O junho que venceu

Foram muitas as jornadas de junho, mas uma delas ganhou legitimidade e se ergueu de carona com uma direita atenta às reivindicações. O que se viu em março, abril e, agora, em agosto, é que, apesar de hegemônico, o ódio antidemocrático que passeou pelas...

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Foram muitas as jornadas de junho, mas uma delas ganhou legitimidade e se ergueu de carona com uma direita atenta às reivindicações. O que se viu em março, abril e, agora, em agosto, é que, apesar de hegemônico, o ódio antidemocrático que passeou pelas ruas em protesto convive também com um vácuo que a esquerda ainda não soube preencher

Por Murilo Cleto

Esta é uma matéria da Fórum Semanal. Confira o conteúdo especial da edição 210 clicando aqui

Existe certo consenso entre analistas não totalmente arrastados pela polaridade que tomou conta do debate político no Brasil sobre junho de 2013: ele nunca foi um só. Junho não foi só a reação à violência policial, nem apenas a luta contra o aumento da passagem de ônibus ou por melhores serviços públicos. Também não foi só a saturação do fisiologismo ou a explosão reacionária, muito menos a indignação contra a corrupção.

Pouco tempo depois, e mesmo durante a hecatombe, junho virou uma espécie de texto sagrado. Lido como se quis conforme o interesse de quem o acionava para legitimar qualquer reivindicação, seja dentro ou fora da política institucional, junho tem sido mais uma imagem do que um fato que se encerra nos próprios limites. Nada muito diferente do que é a história, verdade seja dita.

À direita, à esquerda, pelo centro, tanto faz, junho já foi entendido como triunfo conservador, progressista e até anarquista. Nas ruas, marcharam médicos, travestis, comunistas ortodoxos, neofascistas, padeiros e estudantes, além daqueles que não se classificavam como coisa alguma – junho carregou-os como um tsunami bem-vindo.

Diante do vulcão em erupção, a mídia corporativa fez uma escolha fundamental para os rumos deste junho de uma identidade tão líquida quanto a de seu tempo. O que já não se podia esconder, nem repudiar como se fez nos primeiros dias de convulsão, tornou-se objeto de apropriação. A partir daí, o junho “certo” passou a se distinguir do junho “errado” num interessante exercício de apartamento: vândalos, black blocs e partidários, de um lado; cidadãos de bem e apartidários, de outro.

Durante a cobertura ao vivo dos protestos de 2013, William Bonner repetiu à exaustão a ideia de “essência”, que passou a permear e a legitimar as manifestações. Nem todas as manifestações, mas as “corretas”. A sustentação deste discurso se viu nas ruas, sob a forma das mais variadas formas de violência, físicas e simbólicas, contra minorias, partidos políticos, movimentos sociais, centrais sindicais e lideranças mais ou menos alinhadas com a política institucional.

Acima de todos os outros, junho deu um recado: o modelo político do país esfumaçou. Houve, claro, quem o entendeu. E não foi a esquerda. Quem diz isso são também os resultados das eleições de 2014: celebridades eleitas ou alçadas ao posto de uma alternativa que ninguém conseguiu oferecer, ainda que não tenha sido por falta de tentar. Durante o pleito, principalmente Marina Silva e Luciana Genro levantaram a bandeira de diferentes junhos, cada qual ao seu modo.

Na esteira de Eduardo Campos, Marina se disse terceira via de um projeto que, na verdade, já estava em andamento – o do desenvolvimento sem rupturas com o fisiologismo –, apoiada na rejeição aos dois partidos que se sucederam no Planalto desde 1994. Perdeu fôlego com o esvaziamento da comoção nacional em torno da morte do político nordestino e com a artilharia pesada lançada por PT e PSDB na reta final da campanha. Luciana foi além: com a bandeira de minorias comumente não privilegiadas pela democracia de coalizão e sem dinheiro para ocupar o espaço midiático tradicional, acabou em quarto lugar. Clamou um junho verdadeiro de 2013, mas que também, como nas urnas, não venceu.

O que se viu desde então é uma avalanche reacionária. De concessões neoliberais contra direitos trabalhistas à redução da maioridade penal, passando pela constitucionalização das doações de empresas a partidos e políticos e pela propositura de projetos de lei com apelo macartista, como o que criminaliza o “assédio ideológico” nas escolas. Isso sem falar da panaceia em torno da questão de gênero nos planos de educação, do federal aos municipais, apropriada como massa de modelar diante de uma academia atônita em frente a um furacão ensurdecedor. Figuras como Olavo de Carvalho, até dez anos atrás reconhecido como a personificação de uma indigência intelectual inofensiva, passou a pautar boa parte de um coletivo sem sigla de fato saturado do que vê.

Nos protestos de 2015 contra o governo Dilma, em março, abril, e, agora, em agosto, algo daquele junho permaneceu. Não são as centrais sindicais, nem os partidos ou movimentos sociais. É o junho essencializado, vestido de verde e amarelo e bradando contra a corrupção e os partidos, especialmente o dos Trabalhadores. Mas dados reveladores da última pesquisa coordenada pelos professores Pablo Ortellado (USP), Esther Solano (Unifesp) e Lucia Nader (Open Society) apontam, no mínimo, para a provisoriedade deste panorama. E pode ser que o vácuo de representatividade ainda esteja presente.

Apesar da maior homogeneidade social que a observada em 2013, escancarada pela presença maciça de brancos das classes A e B, os números destoam do recado predominante nos caminhões de som que ocuparam as capitais brasileiras no último dia 16. Enquanto cresce, por exemplo, a sensação de que os protestos buscam a entrega, simples e inconteste, do poder à oposição, ou mesmo aos militares, a bandeira do PSDB segue distante de qualquer hegemonia e 71% discordam de uma intervenção militar. 88% acreditam que a solução seja atribuir poderes a políticos honestos, sendo que 96% não estão satisfeitos.

Na lista de personalidades públicas mais confiáveis, Jair Bolsonaro, Sérgio Moro e Joaquim Barbosa ocupam, na ordem, os três primeiros postos na percepção dos manifestantes. Em comum, carregam a ausência de uma identificação partidária (Bolsonaro segue alinhado à disciplina moral militar), que, neste imaginário, significa autonomia em relação à estrutura corrupta observada pelo brasileiro, mesmo fora das ruas. De acordo com a última pesquisa da OAB sobre o tema, os partidos políticos não são confiáveis para 91% da população, índice que casa com a rejeição recorde da presidenta e destacada diariamente pelos meios de comunicação.

Outra questão importante levantada pela coleta durante os protestos de agosto é que, também ao contrário do que se vende, não há intenção predominante de se entregar serviços públicos à iniciativa privada. Mais de 96% dos entrevistados afirmaram que é dever do Estado prover serviços de saúde para todos os brasileiros. Praticamente o mesmo índice, mas com mais convicção, apontava para a responsabilidade do governo sobre a Educação. E os números não divergem fundamentalmente em outras áreas de serviços básicos.

Isso significa, num certo sentido, que há algo daquele junho não sepultado, mas recalcado pela ascensão de uma direita que soube cooptar a insatisfação de uma legião de indignados, mas sem identificação partidária, algo que a esquerda não conseguiu. Ao El País Brasil, Rosana Machado-Pinheiro, que é professora de Antropologia em Oxford, foi além e alertou para o risco “para a esquerda e para a sanidade da sociedade” que a ridicularização dos protestos atuais representa: “para esquerda porque perde uma parcela que ainda é dialogável, mesmo que não seja a maioria das pessoas que integrem esses protestos. Temos de separar que faz apologia do crime, da volta da ditadura dos demais que compartilham algumas pautas, estando ou não no protesto. Ridicularizando faz com que polarize. E a quem interessa a polarização? Aos extremos. Se eu estou com raiva e me junto, debocham de mim. Quanto mais fazem isso, mais eu me afasto. Para a sociedade como um todo o risco é grande. As pessoas estão sendo canalizadas para pautas de extrema direita, pautas violentas. É normal que em tempos de crise, o fascismo ou hipernacionalismo floresçam porque dão respostas simples — a culpa é do pobre ou do migrante — para problemas complexos. As pessoas não sabem como fazer, só sabem que a coisa anda errada e que é preciso mudar, melhorar. Acredito que a ridicularização atira quem quer viver numa sociedade onde os políticos roubem menos e os serviços funcionem mais para a direita. Uma população que está assustada com a violência, em cidades como Porto Alegre e Fortaleza, por exemplo. São pautas legítimas”.

Que sejam os protestos assustadores em muitos níveis, se se quer algo como a permanência da democracia, hoje ameaçada, essa é uma multidão que precisa ser compreendida, inclusive na sua expressão da violência. Que seja o ódio presença não-repreendida nas ruas, há bons indicativos de que o junho que venceu não é o único possível. E, por fim, que seja esta uma missão quase impossível para mais de 2 anos de inércia não deixá-lo nas mãos de uma direita intelectualmente desonesta, mas a única capaz de não permitir o encontro que agora parece mais provável, que é o com a barbárie.

Murilo Cleto

 

Murilo Cleto é historiador e mestre em Cultura e Sociedade. Atua como coordenador municipal de Cultura e professor no Colégio Objetivo e no curso de Licenciatura em História das Faculdades Integradas de Itararé.

Foto de capa: Tânia Rego/Agência Brasil



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