Sobre o homem e sua anta interior

Se tem uma coisa que me chama atenção nessa história toda é como o patriarcado veio sedimentando (propositalmente?) nos homens uma incapacidade de reflexão mínima sobre as práticas machistas. O macho (direita, esquerda, por dentro, por fora, côncavo, convexo, lunar, terráqueo, de Júpiter, não...

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Se tem uma coisa que me chama atenção nessa história toda é como o patriarcado veio sedimentando (propositalmente?) nos homens uma incapacidade de reflexão mínima sobre as práticas machistas. O macho (direita, esquerda, por dentro, por fora, côncavo, convexo, lunar, terráqueo, de Júpiter, não importa) é uma anta

Por Bruno Simões Gonçalves*

Outro dia me caiu nas mãos (na tela) o texto “Entre quatro paredes: o machista de esquerda” do blog da Anna P. Lá ela vai falando de como o macho de esquerda é “fofo” e super anti comportamentos machistas. “Homens com florzinha no cabelo”, diz a Anna em um determinado momento. Até que então ele chega “entre quatro paredes” e aí tudo fica bem diferente. A Anna vai citando exemplos do dia a dia, desse cotidiano “entre quatro paredes” em que o esquerdomacho vai se revelando.

Lendo esse texto, fiquei pensando em um outro momento em que o macho de esquerda também se revela em sua versão “macho como todo macho deve ser”. É quando ele está somente entres seus pares varões, quando estão os homens entre os homens, tendo conversa de homens. Tô chamando de conversa porque ando em dias generosos e compreensivos – “coisa das astrologias”, me disse uma amiga. Na verdade, não sei se o nome mais adequado seria “conversa”, acho que está mais para uma socialização rudimentar que inclui algo como grunhidos, monossílabos sem muito sentido e umas risadas meios bestiais. Parece exagero, né? O pior é que é meio assim mesmo. E olha, nessa hora, a tal florzinha no cabelo não passa nem no mesmo quarteirão. Se esconde quietinha longe dali, com medo de ser esmagada.

Infelizmente esse “fofo” público de que fala o texto não costuma durar mais que três segundos quando está só entre machos. Claro, entre machos de esquerda isso ganha lá algum verniz um pouquinho menos boçal, até para o macho-autor não ser reprimido pelos próprios pares. Alguns dos esquerdomachos já aprenderam algumas noções básicas de como não serem escorraçado pelas mulheres libertárias e gostam de mostrar sua sabedoria dando aula para os outros.

Por favor, reparem que eu escrevi que eles aprenderam algumas noções básicas de como não serem escorraçados. Isso é muito diferente de colocar o machismo em questão. Porque se tem uma coisa que me chama atenção nessa história toda é como o patriarcado veio sedimentando (propositalmente?) nos homens uma incapacidade de reflexão mínima sobre as práticas machistas. O macho (direita, esquerda, por dentro, por fora, côncavo, convexo, lunar, terráqueo, de Júpiter, não importa) é uma anta. E, no caso, uma anta de esquerda. Tadinha da anta.

É impressionante como séculos de repressão e violência contra nós mesmos vieram nos deixando com uma extrema dificuldade – em alguns muitos casos um impedimento total – de conseguir refletir um tiquinho mínimo do mínimo sobre nossa condição e nosso lugar na vida social enquanto homens, enquanto topo da pirâmide social do patriarcado. A total incapacidade de ultrapassar o nível uga-buga primitivo total na capacidade de pensar a própria masculinidade é a regra que impera. Seja nos espaços de militância, nos espaços cult bacaninha, circuitos capoeiros e outros pop Brasil ou nas quebrada resistindo.

A tosqueira é geral e irrestrita. Mesmo quando há obediência a esses comportamentos politicamente corretos do receituário do macho de esquerda, há muito pouca reflexão séria e percepção da gravidade dessa parada, de como isso é realmente responsável por parte significativa da violência que grassa ai no mundão afora e no dentro, bem lá no dentro dos impasses que tomam nossa vida pessoal.

Eu acho relativamente simples uma primeira explicação direta dessa ausência de reflexão. Me perdoem, companheiros, se algum de vocês está lendo isso e ficando incomodado, mas exigir essa auto reflexão de nós é quase como exigir do Conan, o bárbaro, um tratado sobre a transparência sutil das sensibilidades humanas. Ou pedir pra um cágado sair voando. Simplesmente não rola, né? Seja esquerda ou direita ou outra variável, é preciso admitir e reconhecer nossa falta de inteligência emocional para colocarmos nosso machismo em questão.

Daí que acho que o primeiro passo sincero a ser dado é uma espécie de aceitação dessa condição de anta ontológica. Tipo: bom dia, espelho. Eis-me aqui diante de ti, um homem anta que não tem a menor capacidade de perceber seu próprio machismo. Ou então algo como uma reunião de alcoólicos anônimos. “Boa noite, meu nome é João e eu sou um alcoólico e quero muito parar. Estou aqui porque preciso de ajuda”. Tipo isso, só que com nossa condição de machistas. “E aí gente, meu nome é João e eu sou um machista. Só que eu nem percebo isso, eu quase nem acredito nisso. Isso é a maior prova de que eu sou uma anta. Definitivamente eu preciso de ajuda”. Somos atravessados por esse machismo, ele nos constitui, e para desconstruir isso é preciso primeiramente admiti-lo e depois, admitir que nem somos capazes de percebê-lo direito de tão embotados que nós fomos ficando. Triste, né? Mas acho que é bem assim.

Mas daí pode vir um gaiato e falar: “ah, também não é assim, mesmo entre quatro paredes tem vários homens que estão modificando seu jeito de ser, estão dividindo tudo e sendo firmeza com suas companheiras”. Olha, infelizmente, pelo o que eu tenho acompanhado por aí, mesmo esse diminuto grupo tem pouca capacidade de sacar mesmo qual é a pegada do machismo, sua extensão e desdobramentos nas diferentes dimensões da vida social no micro e no macro.

Quando você está entre machos de esquerda, você descobre que tudo isso que a Anna apontou no texto (cuidar um pouco da casa, respeitar as vontades do outro, ser carinhoso de verdade, etc.) não passa de comportamento aprendido nível 1, tipo o rato que aprendeu que se apertar a barra vai ganhar água. Limpar a casa = não ouvir blábláblá feminista na minha cabeça. Fazer coisas “sensíveis” = disfarçar minha escrotidão endêmica porque senão pega muito mal, afinal, eu sou de esquerda. E por aí vai. Comportamento aprendido pra remediar respostas negativas imediatas. Poucos, bem poucos, alcançam repensar seriamente isso pra além dessa imediaticidade. E para isso, é preciso querer. E muito poucos parecem querer. Assim caminham os homens de esquerda. É triste. Mas acho que não estou exagerando, não.

É claro que isso nos leva a pensar no que diabos fazemos com os homens desde que eles nascem pra se tornarem essa coisa tão embotada. A antificação do homem é um processo histórico de larga duração, uma construção psicossocial saturada de violência. Não é fácil tornar um ser humano sensível e aberto num macho altamente embrutecido. É preciso todo um sem número de violências, pequenas e grandes pra ele terminar assim, um ser tão alienado de si mesmo a ponto de não conseguir mais sentir. Mas isso já é outra história… O assunto é longo e as veredas muitas.

E antes de criar qualquer engano a meu respeito: Meu nome é Bruno e eu sou Conan, o Bárbaro, um anta de esquerda. Eu preciso de ajuda.

Cágado pode ser passarinho?

(*) Bruno Simões Gonçalves é psicólogo. Pesquisa e atua na interface entre Psicologia, populações tradicionais e questões de raça, classe e gênero.

(Foto de capa: Reprodução)



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