Quem não pode com as mulheres não assanha o formigueiro

Com o título de Formigueiro, documentário retrata a luta das mulheres em diferentes regiões do país, chamando a atenção para o feminismo cotidiano das mulheres das áreas rurais. Em entrevista à Fórum, a diretora e roteirista Bruna Provazi fala sobre o projeto

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Com o título de Formigueiro, documentário retrata a luta das mulheres em diferentes regiões do país, chamando a atenção para o feminismo cotidiano das mulheres das áreas rurais. Em entrevista à Fórum, a diretora e roteirista Bruna Provazi fala sobre o projeto

Por Jarid Arraes

Esta é uma matéria da Fórum Semanal. Confira o conteúdo especial da edição 210 clicando aqui

“Prefiro morrer na luta do que morrer de fome”.  A citação atribuída a Margarida Alves, líder sindical paraibana assassinada na porta de casa, em 1983, por um matador de aluguel, abre o teaser do documentário “Formigueiro – A revolução cotidiana das mulheres” dividindo espaço com o conselho musicado: “Pisa ligeiro, pisa ligeiro. Quem não pode com as mulheres não assanha o formigueiro“.

Imagem: Divulgação
Em Formigueiro, o feminismo é a luta cotidiana, o combate ao agronegócio e a voz das mulheres esquecidas pela mídia (Imagem: Divulgação)

Formigueiro é uma iniciativa de cinco integrantes do Coletivo de Comunicadoras da Marcha Mundial das Mulheres, também responsáveis pelo web programa “Uma Pitada de Feminismo“. Mas no documentário não tem receita pronta; pelo contrário, a proposta é mostrar a pluralidade dos movimentos de mulheres em diferentes regiões do país, rompendo com a lógica sudestina e individualizada do que se tem compreendido por feminismo. Em Formigueiro, o feminismo é a luta cotidiana, o combate ao agronegócio e a voz das mulheres esquecidas pela mídia.

Para que o trabalho possa ser concluído, exibido gratuitamente em um circuito popular de cinedebates e disponibilizado online, o Formigueiro pede apoio pelo site da Benfeitoria, lutando para atingir a primeira meta de 14 mil reais.

Em entrevista à Fórum, a diretora e roteirista Bruna Provazi falou sobre o projeto e as dificuldades do Feminismo para além dos discursos de empoderamento individual. Leia a seguir:

Revista Fórum – O que motivou a criação do documentário? Qual é a proposta?

Bruna Provazi – A ideia surgiu do nosso envolvimento pessoal com a causa feminista, especificamente com a diversidade de mulheres que estão organizadas na Marcha Mundial das Mulheres e que não têm voz na grande mídia quando se fala de feminismo. São mulheres diversas que, como o próprio nome do filme diz, promovem verdadeiras revoluções no seu cotidiano, mas que passam quase despercebidas da população, porque elas não têm nenhuma visibilidade hoje.

Com o filme, queremos contar essas histórias de luta e mostrar que as mulheres resistem hoje, em todas as regiões do Brasil, por seus territórios, por seus corpos e por suas vidas.

Fórum – Quais são os desafios para a produção desse documentário?

Imagem: Divulgação
“Temos o desafio de representar uma diversidade de mulheres das cinco regiões do país, negras, indígenas, lésbicas, jovens, adultas, rurais e urbanas.” Imagem: Divulgação

Provazi – Acho que o maior desafio até agora tem sido fazer cinema de forma independente e feminista. A equipe do filme é toda formada por mulheres e lançamos uma campanha de financiamento coletivo para ajudar a custear as viagens e permitir que terminemos as gravações nos cinco estados que faltam. Temos recebido apoio de muita gente que quer ouvir as histórias das mulheres e deseja ver o documentário pronto. Mas esse processo de arrecadação tem sido um verdadeiro trabalho de formiguinha também.

Além disso, temos o desafio de representar uma diversidade de mulheres das cinco regiões do país, negras, indígenas, lésbicas, jovens, adultas, rurais e urbanas. Procuramos retratar a realidade de cada uma delas em seus territórios e travando suas próprias lutas, mas que ao final concluímos que fazem parte de uma mesma batalha: mudar a vida das mulheres. A sensação é de que precisaríamos produzir uns três filmes para dar conta de tantas histórias emocionantes que ouvimos.

Fórum – Vocês já viajaram para regiões do Brasil que acabam sendo muito preteridas nos debates e pautas feministas. São perceptíveis as diferenças entre o feminismo sudestino e os feminismos no Norte e Nordeste do país?

Provazi – Com certeza. Aqui em São Paulo, assim como em outros grandes centros urbanos do Sudeste, vivemos um momento de explosão de coletivos e grupos feministas, que debatem diferentes teorias e vão para a prática e que têm muito acesso às mais variadas formas de informação. Uma grande parte das militantes daqui está muito conectada à internet e esse feminismo online, dos grupos de discussão no Facebook e nas listas, também faz parte das dinâmicas dos coletivos.

Viajando para outras regiões, percebemos que existe um outro mundo, em que o acesso à internet é extremamente precário e as questões centrais para as mulheres são aquelas que dizem respeito à sua vida concreta: fim da violência contra a mulher, creches, divisão do trabalho doméstico e de cuidados com os homens e, no caso das mulheres rurais, o reconhecimento de seu trabalho na horta e na criação de animais como trabalho de fato. Para elas, uma das batalhas diárias também é para que suas demandas e sua organização própria, enquanto mulheres, sejam respeitadas. Mas elas também estão enfrentando diretamente o agronegócio, a especulação imobiliária, a crise financeira e estão construindo alternativas próprias.

Fórum – Por que o ativismo das mulheres que não são sudestinas, brancas e de classe média continua sendo silenciado?

Imagem: Divulgação
“O feminismo está muito em alta hoje, mas um feminismo liberal, de mulheres brancas de classe média.” Imagem: Divulgação

Provazi – Acho que, antes de tudo, porque temos no Brasil um grande monopólio dos meios de comunicação, que estão concentrados nas mãos de poucas famílias, políticos e igrejas, que estão voltados aos interesses do capital e nos quais a população simplesmente não está representada. Daí temos o fato de que os movimentos sociais e as ideias progressistas não têm visibilidade nos meios tradicionais ou, pior, quando têm alguma visibilidade, são retratados de forma extremamente pejorativa e deturpada.

Com as mulheres não é diferente. O feminismo está muito em alta hoje, mas um feminismo liberal, de mulheres brancas de classe média, retratadas individualmente como mulheres bem-sucedidas em tal área, ou como se o feminismo fosse um comportamento a ser adotado, uma mudança cultural apenas e não um movimento de transformação social e político.

Não é lucrativo para a grande velha mídia retratar mulheres negras, indígenas, rurais, periféricas, lésbicas e não-jovens que estão organizadas em movimentos e lutando diariamente para transformar suas vidas e o mundo. Vai contra os próprios interesses do capital… E é por isso que nossa pauta também é a democratização da comunicação. Porque do jeito que está, não tem como. E mesmo grande parte do feminismo que está super conectado tem essa dificuldade de enxergar a luta concreta das mulheres de outros lugares, que tem a ver com as condições materiais da vida como parte da luta feminista, e é isso o que queremos mostrar no filme também.

Fórum – Com a influência das redes sociais, como você avalia o desenrolar do feminismo contemporâneo? Há a tendência de se utilizar pautas feministas como cultura pop?

Provazi – Essa abordagem que a mídia de massas faz do feminismo como um comportamento individual é extremamente nocivo para nós que acreditamos no feminismo como um movimento de profunda transformação social. A indústria cultural se apropria do feminismo, assim como já se apropriou em outros momentos desse e de outros movimentos, como o punk, por exemplo, e devolve para a sociedade toda a radicalidade que o movimento tem com uma embalagem inofensiva, que não questiona as raízes da nossa opressão. E mais uma vez o mercado lucra em cima de nós, oferecendo o “sabonete da mulher gordinha”, “o xampu da mulher negra”, “a revista da mulher de bem com ela mesma”.

Mas, pior que isso, a ideologia em voga nos meios tradicionais é que o feminismo é uma postura a ser adotada individualmente, portanto, toda mulher pode ser feminista, de preferência mantendo-se “feminina”. Veja bem, é claro que queremos que todas as mulheres sejam feministas, porque o feminismo é libertador, mas dizer que você sozinha é capaz de enfrentar o machismo é no mínimo desencorajador. São séculos de opressão construída e precisamos da organização de todas as mulheres para transformar essa estrutura patriarcal e capitalista.

Saiba mais sobre o documentário em seu site oficial: www.formigueirofilme.org

Foto de capa: Reprodução



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