O desespero dos refugiados e uma criança agonizando

Um garoto refugiado de três anos em um hospital grego e a insensibilidade em relação a seu destino. A luta por sua vida seria a verdadeira batalha pela grandeza da Grécia e da Europa, em contraponto à declinante moral do Ocidente.

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Um garoto refugiado de três anos doente em um hospital grego e a insensibilidade em relação a seu destino.  A luta por sua vida seria a verdadeira batalha pela grandeza da Grécia e da Europa, em contraponto à declinante moral do Ocidente

Por Andre Vltchek. Tradução de Vinicius Gomes a partir de Counterpunch

Esta é uma matéria da Fórum Semanal. Confira o conteúdo especial da edição 212 clicando aqui

Paragliders estão voando sobre o incrível mar esmeralda. Hordas de veranistas ascendem à ilha grega de Kos, vindas de todos os cantos de uma União Europeia cada vez mais agressiva. Nos rostos dos visitantes parece não haver qualquer arrependimento ou vergonha pelo fato de que a Europa acabou de violentar e humilhar a Grécia, forçando seu governo a cancelar a democracia e sucumbir aos mandos da poderosa Alemanha e outros poderes ditatoriais.

Os turistas estão ocupados se bronzeando, enchendo suas barrigas com frutos do mar e enchendo a cara em incontáveis cafés e bares da velha cidade. Hotéis e restaurantes estão cheios, é mais um dia quente e ensolarado. Crise? Que crise? Sim, ela está em algum lugar… Talvez em Atenas, ou talvez apenas fora do centro da cidade.

A poucos minutos dali, em um hospital local que faz parte do colapso nacional que afetou o sistema de saúde da Grécia, uma criança iraquiana está sofrendo, talvez morrendo, de câncer. O garoto tem apenas três anos de idade. Sua mãe provavelmente faleceu tentando chegar a Kos.

“Nós o encontramos em um parque”, explica Hara, uma recepcionista do Hotel Triton. “Ele parecia estar terrivelmente doente. Nós o levamos para o hospital, mas ali ninguém queria fazer nada a respeito. Nós tivemos que gritar e exigir que essa pobre criança fosse atendida. Eles colocaram diversos tubos intravenosos em seu pequenino braço, e então, mais nada. Nós ligamos para os Médicos Sem Fronteiras em Atenas, mas eles disseram que não podiam lidar com um caso tão complicado. Nós não temos ideia do que fazer. Se uma atitude não for tomada imediatamente, ele certamente morrerá.”

Em Kos, os refugiados estão por todos os lados. Mas a maioria deles é forçada a dormir em parques, ou se esconder por trás de arbustos. Não há um campo de refugiados “oficial” aqui. Imigrantes estão vindo de lugares como Bangladesh, Afeganistão, Iraque, Síria e diversos outros países que foram desestabilizados por intervenções ocidentais, suas sanções e sua política externa.

Em um centro provisório para refugiados, localizado no antigo hotel Capitão Elias, centenas de, principalmente, sul-asiáticos estão vivendo em condições repugnantes, sem água para beber e apenas uma refeição ao dia. Apenas três assistentes sociais aparecem para ajudar, por algumas horas diárias. Apenas um médico visita regularmente a instalação onde as pessoas sofrem de incontáveis doenças sérias, assim como de exaustão e estresse constante.

“Isso não é vida”, me dizem vários homens paquistaneses que vivem em uma enorme tenda. “Nós não sabemos quanto tempo levará para sermos registrados. Eu já estou esperando há 15 dias e talvez leve mais tempo. As pessoas aqui estão desesperadas. Praticamente não há ajuda. Nós nos sentimos abandonados”.

Tais campos do outro lado do mar, na Turquia, têm condições muito melhores e muito mais humanas. Eles possuem uma saneamento básico decente, comida e água – até mesmo esportes e instalações recreativas. Mas estes são apenas campos para refugiados temporários, para aqueles fugindo de conflitos regionais, e não uma “sala de espera” para entrar na União Europeia. Para aqueles que querem ir para o Ocidente, as instalações turcas para refugiados são, basicamente, inúteis.

A tensão em Kos está alta. Um taxista começou a me insultar, logo depois de descobrir que eu estava indo para o centro provisório no Capitão Elias. Obviamente, ele odeia a ideia de que irei expor o drama dos refugiados. “Você é jornalista? Vocês, jornalistas, já destruíram a economia local!”. Jornalistas? – eu me pergunto em voz alta. Não foram os alemães, nem a União Europeia? Em seu entendimento, assim como o de outros, a Ilha de Kos deveria ser apenas promovida como um paradisíaco destino turístico; não deveria ser definida como mais uma parte do país que está caminhando para um inevitável colapso.

Alguns gregos demonstram solidariedade, ao levar alimentos para os refugiados, mas outros os tratam muito mal, e até mesmo rejeitam, teimosamente, o fato de que há centenas – talvez milhares – deles aqui na ilha. Na realidade, cerca de 7 mil refugiados cruzaram o mar e aportaram em Kos durante os cinco primeiros meses de 2015. No mesmo período, mais de 2 mil pessoas morreram ou desapareceram no mar, tentando atravessar o Mediterrâneo em direção ao sul da Europa.

As histórias contadas por esses refugiados são distintas entre si, cada um relata algo diferente. Todos estão assustados ou desesperados – ou ambos. Alguns dizem que a polícia os atormenta, mas que os locais não são “tão ruins”; enquanto outros culpam os gregos nativos da ilha e insistem que a polícia é “OK”, principalmente por eles “não fazerem nada”.

Lena, uma jovem russa vinda das Montanhas Altai, que já vive na Grécia há mais de onze anos, trabalha em uma pequena pousada na mesma estrada, um pouco mais adiante da instalação no Capitão Elias. Ela diz que os refugiados que vêm para Kos estão desesperados, mas são seres humanos decentes: “Não há nenhum tipo de aumento no número de crimes desde que eles chegaram. Nós não temos medo deles, mas toda essa situação está fora de controle”.

“Os refugiados estão sendo ‘contrabandeados’ por gangues, ou vêm a bordo de minúsculos botes infláveis. Quando eles estão cruzando da Turquia para a Grécia, eles carregam pequenas facas. Se forem interceptados pela guarda costeira ou pela polícia, eles rasgam o barco e pulam na água. As autoridades gregas têm de resgatá-los e levá-los para a ilha”. O namorado de Lena é um policial, ela está bem informada.

***
Bodrum. Cidade histórica e resort luxuoso na Turquia, não dá sinais de dificuldades econômicas. Ela é uma linda, bem-organizada e confiante cidade.

A apenas 30 minutos distantes de Kos, a bordo de um veloz catamarã turco (ou uma hora navegando em uma lenta balsa grega), Bodrum é elegante, até mesmo hedonística.

Bodrum não possui nenhum campo de refugiados também, mas muitos imigrantes a utilizam como ponto de partida para a União Europeia, notoriamente, para a Grécia.

A Turquia é repleta de refugiados, vindos de todos os lugares do Oriente Médio – de países desestabilizados ou legalmente destruídos pelo Ocidente. Muitos imigrantes estão vindo de lugares longínquos como Bangladesh, Paquistão, Índia, Afeganistão, entre outros. Oficialmente, apenas da Síria há quase 2 milhões de refugiados dentro do território turco. Os campos de refugiados estão localizados no sudeste do país (próximos de Hatay), na capital Ancara e em outras áreas, mas não dentro ou ao redor de centros turísticos como Bodrum.

No segundo andar da estação central de ônibus de Bodrum, diversos sírios, bengalis, afegãos, paquistaneses e outros imigrantes agora habitam, quase que inteiramente, a região do mercado. Estes são aqueles que escolheram ir para a Grécia/UE ou para Istambul, a maior cidade da Turquia. A polícia turca fecha os olhos, ou simplesmente não sabe o que fazer.

“Aqui na Turquia, nós podemos nos registrar e conseguir ajuda facilmente”, explica um afegão de 30 e poucos anos. “Mas aí nós temos de ir para um dos campos oficiais, e ficar na Turquia.” As alternativas são horríveis: viagens marítimas perigosas, principalmente à noite, até uma das 15 ilhas gregas próximas da costa turca.

Informam-me que o preço por pessoa pela travessia está ao redor de 2 mil euros, e se alguém quiser fazer todo o caminho do Paquistão à Alemanha, o preço pode subir até 5 ou 6 mil euros. Alguns dos refugiados econômicos são financiados pelos clãs de seus vilarejos, mas para os refugiados genuínos – aqueles fugindo de guerras em lugares como a Síria –, tais valores são simplesmente astronômicos.

Então me contam uma história: diversos refugiados afegãos e paquistaneses tentaram, recentemente, cruzar de Bodrum para Kos. O frágil barco onde estavam foi interceptado por uma embarcação armada grega. Disseram que tal embarcação pertencia à guarda costeira e que os refugiados foram colocados a bordo e severamente espancados.

“Eles bateram em nós, atingiram nossos rostos e nos chutaram em todos os lugares. Então exigiram 100 euros de cada pessoa”. Um homem mostra feios hematomas em seus braços, pernas e costas. Não tenho como confirmar a história. Eram realmente autoridades gregas ou alguma máfia marítima que os atacou? É um testemunho de diversas pessoas que tentaram cruzar o mar, mas não conseguiram.

Sei que em breve elas irão tentar novamente.

Vale a pena?

“Muitos de nós preferem ficar na Turquia”, me dizem. “Eles nos tratam muito melhor aqui”.

Mas outros não irão desistir. Para alguns, a Europa significa dinheiro. Para outros, significa segurança e futuro. Eles estão tentando; eles são pegos e depois tentam novamente. A recepção que lhes é dada na Europa, não apenas na Grécia, é horrível. Mas eles ainda estão tentando conseguir. De onde eles vêm, há vilas queimadas e pesadelos, guerras, conflitos e perdas.

Países inteiros, regiões inteiras são destruídas e violentadas pelo Ocidente. A Síria está em uma guerra provocada por Washington e Londres, que agora é alimentada por Ancara e outros aliados da região e da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). O Estado Islâmico, armado e apoiado pelo Ocidente, está realizando ações insanas. Paquistão e Bangladesh estão economica e socialmente em ruínas. O Afeganistão e o Iraque destruídos por ataques diretos e pela ocupação, tanto dos Estados Unidos como de países membros da União Europeia.

A maioria dos habitantes em Kos parece não entender esse fato. Ou eles simplesmente assim não o querem. Eles veem suas próprias dificuldades, as da Grécia. Há pouco espaço sobrando para o sofrimento de outros.

Voando de Kos para Atenas, um viajante grego está lendo lendo meu artigo, sem vergonha alguma, de seu assento. Depois de pousar, ele começa a protestar:

“Bodrum é uma cidade grega, não turca!”

E continua:

“Você escreve sobre a crise de refugiados? Então por que você não nos dá uma solução?”

“Porque eu ainda não terminei de escrever o texto”, tento dizer pacientemente.

“Então qual é a solução?”, ele insiste, confrontando de maneira dura.

“Os EUA e a União Europeia deveriam parar de assassinar as pessoas por todo o Oriente Médio e outros lugares. Aí, então, os refugiados não precisariam vir para cá!”.

Ele não entende a ideia. Ele não sabe do que eu estou falando:

“Mas da maneira como está, a Europa não tem mais espaço para refugiados!”, protesta.

“Outros países não têm paciência para tolerar as invasões ocidentais”, replico. “Refugiados só estão vindo porque seus países foram arruinados pelos EUA e pela Europa. Antes disso, a Síria, a Líbia e o Iraque eram países ricos. Eles absorviam trabalhadores imigrantes de toda a região”.

A própria Grécia – agredida, humilhada e destruída pela União Europeia – parece não conseguir traduzir sua própria experiência para um contexto mais global.

Poucas horas antes, uma jovem recepcionista em um dos hotéis em Kos sugeriu que “diversos líderes no Oriente Médio deveriam ser assassinados pela Europa ou pelos EUA”. Essa era a sua ideia de como por um fim à crise de refugiados.

***
Em 15 de junho de 2015, o Alto Comissariado para Refugiados da ONU (UNHCR, sigla em inglês; Acnur, em português), produziu um relatório: A Acnur estava aumentando sua presença em campo no leste das ilhas gregas no Mar Egeu, onde, nas últimas semanas, as chegadas de pessoas vindas da Turquia estavam em média de 600 imigrantes por dia, dificultando as limitadas (e em alguns casos inexistentes) capacidades locais para recepção.

Nos primeiros cinco meses de 2015, mais de 42 mil pessoas chegaram à Grécia pelo mar, a sua maioria era de refugiados. Isso corresponde a seis vezes mais do nível observado no mesmo período do ano anterior (6,5 mil), e praticamente o mesmo do total de todo o ano de 2014 (43.500).

Mais de 90% dessas pessoas vinham de países “exportadores” de refugiados, principalmente a Síria (mais de 60% neste ano), Afeganistão, Iraque, Somália e Eritreia.

Todos os países mencionados nesse relatório estão totalmente destruídos ou severamente prejudicados, economica e socialmente pelo Ocidente – frequentemente através de sanções paralisantes.

É necessário muito esforço para não ver quem são os responsáveis pela crise.

O povo grego foi, durante anos e décadas, bombardeado pela grande mídia e pela propaganda. Como a maioria de suas contrapartes na Europa Ocidental, eles agora estão condicionados a culpar as vítimas, e não os reais culpados.

Até mesmo na vizinha Turquia, há vozes declarando de maneira clara e ruidosa: “Nós queríamos ser os ‘garotões’ do Oriente Médio, nós ajudamos a prejudicar nossos vizinhos, então agora é nossa responsabilidade em alimentar aqueles que foram forçados a fugir”. Editorias como esse estão em todos os jornais turcos.

A maioria dos gregos que encontrei não enxerga tal conexão: Otan – União Europeia – e a destruição de incontáveis países que acenderam o pavio da crise de refugiados.

Eles deveriam enxergar. A Grécia é tanto um membro da Otan como da União Europeia. O que recentemente foi feito à Grécia apenas mostra que ela é tanto a vítima como a culpada.

Como culpada, ela tem que assumir total responsabilidade pelas vidas que foram destruídas pelas “organizações” das quais ela é um membro pleno.

Como vítima, ela deveria se impor e lutar contra aqueles que a insultaram e a prejudicaram (assim como a muitos outros): a UE, a Otan, o FMI; ao invés de lançar sua ira e desprezo contra pessoas pobres e indefesas, que perderam seu país, seus lares e todo o resto, exceto suas vidas!

***
Grandes culturas não são baseadas apenas no seu próprio passado. Grandes culturas têm de ser grandes agora, no presente, e serem construídas tendo como fundação um verdadeiro internacionalismo, humanismo, solidariedade, generosidade e compaixão.

Esse pequeno garoto iraquiano, lutando por sua vida em um hospital em Kos, deveria servir como uma figura mobilizadora para os humanistas gregos.

Ele deveria ser ajudado de todas as maneiras, em vez de ser deixado ao seu próprio destino. Mas, até agora, tem recebido uma ínfima ajuda. Deveria ser assistido especialmente agora, quando a própria Grécia está sofrendo. A solidariedade é a coisa mais preciosa durante tempos difíceis.

Acordem, pessoas! Esse garoto não é apenas um “refugiado iraquiano”: ele é mais um ser humano. Ele é apenas um garoto com três anos de idade, droga, e ele está sofrendo uma dor horrível e, em breve, ele poderá morrer.

A batalha por sua vida seria a verdadeira batalha pela grandeza da Grécia, um país que poderia mostrar o quão grande é seu coração, se elevar acima da declinante moral do Ocidente.

Enquanto uma criança agoniza, milhares de turistas próximos dali estão gastando em comidas e bebidas caras; enquanto a rede de assistência social e o sistema médico grego estão, basicamente, em colapso. Algo está se partindo em frente aos nossos olhos – se partindo de maneira irreversível.

O que sobrou da “cultura ocidental” está agora em pedaços. Europa, como ousa, deveria se envergonhar!

Lembre-se, esse garoto “iraquiano” no hospital é sua criança também, Grécia. Se você não agir, ela se tornará o seu espectro!

Foto de capa: Refugiados de campo em Bodrum (Andre Vltchek)



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