A crise das fronteiras em um capitalismo em crise

A União Europeia tem um papel fundamental entre as causas e consequências dessa crise humanitária, devido a seus interesses geopolíticos nos territórios de onde vem toda essa gente. Mas uma coisa é brincar e se divertir fora de casa, outra muito distinta é que...

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A União Europeia tem um papel fundamental entre as causas e consequências dessa crise humanitária devido a seus interesses geopolíticos nos territórios de onde vem toda essa gente. Mas uma coisa é brincar e se divertir fora de casa, outra muito distinta é que o exterior queira entrar

Por Pedro Guzmán Mariblanca Corrales*, do Diagonal Periódico

Esta é uma matéria da Fórum Semanal. Confira o conteúdo especial da edição 212 clicando aqui

Do norte da África para a Espanha; de Calais à Inglaterra; do Afeganistão, Iraque, Líbia, Líbano e Síria à Hungria, Grécia e Itália, para chegar à Alemanha e Suécia. Não deixam sua terra para “aprender um novo idioma” ou “buscar trabalho”, veem-se expulsos dela, fugindo da morte pela falta de liberdade ou de recursos, pelas guerras e uma série de questões cuja genealogia, normalmente, tem raízes no território em que buscam asilo. Território hostil que não sabe como removê-los do caminho. Território cuja mentira aparentemente colocou para correr o relógio da bomba que o explodirá em mil pedaços: a União Europeia.

Nesta crise, quem chega não são pessoas, são cifras. Quem chega não é bem-vindo, é considerado um perigo para a feliz e tranquila vida dos vizinhos europeus. Quem chega não são seres do mundo, são corpos, despojados de todo o sujeito e convertidos em objetos a serem perseguidos, golpeados e removidos em uma área totalmente desconhecida para eles. Seus estilos de vida, dos quais nada sabemos, são na UE sinônimo de maldade e barbárie. O Outro não pode entrar. Bom, o Outro só pode entrar quando nos convém, isto é, quando vamos bem e queremos servos que nos ajudem a manter nosso servilismo.

Já dissemos, a União Europeia tem um papel fundamental entre as causas e consequências dessa crise devido a seus interesses geopolíticos nos territórios de onde vem toda essa gente. Mas uma coisa é brincar e se divertir fora de casa, outra muito distinta é que o exterior queira entrar. E diante de tal problema, os governos dos Estados europeus, que se apresentam como campeões em democracia, não querem mexer um músculo sequer. A não ser, claro, reforçar os mecanismos de defesa para evitar que cheguem novos mortos-vivos (mas quem são realmente os mortos-vivos desse filme?) e fomentar a rejeição através do sentimento de incerteza.

O discurso da crise intervém
como método político de gestão
de populações (…)

Não vivemos uma crise do
capitalismo, se não o contrário, o
triunfo do capitalismo de crises
– Comitê Invisivel

As detestáveis práticas da UE em relação às populações dos territórios africanos e do Oriente Médio com os quais têm acordos econômicos, armamentícios etc, para com as “pragas”, a “imundice” e aqueles que “só vêm para roubar e nos deixar sem empregos” quando a Europa não está passando por seu melhor momento fez despertar o monstro do racismo e xenofobia que, embora devagar, começava a ser combatido no “velho continente”. Mas não poderíamos afirmar que a existência desse monstro se deve menos a uma eventual “falta de cuidado” do que ao fato de suas correntes terem sido rompidas de forma deliberada?

O fantasma da ultradireita corre a Europa, tem raízes na Grécia, França, Reino Unido, Suécia, Áustria, Dinamarca, Hungria e está se expandindo, mais agora que explodiu um grande fluxo populacional non grato. A mensagem lançada pelas instituições está penetrando as massas a que é dirigida. E o pior é que às palavras sucedem atitudes que, longe de serem questão exclusiva dos governos, passaram a ser levadas a cabo por diferentes coletivos sociais que tomaram a liberdade de agir sem medo das consequências.

Enquanto isso, ao povo “pão e circo”, além de uma boa dose de medo. Não à toa, o mundo todo pode observar exaustiva e atentamente as cenas do atentado à redação do Charlie Hebdo, ou os meios de comunicação saturam todos os dias suas páginas com notícias sobre o terrorismo islâmico que “ameaça” a segurança do Ocidente, esse soberano imperial que conta com as ferramentas mais efetivas para a defesa de suas fronteiras (democracias biopolíticas e armamento nuclear).

Prefiguração do Outro, rejeição ao desconhecido, crença em tudo o que nos dizem por meio de seus dispositivos, constantemente utilizados em nossa vida diária. Mãos lavadas e ouvidos surdos diante uma catástrofe que ocorre na Espanha e no Reino Unido; na Alemanha, os neonazi só crescem, como demonstram o PEGIDA (Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente, em português) ou os últimos incêndios nos centros de refugiados; não param de aumentar e se reforças as cercas…

A tensão se torna irreversível, e na dialética gerada está em vantagem um grupo – que ultimamente ganha sempre –, o da força reativa, que nega tudo que não se adequa a seus parâmetros pré-estabelecidos: o capitalismo neoliberal, que na verdade não exclui, mas não permite uma inclusão que leve em conta o diferente, e que abre e fecha portas quando bem entende. E o outro grupo? Parece que “não está e nem é esperado”. Seguimos contando ou fazemos algo?

(*) Pedro Guzmán Mariblanca Corrales é licenciado em História pela Universidade de Granada. Atualmente, pesquisa movimentos sociais e a crise capitalista na Universidade de Birmingham

Foto de capa: Vito Manzari/Martina Franca



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