A visita de Merkel, o dogma e o futuro ausente

O tratamento dispensado pela maioria dos grandes grupos de mídia à visita da Chanceler alemã, Ângela Merkel, ao Brasil é mais uma evidência da forma irresponsável como os mesmos vêm conduzindo sua luta política contra o atual governo.

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O tratamento dispensado pela maioria dos grandes grupos de mídia à visita da chanceler alemã, Angela Merkel, ao Brasil é mais uma evidência da forma irresponsável como os mesmos vêm conduzindo sua luta política contra o atual governo

Por Vinicius Wu

Esqueça, por um instante, a operação Lava Jato, as manifestações contra ou a favor do atual governo, as acusações contra Eduardo Cunha, as trapalhadas de Aécio Neves e tudo mais que se relacione com a atual “crise” que paralisa o país. Em seguida, tente se lembrar de algum momento no qual – após as eleições de 2014 – foi possível debater, com algum grau de serenidade, qualquer assunto relevante para o futuro do país.

Bem, a conclusão, provavelmente, seja a de que temos nos privado de discutir qualquer tema que ultrapasse a semana seguinte. A capital federal, Brasília, em especial, vive esse clima. Ele contamina, especialmente, a esfera da política, mas o fenômeno não se restringe ao Congresso e ao governo. O futuro anda ausente de nossas preocupações. E em sua ausência, resta-nos aceitar os dogmas do presente – o ajuste dentre eles. É preciso romper o cerco e imaginarmos novos horizontes, caso queiramos reduzir os custos sociais da atual situação econômica.

O tratamento dispensado pela maioria dos grandes grupos de mídia à visita da chanceler alemã, Angela Merkel, ao Brasil é mais uma evidência da forma irresponsável como os mesmos vêm conduzindo sua luta política contra o atual governo.

Mas, parece compor, também, um esforço deliberado no sentido de bloquear qualquer debate sério acerca do posicionamento do país no cenário global dos próximos anos – algo indispensável num contexto de crise econômica –, sobre eventuais alternativas ao ajuste – ou, até mesmo, a respeito do “pós-ajuste”.

A tímida cobertura de importantes veículos de mídia sobre a visita de Merkel é, de fato, um caso que merece atenção. O Brasil é um parceiro estratégico dos alemães. E, obviamente, a Alemanha é importantíssima para a economia brasileira. O Brasil possui o maior parque industrial alemão fora da Alemanha. São mais de 1600 empresas alemãs instaladas por aqui. Os alemães são nossos principais parceiros comerciais na Europa e o quarto no geral, ficando atrás apenas de China, EUA e Argentina.

Subsidiárias de empresas alemãs respondem por, nada menos do que, 10% do nosso PIB. Somente a Basf acaba de investir meio bilhão de dólares no país. Durante os governos do PT, o comércio entre Brasil e Alemanha cresceu 175%. Mas, os alemães sabem que estão perdendo espaço na economia brasileira. Investidores chineses, por exemplo, estão ampliando sua presença em setores estratégicos como o da exploração do petróleo e transportes. Esse foi o motivo principal da visita de Merkel ao país. E o que o Brasil espera dessa relação? Qual será a participação alemã no plano de infraestrutura anunciado recentemente pelo governo federal? Bem, como se sabe, esses não foram temas relevantes para a grande mídia na última semana.

Em meio ao cenário de incertezas a respeito dos rumos da economia global, o Brasil parece viver num mundo à parte. Pelo menos, é essa a impressão que se tem ao acompanharmos o noticiário nacional.

O terrorismo econômico – ao qual estamos submetidos há meses –, a incessante cobertura dos bastidores da crise política etc. nos afasta de qualquer debate sério a respeito de alternativas.

O ajuste passa, assim, a se tornar dogma. Não há espaço para qualquer reflexão alternativa. Vivemos um eterno presente, uma situação de crise sem fim, construída politicamente, e com o entusiasmado suporte de grandes grupos de mídia.

A atual situação econômica do Brasil não é tão dramática quanto nos querem fazer acreditar (pode até evoluir para isso, mas ainda não o é). Mas, o clima de histeria ao qual estamos submetidos tem causado sérios prejuízos. Não foi por acaso que, recentemente, importantes segmentos empresariais manifestaram-se favoráveis a uma trégua política que possibilite ao país – e sua economia – respirarem.

A esquerda, os movimentos sociais e os setores progressistas da sociedade brasileira precisam encontrar os meios para reposicionar o debate político, o quanto antes. É preciso superar a atual sensação de paralisia. É claro que está na ordem do dia combater as investidas contra o mandato da presidenta Dilma, conquistado nas urnas, e defender a democracia.

Mas, até para que se tenha sucesso nessa tarefa, é preciso pensar o “pós-crise” e apresentar soluções concretas que reorganizem e reanimem a própria base social de sustentação ao projeto político que o atual governo representa. E isso não será possível sem que apresentemos alguma perspectiva de futuro, bem distinta da situação na qual nos encontramos.

Foto de capa: Blog do Planalto



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