A espetacularização de nós mesmos

O mundo hoje ficou chocado com o crime cometido nos EUA, onde uma repórter e um cinegrafista são mortos durante uma entrevista ao vivo, tudo registrado em vídeo pelo assassino e posteriormente postado em...

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O mundo hoje ficou chocado com o crime cometido nos EUA, onde uma repórter e um cinegrafista são mortos durante uma entrevista ao vivo, tudo registrado em vídeo pelo assassino e posteriormente postado em sua conta no Twitter. O crime ocorreu em Faquier County e o suspeito é Bryce Williams, um ex-colega dos jornalistas mortos, Alison Parker e Adam Ward,  que trabalhavam na TV WDBJ, afiliada da CBS nos Estados Unidos. Segundo a Polícia, o suspeito teria tentado o suicídio, como ato final de sua sórdida trama.

A peculiaridade do crime e o que mais choca é o fato de que o autor do crime gravou tudo em primeira pessoa. No vídeo, ele chega a esperar o câmera voltar para a repórter Alison Parker, para que possa alvejar a jornalista durante a transmissão ao vivo.

Vivemos uma era onde não basta fazer parte de algo, tudo tem que ser registrado. A forma com a qual o assassino espera catelosamente a jornalista ser focada durante a matéria ao vivo, para então atirar nela revela um pouco tamém de uma sociedade que demarca cada passo, cada tropeço, cada ato tresloucado. Somos todos extremamente narcisistas.

No entanto não podemos afirmar que os novos meios de comunicação online têm alguma culpa por esse exibicionismo exarcebado, pois o fato de termos nossas vísceras tão expostas não criminaliza o meio, mas sim, nós, sujeitos. Isso causa um misto de entusiasmo e decepção quando percebemos o que temos de melhor e também o que temos de mais pavoroso.

Crimes assim, ao contrário do que muitos podem pensar, não comprovam que estamos “perdidos” ou somos em maioria ruins. Não, pelo contrário. A exceção, o que destoa, é justamente o que (ainda) não é a regra, por isso mesmo causa tanto choque. Ainda bem, pois do contrário o cenário seria catastrófico.

Somos hoje uma sociedade desnuda, quase sem máscaras pois externamos muitas vezes  em tempo real, quem realmente somos, o que realmente somos, o que pensamos. Embora isso cause espécie, ao mesmo tempo nos serve de alerta para identificar os rumos que estamos tomando, dos bons aos maus caminhos. Os mecanismos para expor essas cicatrizes e feridas abertas, justamente estas mídias online, são apenas o meio e não devem ser encarados como vilões. São ferramentas úteis para diagnosticar uma sociedade que acha feio o que não é espelho.

Nesta era, o que é bom ou mau, parece existir tão somente se for registrado e publicizado. Esse talvez seja o maior desafio que iremos enfrentar: retirar de nossos egos esse desejo desenfreado pela posteridade instantânea.

Até lá, rezar pelas vítimas que sucumbem pelo caminho, como os dois jovens repórteres cuja vida foi brutalmente ceifada hoje.



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