A linguagem em crise, o dever moral do silêncio

A regra nº 1 dos portais de notícias da internet vale em todos os continentes: não leia os comentários. Tenho quebrado a regra e lido o que dizem alguns portugueses sobre...

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A regra nº 1 dos portais de notícias da internet vale em todos os continentes: não leia os comentários.

Tenho quebrado a regra e lido o que dizem alguns portugueses sobre a perspectiva de receber refugiados de guerra de países não-europeus. “Também nós temos pobres”, “Também nós vivemos em crise”, “Também nós temos crianças famintas para dar de comer”, “Também os nossos estão a fugir do país”, eles dizem.

Depois de tantos anos lendo nas manchetes de jornais que o país está na “miséria”, e que vive um “drama”, uma “crise”, uma “humilhação”, quem não pensaria o mesmo? O palavreado sensacionalista da mídia ocidental – do Brasil inclusive – alimentou o senso comum de que ser a periferia do centro do mundo é a pior das tragédias – para pessoas habituadas à dignidade, é claro. (O resto do mundo, pensam eles, pensam alguns de nós, não sente essas sutilezas da degradação moral porque já está acostumado – quem sabe é até naturalmente predisposto – a viver como bicho lá na sua terra distante).

Em tempos de informação globalizada, com portais internacionais de notícias que pautam redações em todo o globo, lutamos pelo território da mesma forma como lutamos pela hegemonia do discurso. Se os europeus “pobres” (e os brasileiros ricos e de classe média) são acostumados a ouvir que estão em crise, se eles conceituam a palavra “crise” a partir de suas próprias experiências, e se são educados para a competição e a disputa, como poderão criar empatia pela “crise” dos outros?

O empobrecimento na zona do euro criou uma periferia mesquinha, sem memória histórica e inapta à solidariedade. Porque acreditam cegamente que o mundo que tem importância se resume à Europa e que eles têm pouco em relação a esse mundo que importa, os países periféricos sustentam a ideia de que generosidade é um luxo a que só os “verdadeiramente” ricos estão obrigados. Esquecem-se de que há cem, setenta, vinte anos, a guerra era em solo europeu, e os refugiados maltrapilhos que corriam pelo mundo em busca de asilo eram brancos de olhos azuis.

No uso cotidiano do discurso sensacionalista, perdemos a real dimensão da metáfora, somos incapazes de distinguir com sensibilidade as nuances das palavras. Se vamos mesmo globalizar as notícias e reduzir toda a experiência humana a uma linguagem comum, é preciso reinventar a escrita da dor, apartada dos pequenos dramas de quem tem comida na mesa todos os dias; é preciso criar um novo vocabulário que tenha o poder de despertar um vestígio que seja de solidariedade na baixa burguesia que acredita mesmo ter tão pouco que não possa partilhar.

Centenas de milhares de famílias fugindo da guerra com a roupa do corpo não é uma crise de mercados, não é uma crise de valores, não é um drama moral, uma questão ética. São pessoas que querem sobreviver com seus entes queridos por mais um dia – seja em que parte do mundo for.

Se não pudermos ainda dar um nome a isso – e nem mesmo eu, mesmo imigrante, conhecendo a xenofobia, mas que vim porque quis, que sei que a minha família está a salvo, que tenho meios e recursos de me manter aqui ou de voltar pra casa se quiser, não tenho o direito de dar nome ao inominável da guerra – se não nos acharmos grandes o suficiente para a solidariedade, deixemos ao menos que um respeitoso silêncio faça ecoar esse pedido de ajuda até que ele chegue a quem o possa acolher.

Um respeitoso e doído silêncio diante do horror é o mínimo dever moral de quem se julga civilizado.

Imagem: Refugiados cruzam a fronteira da Hungria com a Áustria (Crédito: Stephen Ryan/IFRC)



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