11 de Setembro de 2001 – eu estava lá

o blogueiro e sua esposa, em 09.09.2001 O texto abaixo...

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o blogueiro e sua esposa no alto do World Trade Center, em 09.09.2001
o blogueiro e sua esposa, em 09.09.2001

O texto abaixo foi escrito em 2002, um ano após ter vivenciado ao vivo os atentados do 11 de Setembro, em Manhattan. Até hoje a data me é emblemática e não consigo esquecê-la. O texto original está em meu primeiro blog, Anomia:

“Esta é a primeira vez que decido escrever sobre os acontecimentos marcantes que passei juntamente com familiares na inesquecível viagem que fizemos à Nova York, com o propósito de conhecê-la e acompanhar a ótima fase de Gustavo Kuerten na temporada de 2001. Após anos de economia, realizava-se o sonho de ir à a Cidade que já conhecia de filmes, livros, revistas e vários outros veículos de informação que ilustraram boa parte de minha vida.

Manhattan. Há exatamente um ano, à noite, no dia 10.09.2001, eu desfrutava de uma das maiores emoções de minha vida. Estava em Nova York desde o início de Setembro e realizava o sonho de visitar a famosa “Big Apple” e assistir ao US Open.
À noite do diz 10, adentrava pela primeira vez o Blue Note. Reservas efetuadas desde Fortaleza, era também um desejo antigo. No palco, Turk Mauro embalava minha viagem com um show impecável. Em meio ao público, vislumbrei a bela Mel Lisboa na mesa ao lado. Era realmente a atriz de “A Presença de Anita”, que atendeu ao nosso impertinente pedido para tirarmos uma fotografia juntos, com simplicidade e alegria. Até aquele momento, parecia uma viagem perfeita, embora Guga tivesse perdido para o russo Kafelnikov, mas o prazer de ter dividido, no dia da derrota tupiniquim, várias cervejas e o excelente papo com o não menos simpático Wilson Simoninha, no Grand Slam americano, exauriu qualquer possibilidade de frustração para nós. 

Madrugada de 11 de setembro, Blue Note em NYC
Madrugada de 11 de setembro, Blue Note em NYC

Na manhã do dia seguinte, um telefonema do Brasil, narrando que um avião se chocara com uma das Torres, interrompe o meu sono e joga a realidade dos fatos daquele 11 de setembro em minha cara. Corro à tv e verifico que não se trata de uma brincadeira de mau gosto de quem nos telefonava. Imediatamente rumamos à 6ª avenida, onde vimos, a olhos nús, o que a tv já mostrava. Uma das torres ardia em chamas e sequer podíamos imaginar que a outra seria dentro em breve atingida. E o foi, de fato. Nas ruas, um pânico que eu somente vira em filmes de catástrofe. Como estávamos ao lado do Empire State, um rumor de que o próximo alvo era o também famoso arranha-céu, levou várias pessoas a correr em busca de qualquer lugar que lhes parecesse a salvo. Mas não havia. Os minutos passavam arrastados e a mente teimava em querer locupletar-se da razão e indicar que aquilo não era verdade. Nas ruas, imediatamente após a queda das torres que compunham o complexo WTC, a situação piorou. Um ruído de avião provocou nova correria e pânico.

Alguns dias antes, checando nosso modesto plano de viagem, decidi alterar tudo após a derrota prematura de Guga. Decidi trocar a data que agendava a visita às Torres Gêmeas, coincidentemente marcada para 11.09.2001, antecipando-a em dois dias. Lembro que no dia da visita, logo na entrada, um letreiro estampado em uma das Torres vaticinava: “O Centro Financeiro do Mundo”. Até hoje recordo vários dos rostos das pessoas que trabalhavam no local, desde o cômico ascensorista até os atendentes da pizzaria que ficava no último andar. A imagem do topo era maravilhosa. Toda Manhattan, uma selva de pedra. A Estátua da Liberdade, um ponto bem distante.

Não há mais nada ali, pensei após a segunda torre desabar. De volta ao hotel, já que não havia para onde ir, encontrava pessoas recém-saídas das torres tentando informar aos familiares que estavam bem. Na rua, sirenes a pleno vapor em todos os cantos de Manhattan. Vários carros cobertos de poeira vinham do local, possivelmente trazendo feridos. Ligamos para o Brasil e dissemos que estávamos bem. Pensei na quantidade de mortos e feridos daquele dia. Ao relembrar os brasileiros que havíamos encontrado nos dias anteriores e desejei que estivessem a salvo. 

Nos dias seguintes, o cenário de cinema instalou-se de vez. Não havia autorização para vôos e a única saída era aguardar e tentar fazer de conta que estava tudo bem, mas ninguém tinha a menor idéia do que nos esperava adiante. Lembrei que dias antes, havia estado em Strawberry Fields, uma seção do Central park, num momento de muita paz. A poucos passos do Dakota, estava o éden onde Lennon costumava passear me deu muita paz e tranquilidade, como sempre. Naquele momento eu acreditei que tudo correria bem e chegaríamos em casa dentro em breve. Na visita, enquanto observava o mosaico insculpido no solo da Strawberry Fields do Central Park, em cujo centro repousa a inscrição “Imagine” acalantava-me no sonho de pensar o mundo que Lennon tanto queria, via também vários fãs concentrados no local. A energia me deu bastante força. Let me take you down, cause I am going to…Strawberry Fields….nothing is real…Strawberry Fields Forever!!!

Nesse ínterim, evacuamos o hotel duas vezes. Havia ameaça de bombas no Empire State e no Madison Square Garden. Corríamos desesperados pela noite, afugentados do hotel – bem próximo do dois local – pela polícia, FBI e bombeiros, na direção do sul de Manhattan, adentrando a gélida madrugada de Nova York, num êxodo de centenas de pessoas aflitas com os acontecimentos. A fumaça que envolveu a ilha de Manhattan estava com um odor insuportável. 
Nunca imaginei que passasse por aquilo em minha vida. Pensei, várias vezes, no enlatado “Nova York Sitiada” com Denzel Washington, porque até a Guarda Nacional foi chamada para patrulhar as ruas de NYC.

Alguns dias depois, no primeiro vôo liberado, direito para o Brasil, conseguimos embarcar após horas na lista de espera. Angústia e aflição até conseguirmos três dos últimos lugares do vôo que veio lotado até Guarulhos. Após o comandante anunciar que havíamos deixado o espaço aéreo norte-americano, muitos gritaram de alegria, fazendo uma “ola” em suas cadeiras. Coisa de espírito brasileiro mesmo.
Quando pegamos a conexão para Fortaleza, pela primeira vez, certo de que voltava para casa, saí de mansinho da minha cadeira e chorei copiosamente no fundo da aeronave. Choro de criança que leva uma queda e tem um enorme susto. Passara os dias que se seguiram ao atentado buscando mostrar confiança e calma aos que estavam comigo, mas na verdade, estava bastante assustado com tudo aquilo.

Eu já amava muito esse Brasil tropical abençoado por Deus e bonito por natureza. Hoje, me ufano mais ainda. Apesar de todos os massacrantes contrastes sociais, políticos e econômico que devem ser combatidos, definitivamente nossa terra é ímpar.

Em que pesem as várias considerações políticas e ideológicas feitas sobre o atentado de 11 de Setembro, eu prefiro me limitar à narração do périplo angustiante que passei juntamente com pessoas que amo. Uma das lições que tirei, é que a obra-prima “Imagine” de Lennon nunca foi tão atual como nos últimos tempos. As letras insculpidas no ladrilho que homenageia John, em Strawberry Fields no Central Park, repousam a poucos passos do edifício onde ele foi assassinado. A curta distância entre os locais, é quase o fio de uma navalha, se vista de bem longe. Parece o mesmo tênue fio que separa a paz da guerra.

Brasil, madrugada de 11.09.2002.



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