A MPB 2.0 e a configuração das lutas cotidianas

Ativismo, denúncia e panoramas da realidade sempre estiveram presentes na MPB. Tem gente que acredita que essa luta perdeu força, mas não é bem assim

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Ativismo, denúncia e panoramas da realidade sempre estiveram presentes na MPB. Tem gente que acredita que essa luta perdeu força, mas não é bem assim

Por Monise Berno

Esta é uma matéria da Fórum Semanal. Confira o conteúdo especial da edição 212 clicando aqui

Uma característica importante da Música Popular Brasileira é o ativismo presente em diversos gêneros. Compositores e intérpretes entregam seu talento para espalhar mensagens e denúncias que são, muitas vezes, “socos no estômago” musicais. Muitos destes casos são lembrados e ainda nos inspiram quando nos lembramos, por exemplo, dos momentos de repressão e luta pela liberdade com nomes da Tropicália ou do samba de meados do século XX, com todas as expressões declaradas e implícitas.

Conhecendo a história do período democrático pós-ditadura, é impossível não mergulhar no universo protestante do rock ou não enxergar a realidade cortante das periferias, com incontáveis faixas do hip-hop e do rap. Com algumas nuances do campo social e político, somadas ao direcionamento que o mercado fonográfico deu ao consumo da música nos anos 1990 e 2000, houve uma espécie de recolhimento da vertente “de protesto”, que levanta bandeiras.

Mas a internet ao alcance da mão mudou o modo de ver as coisas, o acesso à informação e também aos produtos antes postos de lado pela indústria da música. Diante disso, mostrar sua arte, sua música e seu protesto ficou mais fácil e a classe artística, sempre ligada a movimentos sociais e políticos das mais variadas estirpes, teve a oportunidade de apresentar ao grande público realidades esquecidas e negligenciadas com mais autonomia no discurso.

Nesse novo movimento musical, o cotidiano da sociedade na era da internet colocou como protagonistas negros, gordos, mulheres, gays, transexuais e muitas outras minorias.

Confira abaixo dez nomes da MPB 2.0 que representam a nova configuração da luta e da crítica social na música brasileira:

1. Emicida – Mandume

Emicida sempre foi sinônimo de ativismo e denúncia da rotina de quem mora na periferia, é negro e não tem acesso aos privilégios da sociedade, desde as rinhas. Em seu novo álbum, ele reuniu amigos e amigas para gravar Mandume, uma música que traz diversas realidades em discussão.

2. Karina Buhr – Nassiria e Najaf

A força da mulher feminista e crítica está presente em toda a obra musical de Karina. Nessa faixa, a crítica social à morte e ao sofrimento da guerra é representada pelo desabafo de um eu lírico consciente de sua miséria e de seu fim entre bombardeios e feridas.

3. Tulipa Ruiz – Proporcional

Tulipa revolucionou seu universo assumindo o ativismo anti-gordofobia em seu último álbum, Dancê. Proporcional é uma música que fala das diferentes medidas físicas confrontadas pelo amor universal, um manifesto dançante contra o preconceito.

4. Filarmônica de Pasárgada – Fiu Fiu

Ativismo que sangra frente ao machismo que fere todas as mulheres cotidianamente. A banda jovem soube representar – em música e no clipe – a carnificina promovida pela sociedade patriarcal. O clipe tem a participação de Laerte, posicionando a denúncia inclusive no universo transgênero.

5. MC Xuxú – Desabafo

Homofobia mata. A MC usou o funk para denunciar essa realidade chocante que atinge milhares de pessoas no Brasil e no mundo. Os recados são evidentes: paz, compreensão e igualdade entre todos.

6. Valesca – A Porra da Buceta é minha!

Se liga no papo: Valesca se tornou um símbolo da luta pelo lugar da mulher na música e na sociedade. Sucesso desde os tempos da Gaiola das Popozudas, a cantora levanta a bandeira do combate à violência contra a mulher e pelo direito que cada uma tem sobre seu corpo, suas vontades e desejo sexual.

7. Criolo – Esquiva da Esgrima

A música de Criolo fala do cotidiano do povo da periferia, suas dificuldades e desamores. Sempre intenso, seu último álbum é uma chamada à consciência. Em Esquiva da Esgrima, a descendência nordestina condenada sumariamente a uma vida de adversidades, coragem e luta.

8. Johnny Hooker – Coisas de Menino

Representatividade masculina padronizada versus sexualidade. Esse é o pano de fundo da música de Hooker. Em Coisas de Menino, a pressão social pela expressão sexual normativa dos meninos vira denúncia, em um retrato de infância.

9. Banda Uó feat. Karol Conka – Dá 1 Like

Uma letra bem-humorada para trabalhar uma crítica à busca implacável por likes no mundo das redes sociais. Irreverência, hipersexualidade e egotrip com batida dançante.

10. Curumim – Caixa Preta

Curumim apresenta em Caixa Preta, que tem participação de outro grande nome da música, Bnegão, questionamentos sobre o papel da mídia brasileira, o que e quem vira notícia, a corrupção e os métodos utilizados por representantes da política nacional. Quem é que financia?


Foto de capa: Divulgação



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