Ashley Madison: vazamentos que podem causar mortes

Uma das preocupações é com a revelação de identidades onde a homossexualidade e o adultérios são legalmente proibidos. Dois usuários se suicidaram em Toronto, no Canadá

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Uma das preocupações é com a revelação de identidades onde a homossexualidade e o adultérios são legalmente proibidos. Dois usuários se suicidaram em Toronto, no Canadá

Por Marta Peirano, tradução livre a partir de El Diario

Esta é uma matéria da Fórum Semanal. Confira o conteúdo especial da edição 210 clicando aqui

Ashley Madison foi projetada para ajudar pessoas casadas a terem encontros clandestinos (seu lema era “A vida é curta, tenha um caso”), oferecendo um espaço seguro no qual se podia conhecer, encontrar e esquecer alguém sem maiores consequências. É por isso que, para muitos, o rapto e posterior “liberação” dos dados pessoais de seus 37 milhões de usuários feitos por um grupo que se autodenomina The Impact Team seria uma punição exemplar, mesmo cármica.

Primeiro, por confiar totalmente nas promessas de proteção de uma companhia cujo negócio era, tecnicamente, ajudar a mentir. Mas, sobretudo, porque a maior parte dos usuários eram homens casados que enganavam suas esposas durante falsas viagens de negócios. Nos últimos dias, no entanto, começaram a aparecer outros aspectos: não é preciso estar casado para que suas relações sexuais sejam clandestinas. Por exemplo, em qualquer dos 75 países do mundo onde a homossexualidade é ilegal, incluindo no Oriente Médio, África e Sudeste Asiático e a maior parte do Caribe.

“Poderia ser apedrejado por ter relações homossexuais”, publicava em julho em vários fóruns do Reddit um suposto “homem gay e solteiro da Arábia Saudita que usou o Ashley Madison para conseguir encontros”. O serviço incluía uma seção chamada Down Low, voltada para “homens casados buscando outros homens para contatos casuais, sem compromisso”. “Down low” é uma gíria para descrever um heterossexual que dorme com homens, por qualquer motivo. O seu: “Estava solteiro mas o usava porque sou gay; as relações gays são apenadas com morte e por isso queria manter meus encontros na obscuridade”.

É perfeitamente possível que esse caso seja falso; não há referência direta nem dados que confirmem sua existência além de seus próprios posts no fórum, onde também disse pedir asilo nos EUA como refugiado LGBT. O que está comprovado é que, entre as 37 milhões de contas de e-mail “liberadas”, há 1,2 mil com sufixo da Arábia Saudita (.sa). Além disso, havia mais de 50 usuários do Catar, onde as relações homossexuais são punidas com cinco anos de prisão, e 1,5 mil da Turquia, onde ser gay abertamente o exclui da vida pública e mesmo do serviço militar.

Quando a liberdade depende da privacidade dos dados

Há 75 países onde a homossexualidade é punida com prisão, castigos físicos e e mesmo com a pena capital. Também há países onde matrimônios são arranjados. Há famílias que casam suas filhas com seus credores para que se perdoe uma dívida ou uma afronta; ou como salvo-conduto para emigrar a lugares mais convenientes como Inglaterra ou Bruxelas. Há locais onde uma pessoa se casa muito jovem e não pode se divorciar, por mais infeliz que seja o casamento ou infelizes sejam os dois membros da união.

O Conselho das Nações Unidas para os Direitos Humanos declarou que “os matrimônios forçados impedem que as pessoas vivam suas vidas sem serem submetidas a nenhum tipo de violência e que possam desfrutar de seus direitos fundamentais sem temor a represálias, incluindo a educação e o direito a gozar do melhor estado de saúde possível, incluindo a saúde reprodutiva e sexual”. Um Estado repressivo é o que condena seus cidadãos por serem o que são.

Nem todo mundo no Ashley Madison era homossexual. Dez mil e-mails encontrados pertenciam a contas do governo norte-americano, incluindo o Departamento de Justiça e – voltando ao carma – agentes da NSA. Havia 6,7 mil com domínio us.army.mil. Também havia contas oficiais dos governos britânico e australiano. Evidentemente, o serviço era especialmente popular nos países da Commonwealth.

Não é preciso ser um homossexual perseguido para se ter direito à privacidade. Na tarde da terça-feira (24), a polícia de Toronto descobriu que dois usuários do Ashley Madison se suicidaram como consequência dos “vazamentos” e é pouco provável que tenham tido revelada à força sua homossexualidade em um dos países mais gay-friendly do planeta. É importante ressaltar que o adultério não é um crime. E que o direito à intimidade é um dos direitos que asseguram a participação na vida pública, sem que exista temor a represálias nem consequências fatais para sua saúde ou da sua família. Também é importante lembrar que todo mundo comete erros e que a internet não os esquece jamais.

A vida é curta, mas a internet é para sempre: nunca saia de casa sem uma chave GPG

Até agora, não se conhece a identidade dos hackers que sequestraram os 9,7 gigas de dados e chantagearam com eles os executivos da empresa, antes de liberá-los. Mas há um elemento vingativo que poderia indicar que se trata de um ex-funcionário da empresa. Além dos dados dos usuários, foram publicadas também informações dos próprios executivos da Avid Life Media – a empresa por trás da Ashley Madison – incluindo contas de PayPal, senhas de acesso ao sistema e documentos internos da empresa. Havia também um informe com “áreas de preocupação” sobre os dados dos usuários onde se punha em dúvida a integridade do sistema, devido a um ataque remoto cuja intenção era acessar os cartões de crédito de seus clientes.

Bryce Evans, superintendente da empresa, declarou na terça que a Avid Life Media oferece meio milhão de dólares a qualquer um que os ajude a identificar, capturar e julgar os responsáveis pelo vazamento. Até o momento, qualquer um que queira guardar um segredo ou, simplesmente, manter privado seus assuntos privados, deverá introduzir a criptografia em todos os seus dispositivos. Ao contrário da fé, e de confiar em estranhos e nas promessas de qualquer pontocom, a criptografia funciona.



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