Jeremy Corbyn, o “Pablo Iglesias britânico”

O maior desafio do candidato das primárias do Partido Trabalhista não é apenas se esquivar dos ataques de seus inimigos políticos, mas sobretudo deslocar junto à sociedade britânica os limites do viável dentro da política europeia

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O maior desafio do candidato das primárias do Partido Trabalhista não é apenas se esquivar dos ataques de seus inimigos políticos, mas sobretudo deslocar junto à sociedade britânica os limites do viável dentro da política europeia

Por Alejandro Alcolea, tradução livre a partir do La Marea

Esta é uma matéria da Fórum Semanal. Confira o conteúdo especial da edição 211 clicando aqui

A candidatura surpresa de Jeremy Corbyn na disputa pela liderança do Partido Trabalhista foi um xeque no tabuleiro do jogo político britânico. Taxação de grandes fortunas, rejeição a políticas neoliberais, saída da Otan, nacionalização de setores estratégicos, defesa dos direitos trabalhistas, sustentabilidade ambiental e luta contra a pobreza: a tonalidade esquerdista do programa político do candidato suscitou duras críticas fora e dentro do partido.

Segundo os resultados das pesquisas do YouGov, Corbyn conta com o apoio de 51% dos militantes e segue subindo, à frente de Andy Burnham (21%), Yvette Cooper (18%) e Liz Kendall (8%). Além disso, Corbyn passou a contar com o apoio do sindicato Unite, um dos mais fortes do Reino Unido. De 14 de agosto e até 10 de setembro, aproximadamente 600 mil afiliados e simpatizantes poderão eleger o líder do Partido Trabalhista britânico, após a derrota e posterior demissão de Edward Miliband nas eleições gerais de maio.

A menos de um mês da realização das primárias do Partido Trabalhista, a espera gera ansiedade. Os meios de comunicação, junto a seus rivais políticos, têm jogado sobre a figura do candidato anti-austeridade – e que a imprensa espanhola não tardou a batizar de “Pablo Iglesias britânico” – toda sorte de desqualificações com a finalidade de assustar uma maioria de militantes que se mostra a favor de Corbyn.

Neste sentido, o ministro trabalhista Ivan Lewis acusou Corbyn de “antissemitismo” devido a seu apoio à causa palestina. O ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown advertiu na semana passada que a eleição de Corbyn poderia prejudicar as relações internacionais do Reino Unido. “Não me diga que podemos fazer muito na luta contra a pobreza se estabelecermos alianças com Hezbollah, Hamás, o sucessor de Chávez na Venezuela e a Rússia totalitária de Putin.” De sua parte, o também ex-primeiro ministro britânico Tony Blair assinalou que a vitória do candidato preferido pelas bases poderia “aniquilar” a própria organização política.

Todavia, deixando de lado as questões em torno do discurso de seus inimigos, é da maior importância questionar quais são as causas que resultam no surgimento da candidatura de Corbyn e que tipo de prognósticos políticos poderiam ser feitos em função de uma possível vitória sua. Diferentemente dos países do Sul da Europa, o Reino Unido não se encontra em uma situação socioeconômica preocupante. De fato, a taxa de desemprego no Reino Unido se mantém estável em torno de 5,6%, segundo dados publicados pelo Escritório Nacional de Estatística. Portanto, este fenômeno político não obedece estritamente a uma conjuntura socioeconômica concreta, mas sim a uma luta identitária por representação de um espectro ideológico que o partido abandonou há décadas e à pressão que os movimentos sociais estão fazendo no establishment britânico.

Em sua obra Chavs: la demonización de la clase obrera, Owen Jones descreve de forma detalhada como o neoliberalismo pujante dos anos 1970 acabou com os pactos keynesianos do Pós-Guerra dando lugar ao triunfo do thatcherismo e a uma extensa onda de privatizações. Jones estabelece um antes e um depois da história do Partido Trabalhista depois desse período: quando o trabalhismo volta ao governo em 1997, com Tony Blair como primeiro-ministro, já não podemos falar do mesmo partido, mas sim de uma organização política que começa a funcionar com base no consenso neoliberal implantado nas duas décadas anteriores.

A janela do possível

Um dos recursos utilizados por Jones para explicar que as sociedades apostam de maneira decisiva por mudanças políticas importantes é a teoria da Janela de Overton. Ela ilustra como observamos todas as ideias que se encaixam dentro dos limites do politicamente aceitável com a figura de uma janela estreita, estabelecendo como a viabilidade política de uma ideia passa antes por ela do que pelas preferências individuais dos políticos.

Assim, o thatcherismo conseguiu deslocar a janela passando da política dos pactos keynesianos como única opção para o liberalismo econômico de maneira permanente permanente. Esta janela pode ser relativa a uma situação particular, mas também existe uma janela global: a globalização impôs marcos referenciais transnacionais visando o reforço das ideias estabelecidas acima. De maneira consciente ou não, os políticos recorrem de maneira usual a esta teoria, servindo-se de um discurso onde a linguagem se sobrepõe às próprias fronteiras da ação política. Por ela, Brown pede às bases trabalhistas que votem em um candidato crível”: tudo aquilo que se situa fora da janela é impossível e/ou radical – em um sentido pejorativo do termo.

O ponto de maior importância da janela de Overton se dá em seu grau de aceitação, que dá lugar a toda uma série de categorias simbólicas que estabelecem a viabilidade das propostas segundo o contexto e a estrutura dos sistemas políticos onde se inscrevem: elas passam de impensáveis, radicais e rumam para as categorias de aceitáveis, sensatas, populares até se constituírem em políticas. Além disso, estas categorias tendem a se reproduzir ao longo do tempo – sobretudo através dos meios de comunicação – reforçando os marcos interpretativos do universo político. Todavia, esta perspectiva essencialmente estruturalista e de grande utilidade na análise social se torna mais efetiva se somarmos o fato de que as pessoas, enquanto parte de um sistema social, têm maior grau de ação que o ato de olhar pela janela de seus horizontes políticos.

No campo das pesquisas sobre a comunicação de massas, grandes autores como Katz, Blumler ou Gurevith já apontavam as disposições psicológicas prévias do público ante os conteúdos de caráter político, explicando – com base na Teoria dos Usos e Gratificações (TUG) – que o indivíduo é capaz de selecionar os estímulos aos quais quer responder atendendo a seus valores, interesses e papéis sociais. Se cruzarmos ambas as teorias, entenderemos que o aceitável em matéria de política não somente responde à ação da elite política, que tem a capacidade de movimentar a janela, mas também trabalha com a força da cidadania como sujeito da mudança simbólica. Neste momento, tudo aponta para o fato de que grande parte da militância mudou suas preferências, e aproveitando o processo de primárias, quer refundar o Partido Trabalhista. Se as condições estruturais da janela funcionassem perfeitamente, os militantes continuariam qualificando a candidatura de Corbyn como radical.

Desta forma, o primeiro desafio dos políticos é o de tentar modificar o que se considera viável em matéria política, ao traduzir as vontades em ação no atual entorno de limitações, mas sem nunca esquecer que essas vontades partem do povo. É a hora de atender à sociedade como a coletividade heterogênea que olha e transforma o mundo que a rodeia conformando a base sobre a qual os sujeitos políticos devem trabalhar e não o contrário.

Foto de capa: David Holt



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