de um mesmo edifício. Ele já não é muito sólido devido à histórica rejeição popular ao sistema político, e a queda de um dos alicerces não é boa para o outro.

Fórum – Acha que a postura do PT em relação à recente prisão de José Dirceu, e mesmo ao Mensalão, representa um pouco a falta de rumo do partido e a dificuldade em lidar com esses episódios tão explorados politicamente?

Secco – O PT entrou em uma crise que não é propriamente ética, mas de concepção da política. Hoje tenho certeza de que o PT estava preparado para administrar o país, ao contrário do que diziam. O fez nem muito melhor, nem muito pior do que os governos anteriores, o fato é que seus quadros técnicos sustentaram a máquina administrativa federal. Só não estava preparado para exercer o poder, que é uma outra coisa. O PT pediu licença para governar, ao contrário dos que dizem que o PT foi autoritário. O fato, por exemplo, do governo não controlar a Polícia Federal é visto como uma política republicana, que tem que ser mantida sempre, mas não foi sempre assim. No governo FHC, o PSDB controlou a Polícia Federal. O dilema do PT a partir de 2005 foi: ou diz publicamente que confia nas instituições, e aí nesse caso deveria ter tomado medidas drásticas com pessoas acusadas de corrupção, ou deveria ter defendido essas figuras, sustentando que houve politização do Judiciário ou da Polícia Federal. Até hoje ele fica no meio termo, afirma as duas coisas: diz que nem todos os petistas são corruptos, que alguns dirigentes cometeram erros, e, ao mesmo tempo, defende esses dirigentes da politização da Justiça. O partido não tem mais uma visão estratégica, o que é, de certa forma, resultado do seu discurso ético dos anos 1990. O PT está sorvendo um pouco do veneno que ele mesmo lançava contra os adversários.

Fórum – Em entrevista recente, você afirmou que “o PT é a esquerda que o Brasil conseguiu ter”. O que isso significa?

Secco – Esquerda e direita são lugares no espaço político. Dependendo muito do momento histórico do país, ser de esquerda pode significar ser mais ou menos radical. O PT ocupou esse espaço político no Brasil, e até hoje não existe outro partido para ocupá-lo. O Psol é um partido de esquerda? Sem dúvidas, muito mais esquerda do que o PT hoje, mas não ocupa um espaço político na sociedade brasileira, é muito pouco significativo ainda. Quem ocupa esse espaço é o PT, o que não significa que seus dirigentes sejam socialistas ou pessoas profundamente de esquerda. Há até gente de direita dentro da legenda, mas ela disputa esse espaço político pela esquerda. É diferente ser de esquerda e ser, por exemplo, comunista ou católico. Para se enquadrar nas duas últimas descrições, são necessários uma fé, laica ou religiosa, e o comprometimento profundo com valores, uma doação de vida a uma causa. Já ser de esquerda é simplesmente estar posicionado no campo político contra os valores liberais e individualistas que caracterizam a direita. Por isso que eu digo que é a esquerda que o Brasil conseguiu ter: foi importante, conquistou avanços sociais, mas empacou. No momento de dar um salto qualitativo, o PT não se demonstrou à altura dessa tarefa histórica, teve medo da radicalização.

"O problema da oposição é que ela não sabe o que fazer no dia seguinte", afirma Secco (Foto: Igo Estrela)
“O problema da oposição é que ela não sabe o que fazer no dia seguinte”, afirma Secco (Foto: Igo Estrela)

Fórum – À época do Mensalão, as políticas sociais do governo Lula conseguiram assegurar um segundo mandato ao ex-presidente mesmo com o cenário adverso. E hoje? O panorama com a Operação Lava Jato é pior do que o daquela época?

Secco – É pior porque o PT não tem mais uma reserva de lideranças. Para sobreviver, em vez de radicalizar-se, preferiu entregar numa bandeja a cabeça de todos os seus dirigentes históricos, exceto o Lula. A geração que dirigiu o PT desapareceu ali, e o partido passou a se sustentar no Lula. Tanto é que ele escolheu como sucessora uma pessoa que não é oriunda do PT. Agora, se o Lula for atingido, não fica mais ninguém. É claro que isso é imprevisível, o Lula pode se recuperar, como eu disse, mas do ponto estritamente político a situação é mais grave. Quando o Lula se reelegeu, a economia sinalizava uma melhora, suas políticas sociais estavam se assentando, e o que a Dilma tem agora, em termos de política social? Nada.

Fórum – Essa crise política atual mostra um esgotamento do modelo do presidencialismo de coalizão ou desse pacto social que é central para o lulismo?

Secco – Acho que a segunda opção, porque o presidencialismo de coalizão, xingado hoje por todo mundo, não é um defeito do sistema presidencialista em si, é um presidencialismo nas condições periféricas do Brasil. Qual seria a alternativa a isso? O parlamentarismo. Mas um parlamentarismo com um Congresso eleito proporcionalmente à população de cada estado? Porque nosso Congresso não é representativo nem desse ponto – o voto de um eleitor do Acre vale mais o de um eleitor de São Paulo. Historicamente, a presidência da República é mais progressista e o Congresso é mais conservador – desde 1950 é assim, porque a população se volta para a vida política no momento das eleições para presidente da República, cargo que concentra a vontade popular. O problema do presidencialismo é mais pelo fato de que não temos partidos organizados no Brasil, por isso a maneira de formar maiorias é fisiológica. Até acho que parlamentarismo como sistema ideal seja melhor, mas as coisas não existem em abstrações, existem na história concreta. Nesse sentido, o parlamentarismo hoje seria um golpe na população. A vantagem que se diz do parlamentarismo é que, numa crise como essa, o governo cairia com menores traumas. A que custo, para a população? Será que é melhor esse Congresso que está votando a redução da maioridade penal do que a presidenta que está no canto do ringue, aplicando o programa neoliberal? Não acho que o Congresso seja melhor do que ela.

Fórum – Diante do cenário em que há uma consolidação de um sentimento antipetista que também atinge a esquerda de uma forma geral, e de uma polarização política, você acredita em um crescimento eventual de algum presidenciável que representa a extrema direita em 2018? Quais as chances de Lula se candidatar?

Secco – O Lula pensando ou não em se candidatar – a depender do que acontecerá na Operação Lava Jato e com o mandato da Dilma, evidentemente – se estiver bem, tende a ser empurrado para isso, porque é a expressão de um campo político que quer sobreviver no Brasil. Ele pode sim ser candidato em 2018 e, se for, será competitivo. Com relação ao crescimento da extrema direita, ele é nítido. É possível que haja tanto um crescimento da extrema esquerda nas próximas eleições – seria uma candidatura do Psol – como da extrema direita, com uma candidatura do Bolsonaro, por exemplo. Mas nenhum desses extremos passará de 10% dos votos. O que acho que tem mais viabilidade eleitoral, se de fato o campo político do PT se desagregar, é uma via como a da Marina Silva. Ela não está falando nada nessa crise, não está se comprometendo, mas foi uma candidata forte nas últimas eleições e pode voltar a ser em 2018.

A própria oposição também não pode achar que este governo simplesmente já acabou e que é sua sucessora natural, porque continuará com seus problemas. Dois deles são básicos: primeiro, ela é regionalmente concentrada, e vai continuar com dificuldades para explicar seus programas liberais no Nordeste, por exemplo. Além disso, seus candidatos são figuras não carismáticas, que não encantam a maioria da população. Também não é tão fácil a vida para a oposição, para o PSDB, mais especificamente. O PMDB tampouco tem nenhuma grande figura nacional. Se há algo bom nessa crise, é que, como tudo é incerto, não é certo que a direita ou a extrema direita cheguem ao poder em 2018. Pode ser que haja uma solução pelo centro, com a Marina.

Nas eleições municipais do ano que vem aí sim acredito que o PT sofrerá uma queda muito acentuada. Pretende formar, uma frente de esquerda, para eleger o Marcelo Freixo, do Psol, no Rio de Janeiro; a Manuela D’Ávilla, do PCdoB, em Porto Alegre, e o Fernando Haddad em São Paulo. O acordo, que envolveria o PCdoB, o Psol, o PT e outros movimentos sociais, é uma estratégia defensiva dos partidos de esquerda que está se desenhando. É um dado novo, mas que esbarra sempre no problema do governo, porque se o PT insiste numa posição de direita, fica difícil conseguir o apoio de seus aliados.

(Foto de capa: Ricardo Stuckert/Instituto Lula)



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