Por que Tsipras tem vantagem no desafio definitivo contra os rebeldes do Syriza

A essa altura, não havia muitas opções para o primeiro-ministro grego que não fosse convocar novas eleições. O fator que decidirá o resultado eleitoral reside em saber quem fará o relato definitivo dos acontecimentos dos últimos seis meses para convencer a opinião pública

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A essa altura, não havia muitas opções para o primeiro-ministro grego que não fosse convocar novas eleições. O fator que decidirá o resultado eleitoral reside em saber quem fará o relato definitivo dos acontecimentos dos últimos seis meses para convencer a opinião pública

Por Iñigo Sáenz de Ugarte, tradução livre a partir de Guerra Eterna, via El Diario

Esta é uma matéria da Fórum Semanal. Confira o conteúdo especial da edição 210 clicando aqui

Existe algo de Alexis Tsipras que não se pode negar: é um sujeito valente. Depois de aceitar o que para muitas pessoas de fora da Grécia significou uma rendição ante a Troika, ele não tentou resistir em seu gabinete com o argumento de que ainda restavam três anos de legislatura. Em seu discurso da noite de quinta (20), disse que sente que tem “uma obrigação moral de apresentar este acordo ao povo para que eles decidam” e que deem seu veredito sobre “o que consegui e os meus erros”. E, a partir daí, fez- a convocatória para as segundas eleições deste ano.

Não foi isto que fizeram os governos anteriores da Grécia quando aceitaram dois resgates impostos pelas instituições europeias. Tampouco foi esta a decisão de Zapatero depois de colocar em marcha um plano de austeridade em maio de 2010 que contrariava suas promessas eleitorais. Em teoria, depois de uma derrota política de tais dimensões, nenhum governante tem coragem para enfrentar um destino incerto nas urnas.

Dito isto, é preciso recordar que Tsipras não teria muitas outras opções em função da divisão interna do partido. Os dirigentes da ala mais esquerdista do Syriza prometeram depois da primeira votação sobre o acordo com a Troika que seguiriam apoiando o governo. Não foi isso que aconteceu. Desde então, e até certo ponto era inevitável que assim fosse, continuaram com sua rebelião contra todas as novas medidas. Há uma semana, Panayiotis Lafazanis – ex-ministro de Energia e líder da corrente Plataforma de Esquerda – anunciou a formação de um movimento contra o resgate, ou seja, na linha de colisão direta contra Tsipras. Pouco depois, deixou claro que tinha a intenção de votar a favor de uma moção de censura ao governo, uma das alternativas da qual o primeiro-ministro estava se esquivando.

Syriza já não era um partido, mas no mínimo dois, e essa era uma realidade que não podia ser ignorada por mais tempo. Tsipras sabia que tinha contra si a metade dos membros do Comitê Central do partido e que havia pelo menos 30 deputados não lhe apoiavam. Com menos de 120 deputados sob seu comando em uma Câmara de 300, não podia garantir a estabilidade de seu governo, que dependia para as votações relacionadas com a política econômica do apoio da Nova Democracia, Potami e o Pasok. A legislatura havia chegado a seu fim.

Esperar até outubro, quando a União Europeia fará a primeira revisão do terceiro resgate era um risco excessivo. Não se pode prever como reagirão Alemanha, o BCE e a Comissão Europeia nesse momento. Cada parcela do auxílio concedido – não esqueçamos, para que a Grécia pague suas dívidas, não para sair da crise – está condicionada à execução de medidas pactuadas. Nesse momento, um “não” da Troika cairia sobre um governo muito mais debilitado que agora.

Com sua decisão de quinta-feira, Tsipras lança o desafio definitivo contra a Plataforma de Esquerda. Se querem guerra, terão que formar um novo partido ou tentar expulsar do Syriza o primeiro-ministro. As pesquisas – sempre é necessário tomar cuidado em relação a elas por causa do cenário instável da política grega – indicam que o Syriza de Tsipras mantém um alto grau de apoio, por volta de 40%, que inclusive poderia lhe conceder maioria absoluta. Ao Syriza de Tsipras, não ao Syriza de Lafazanis. Se existir o Syriza de Varufakis, e se o ex-ministro de Finanças decidir se converter no líder de los rebeldes, talvez tenha que se reavaliar o prognóstico. Mas não seria descabido achar que Varufakis é mais popular na esquerda europeia que na grega.

O fator que decidirá o resultado eleitoral reside em saber quem fará o relato definitivo dos acontecimentos dos últimos seis meses para convencer a opinião pública grega. Tsipras conta com algumas cartas sólidas em seu poder – a que me referi no primeiro parágrafo – e outras muito mais frágeis, como a ideia de que o terceiro resgate era o “melhor acordo que poderia obter” ou que era mais favorável que o que oferecia a Troika antes do referendo.

Agora ele tem um aliado improvável na diretora do FMI. Lagarde já não se esconde. Sem uma redução significativa do peso da dívida, este último acordo fracassará, ela disse. Este é um lance da trama da crise grega que não esperávamos que fosse se produzir tão prontamente: Tsipras e Lagarde no mesmo barco. Certamente o líder do Syriza não usará isso como argumento para convencer o eleitorado.

Há um fato ignorado vez ou outra de fora da Grécia. Tsipras não pode criar sua própria realidade e tem que respeitar os sentimentos da opinião pública grega. Nunca teve um mandato, nem sequer depois do referendo, para tirar o país da eurozona, porque os gregos se opõem a esse salto rumo ao desconhecido. Economistas muito inteligentes podem dizer que é muito possível que a Grécia estivesse melhor, ou no mínimo igual, se tivesse abandonado a eurozona em 2010 com o apoio necessário da União Europeia.

Mas esses economistas não têm que ganhar eleições na Grécia. Nem eles, nem os dirigentes e eleitores dos partidos espanhóis, nem nenhum dos que não têm sofrido as consequências do colapso brutal da economia deste país nos últimos cinco anos.

Foto de capa: FrangiscoDer



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