Uma face feminista da ficção científica

Em entrevista à Fórum, uma das autoras independentes de ficção científica de destaque no Brasil, Lady Sybylla, fala sobre o papel político da FC e denuncia os ataques que as mulheres sofrem nesse universo

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Em entrevista à Fórum, uma das autoras independentes de ficção científica de destaque no Brasil, Lady Sybylla, fala sobre o papel político da FC e denuncia os ataques que as mulheres sofrem nesse universo

Por Jarid Arraes

Espaçonaves, viagens no tempo e novas dimensões – esses são alguns dos artifícios comumente utilizados em ficções científicas. Mais do que isso, a FC, como é conhecida, se utiliza de inovações e consequências da ciência, seja ela real ou imaginada, para explorar temas profundos, tais como relações humanas, divergências políticas ou conflitos morais e éticos. Assim como é possível abordar temáticas como a exploração dos animais ou criar uma distopia onde a humanidade luta por recursos naturais, a FC também é uma excelente ferramenta para explorar questões sociais, trocando o lugar entre pessoas no poder e grupos desprivilegiados e incentivando a reflexão dos leitores sobre as desigualdades.

Em entrevista à Fórum, a autora feminista independente Lady Sybylla, que também é geógrafa, professora, mestra em ciências e blogueira responsável pelo Momentum Saga, fala sobre seus projetos e a importância de aprofundar as discussões de gênero na ficção científica. Uma das autoras independentes de destaque no Brasil, Sybylla escreveu diversos contos de ficção científica, é coautora e editora da coletânea de FC feminista Universo Desconstruído e também é uma das responsáveis pela tradução da primeira história de ficção científica feminista, O Sonho da Sultana, escrita em 1905 por Roquia Sakhawat Hussain.

Leia abaixo a entrevista na íntegra:

Revista Fórum – Como começou o seu interesse pela escrita e pela ficção científica?

Imagem: Arquivo Pessoal
“O fandom nacional de ficção científica, a galera mais antiga, é machista, racista e homofóbica” (Imagem: Arquivo Pessoal)

Lady Sybylla – Lembro de assistir aos episódios da série clássica de Star Trek na Record aos 8 anos, isso lá nos anos 80. Esse foi o primeiro contato. Ou seja, comecei na TV, com as séries e filmes, para depois cair nos livros de FC, já na escola. Mas eram livrinhos da Coleção Vaga-Lume, os clássicos vieram ainda mais tarde. A escrita foi estimulada pela escola, nas aulas semanais de redação que tínhamos, desde os meus 13 anos, e a ficção científica foi umas das primeiras coisas que arrisquei a fazer. Bem ruins, obviamente, porque nem tudo o que a gente escreve é bom, mas nos auxilia na prática.

Fórum – Foi difícil encontrar seu lugar nesse universo?

Sybylla – É difícil ainda encontrar lugar. O fandom nacional de ficção científica, a galera mais antiga, é machista, racista e homofóbica. Não todos, tem raras exceções, mas muitos ali se identificam dessa forma e não toleram as críticas que faço à FC nacional. Acabei encontrando espaço entre as moças e mulheres expulsas de páginas e grupos de FC e nerdices justamente por conta desses comportamentos. As pessoas me conhecem mais pelo Universo Desconstruído ou pelo blogue, mas não sabem que escrevo FC e tenho contos e outros livros publicados por conta e com download gratuito no blogue mesmo ou em publicações online como a Revista Trasgo e a Revista Black Rocket. Já ouvi comentários tipo “olha, tem esse blogue aqui muito bom e, pasmem, é escrito por uma mulher”.

Fórum – O que te inspirou a criar o seu blogue, o Momentum Saga? Qual é a sua proposta?

Sybylla – O blogue Momentum Saga começou como um lugar de testes e acabei utilizando o espaço para falar de ciência e ficção científica. Até as resenhas de livros e filmes são quase que integralmente de FC. Agradeço ao blogue pelos projetos que tenho hoje, pelas pessoas incríveis que conheci e com quem pude trabalhar, por toda a divulgação feita pelos textos e pela oportunidade de oferecer um lugar seguro para moças, mulheres e quaisquer pessoas expulsas dos espaços dos fandoms. Comecei a escrever sobre as coisas que me incomodavam, sobre o que gostaria que mudasse e percebi que muita gente se identificava com isso e que não havia outros espaços discutindo os problemas da ficção científica. Venho publicando e-books gratuitos por ele, onde a pessoa baixa em três formatos e “paga” com um compartilhamento numa rede social, seja Twitter, seja Facebook. É uma forma de ajudar uma escritora independente.

Fórum – No caso do Universo Desconstruído, a proposta é ser realmente uma coletânea de FC feminista. O que caracteriza uma FC feminista?

Sybylla – Muita gente criticou a coletânea, achando que Aline Valek e eu estávamos inventando a roda. Chegaram a dizer que a gente ia deslegitimar o feminismo.  Estávamos cansadas da falta de representatividade, cansadas do “mais do mesmo”. A FC Feminista já é um gênero bem consolidado lá fora, com escritoras como Joanna Russ, Margaret Atwood, Ursula K. LeGuin, Octavia Butler, desconstruindo velhos estereótipos de gênero e discutindo temas como aborto, transexualidade, misoginia e opressão em suas obras. A FC Feminista lida com o papel da mulher e das minorias, com quebra de padrões, levantando discussões de pautas feministas e mostrando outros mundos onde essa opressão, esse sistema patriarcal não existe. Algumas obras podem mostrar mundos sem homens, mundos com inversões de papel de gênero, como é O Sonho da Sultana, outros simplesmente colocam mulheres como protagonistas e sem os estereótipos pesados de gênero. A FC Feminista sofre com o preconceito que qualquer livro escrito e protagonizado por mulheres sofre: nossa literatura é considerada menor, com “romancezinhos bobos”, que também sofrem preconceito. No Brasil, duas dessas autoras acima mencionadas nunca foram traduzidas e até as obras de LeGuin e Atwood chegaram com pouca expressão nas livrarias.

Imagem: Divulgação
“A FC Feminista sofre com o preconceito que qualquer livro escrito e protagonizado por mulheres sofre: nossa literatura é considerada menor, com ‘romancezinhos bobos’, que também sofrem preconceito”(Imagem: Divulgação)

Fórum – Você tem críticas ao modo como é feita a FC? Quais são os principais problemas com relação à representatividade feminina e ao sexismo?

Sybylla – Até hoje há uma aversão à presença de mulheres na ficção científica. Seja como personagens críveis e com quem possamos nos identificar, seja com as próprias autoras. Já de uns anos para cá têm rolado discussões em páginas de fandoms com temas do tipo “as mulheres estão destruindo a ficção científica”. Até que em 2015 dois grupos de “fãs e escritores” de FC criaram dois painéis de votação, os Sad e Rabid Puppies, que estavam insatisfeitos de verem o maior prêmio de ficção científica e fantasia hoje em dia, o Prêmio Hugo, tendo livros escritos por negros, mulheres, gays e trans premiados. Valendo-se do sistema de votação do prêmio, que é aberto, eles subiram obras de autores notoriamente de direta e reacionários, cujas obras carregavam todos os tipos de preconceitos e estereótipos de gênero.

Um dos líderes do Rabid Puppies, conhecido como Vox Day (Theodore Beale), já fez textos dizendo que mulheres não deveriam ter o direito ao voto e que negros são naturalmente selvagens. Os Sad e Rabid Puppies disseram que a as grandes aventuras da ficção científica foram deixadas de lado porque uma conspiração da esquerda quer ficar discutindo questões sociais e a FC não é feita para isso. Ora, meu filho, a FC SEMPRE discutiu isso. Seja em 1984, Admirável Mundo Novo, seja em Jogos Vorazes, a crítica está sempre lá. Isso só mostra o quanto a representatividade incomoda e como as pessoas ainda observam a FC como sendo um espaço em que só homens brancos, cisgênero e heterossexuais possam participar.

Outro exemplo foi na SFWA, Science Fiction & Fantasy Writers of America. Num dos boletins da associação, dois membros começaram a falar da presença de mulheres no fandom, discutindo como essa e essa mulher ficariam de biquíni. Eram escritoras e editoras e, quando elas se ofenderam e reclamaram, a resposta no boletim seguinte foi de que elas tinham que guardar uma silenciosa dignidade, como qualquer mulher decente faria. A reclamação aumentou e no boletim seguinte avisaram que quem continuasse reclamando seria posta para fora da associação.

Fórum – O machismo, o racismo e outras formas de discriminação estão presentes  em muitas obras de autores de FC celebrados e reconhecidos?

Sybylla – Sim. E como! Isaac Asimov, um notório assediador de mulheres, não sabia escrever uma personagem feminina decente. Nem a Dra. Calvin, sua personagem mais conhecida, se salva. Sobre racismo, acho que ninguém melhor que Samuel R. Delany, negro e gay, um dos grandes patrimônios da FC mundial, para ilustrar isso. Quando ele ganhou o prêmio Hugo de 1968, Asimov disse que ele só ganhou por ser negro, equivalente a nigger, em inglês, algo como “crioulo”. Seus contos e livros sempre passavam pelo crivo de editores brancos e muita coisa sua precisou ser mudada e censurada para ter uma edição. Ursula K. LeGuin já admitiu para a Paris Review que precisava escrever do ponto de vista masculino ou não conseguiria ser publicada. John C. Wright, autor apoiado pelos Sad e Rabid Puppies, teceu comentários homofóbicos sobre The Legend of Korra devido ao relacionamento afetivo entre duas mulheres na trama e seus livros são super conservadores. Orson Scott Card é homofóbico, até contribui com associações que são contra casamento gay. Ou seja, temos vários exemplos. Alguns escritores mais velhos, como Heinlein, estão sendo revistos e vários momentos racistas, machistas e homofóbicos vêm sendo analisados.

Noto que há movimentos para a mudança. Os filhotinhos tristes e raivosos não teriam sequestrado o prêmio se a mudança não incomodasse.

Fórum – Os ataques contra as mulheres que escrevem FC e que apontam a misoginia nesse “universo” são frequentes? Você já lidou com isso?

Imagem: Divulgação
A primeira história de ficção científica feminista, O Sonho da Sultana, escrita em 1905 por Roquia Sakhawat Hussain e traduzida por Lady Sybylla (Imagem: Divulgação)

Sybylla – Recebia muitos comentários agressivos e ofensivos, uma ameaça de estupro e até de abdução por alienígenas. Isso melhorou depois que mudei o sistema de comentários. Qualquer mulher que tenha opinião e discorde do status quo vai receber ofensas e ameaças. É assim que a mente deles trabalha, na base da opressão e do silenciamento. Mulheres que denunciem qualquer tipo de opressão ou que façam críticas são fortemente rechaçadas e ofendidas. Nos games temos o exemplo da Anita Sarkeesian e denúncias falsas à polícia que mandam equipes da SWAT para a casa dela. No Brasil mesmo as mulheres recebem ameaças e até encomendas de péssimo gosto. São pessoas que acreditam na própria superioridade.

Fórum – Você tem alguma mensagem para os fãs de FC que estão lendo sua entrevista?

Sybylla – Ficção científica, assim como qualquer gênero da literatura, é um espaço para todos. Não há porque apenas um grupo querer ficar com os brinquedos só pra ele. É isso o que muita gente não entende quando faço críticas ao fandom. Eu não quero destruir ninguém, quero espaço para todos e nem isso essa galera quer deixar. É muito umbiguismo, muito egoísmo achar que apenas um único grupo, que não faz nada de diferente, domine algo tão grande quanto a ficção científica.

Foto de capa: Arquivo Pessoal



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