Cesare Battisti: a imprensa não se permite mostrar que sou uma pessoa

Antigo militante do Proletários Armados pelo Comunismo provocou polêmica quando recebeu refúgio político no Brasil e diz que passa dificuldades, mas leva uma vida tranquila no país

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Antigo militante do Proletários Armados pelo Comunismo, ele provocou polêmica quando recebeu asilo no Brasil. Hoje, vive como escritor e reclama do que julga ser perseguição da mídia. “Para eles, não existe o Cesare Battisti ser humano”

Por Leonardo Fuhrmann

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Uma fita adesiva ao lado de uma das campainhas no portão leva o nome do morador ilustre dessa rua tranquila do Embu, na Grande São Paulo: Cesare Battisti. O próprio autor e antigo militante de esquerda sobe as escadas e vem atender ao portão. Baixo, magro e com um sorriso no rosto, ele leva o repórter ao cômodo que usa como escritório e é compartilhado com um quarto de criança. “Aproveito para escrever quando ela está na creche”, comenta.

Pendurado no armário, chama atenção o diploma de um curso de preparação de tortas em que o escritor foi aluno do chef pâtissier Fabrice Le Nud. “A gente se tornou amigo. Ele é francês e compreende a minha história”, diz. Battisti oferece uma água ou um café, mas sugere uma cerveja. “Talvez não esteja tão gelada como gostam os brasileiros, mas acho que está boa”, diz. Inicialmente ressabiado, ao final da conversa, oferece uma carona para um ponto de ônibus, para o repórter voltar para São Paulo. “Muitos jornalistas querem ver o monstro, mas preferem não ter uma conversa de verdade”, afirma.

Confira abaixo a íntegra da entrevista com Battisti:

Fórum – Seus livros nos dão a sensação de misturar ficção e autobiografia. Por que você escolheu essa forma?

Cesare Battisti – Essa questão com a autobiografia é algo que começou aqui no Brasil. Eram três e agora, com o lançamento de O cargueiro sentimental, passam a ser quatro. O primeiro é o que tem mais uma conotação autobiográfica, até porque eu estava fugindo. Depois de 24 anos de asilo formal, primeiro no México, depois, na França, aconteceu essa situação que eu não esperava. Por isso, escrevi Fuga sem fim. Esse é o título aqui, no original era diferente. Tinha todo o desespero da fuga uma coisa de ir para trás, de se perguntar “por que eu?”. Na época em que aconteceram as coisas que ensejaram tudo isso, eu era pouco mais do que um adolescente. Mas o Ser bambu, que vem logo depois, já é uma obra de ficção.

Fórum – O uso da narração em primeira pessoa não é um recurso que aumenta essa sensação?

Battisti – Gosto muito da narração em primeira pessoa, mesmo que seja uma decisão difícil para o escritor. Você tem menos recursos, é muito fácil errar, desconversar ou sair do tema. Grandes escritores que escreveram em primeira pessoa, sem comparações comigo, fizeram textos extraordinários. Comecei a escrever em terceira pessoa. Depois, foi uma espécie de desafio. Sempre escutei escritores mais experientes falarem sobre essa dificuldade, porque comecei como jornalista também. E na época que estava no México, eu cobria muitos eventos culturais, literários principalmente. Deles participavam escritores como o Gabriel García Márquez e outros que, como ele, depois se solidarizam comigo quando cheguei ao Brasil. E todos eles gostavam de uma cerveja e eu ouvia as conversas sobre o desafio de narrar em primeira pessoa. Como já havia escrito três ou quatro livros, resolvi experimentar para ver o que acontecia. A primeira experiência não foi muito feliz, porque é difícil mesmo.

Fórum – Mas tem muitas coisas que parecem ter saído da sua vida, não?

Battisti – Não é só por isso que se causa uma confusão entre ficção e autobiografia no que escrevo. É também porque faço romances sociais. Todo escritor de alguma forma fala da vida dele. A única maneira de se afastar disso é construir narrativas em terceira pessoa. Conto histórias que não são minhas, mas os leitores ficam com a impressão de que são. Como, por exemplo, no livro que acabou de sair. Pego várias histórias para contar o que aconteceu na Itália desde o Pós-guerra até os anos 2000. Por três gerações, quero mostrar o que foi a viagem da resistência à guerra, ao fascismo, à corrupção no poder. É um pai, um filho e a neta. Podiam ser meu pai, eu e a minha filha. Mas isso não aconteceu comigo. Ou 90% das coisas não se passaram comigo.

Fórum – Como surgiu o livro que você lançou neste mês no Brasil?

Battisti – Escolhi o título O cargueiro sentimental por causa de um boteco que conheci em uma ilha da Bretanha. Gostei da imagem do navio que transporta uma carga pesada e, para mim, a história da Itália da II Guerra Mundial até a atualidade é uma carga pesada. São os que resistiram ao nazismo e ao fascismo na época do meu pai, a minha geração que lutou contra os governos dominados pela máfia, dos ativistas do pós-1968, que é uma cultura revolucionária que se deu no mundo inteiro. E, por fim, a geração de quem tinha 20 anos na virada do milênio, última época retratada no livro, o que passa pela cabeça dessa geração. A personagem podia ser uma filha minha [Battisti tem duas filhas que moram em Paris]. No livro, o narrador fala do pai em uma idade que meu pai não chegou. E esse pai é um anão. O meu era baixinho assim como eu, mas não chegava a ser um anão.

Fórum – Seus personagens parecem ter existido de fato, não acha?

Battisti – Os episódios que conto são baseados na realidade. Claro que a ficção acaba sempre rebaixando um pouco a realidade, porque a realidade é muito forte. O Gabriel Gárcia Márquez contava de como o livro Outono do patriarca não havia funcionado. Ele retratava um ditador que existiu de fato e ficou tão colado à realidade que não causou o interesse que a literatura dele geralmente provocava. Acho que a ficção é uma forma de diluir a realidade. Pelo menos, aprendi por aí. Não vou escrever os tormentos da sociedade tal qual eles acontecem.

Fórum – Como é a sua vida no Brasil hoje?

Battisti – Na realidade, a minha situação no Brasil é muito difícil. Houve durante muitos anos uma campanha da imprensa que acabou comigo. Para eles, não existe o Cesare Battisti ser humano, o autor. Só existe um Cesare Battisti terrorista. Aquelas fotos de caretas que a revista Veja escolhe para estampar, por exemplo. Tem muita gente que nem sabe que sou escritor. E já tenho vinte livros publicados. Então, existe uma resistência até a distribuição dos meus livros. São trinta anos de profissão, em que eu vivia disso e até que muito bem. Não é o caso agora. Estou sujeito a um boicote que não para. Sou mais reconhecido como escritor na França, na verdade. Comecei a escrever no México, mas foi lá que me firmei como escritor.

Fórum – Mas ao que você atribui o que chama de boicote?

Battisti – Quando o assunto é algo relativo à política e ao Judiciário, tem uma fila de jornalistas para falar comigo. Quando se trata do lançamento de um livro, não aparece ninguém. A imprensa vende uma outra imagem de mim. Eles criaram um monstro de A a Z e agora precisam continuar a alimentar essa imagem. Trabalharam tanto para criar isso, que não podem recuar. Não se permitem mostrar que sou uma pessoa. Os que estão nessas redações agora nem sabem o porquê. Foi uma máquina que começou com isso e vão seguindo. Se você pergunta para as pessoas que acham que sou esse monstro aí, muitas delas nem sabem o motivo. Não sabem o que, onde ou por que, mas falam.

Fórum – O que aconteceu nos anos 1970 foi muito marcante, não?

Battisti – Os anos 1970 são o fim de 1968 e o início de uma nova era. O maio de 1968 começou em Berkeley nos Estados Unidos, nem foi na França como todo mundo acha, e se espalhou pelo mundo. Passou por Praga [na então Tchecoslováquia] e até pela China. Isso criou um movimento cultural enorme. E também os grupos armados, porque a repressão foi pesada. Alguns países tiveram a inteligência de não reagir tão ferozmente e se livraram mais rapidamente desse movimento de guerrilha. Outros, em que a situação política, econômica e social era diferente, não conseguiram fazer o mesmo. E nesses lugares, esse 68, que poderia ter durado alguns meses ou um ano, acabou demorando 15 ou 20 anos para ser superado. Tinha por todos os lados, Itália, Alemanha, Bélgica e até a Suécia. Acho que uma democracia forte é capaz de reconhecer seus erros e de corrigi-los. Os países onde a democracia é fraca não chegaram a corrigir isso até hoje.

Fórum – Você se sente um personagem preso aos anos 1970?

Battisti – Eles estão tentando isso. Até 2004, que foi quando fugi de Paris para o Brasil, essa história toda era um passado remoto para mim. Eu não estava nem aí. Quando perdi a condição de asilado e tive de deixar a França, fui colocado de volta nesse assunto. Felizmente, já não estou aí para isso de novo. Apesar das perseguições que não param. Isso é passado. Tenho o problema de ser perseguido ainda, como centenas de pessoas por aí. Se eles nos atacam com tanta ferocidade ainda, é porque o problema ainda existe do lado de lá. Não quero ficar amarrado para sempre nessas coisas. Tanto que vou fazendo outras coisas, estou preparando um romance sobre o Brasil.

Fórum – Sobre o que você está escrevendo atualmente?

Battisti – Estou fazendo uma ficção histórica. Comecei a pesquisar quando conheci o primeiro povoado do Brasil, Cananéia [extremo sul do litoral paulista]. Vou para lá quase toda semana e comecei a me interessar pela história do bacharel Cosme Fernandes, que foi alguém afastado de Portugal e veio para cá em 1503. Ele casou com a filha de um cacique carijó e criou diversos povoados. Primeiro, Cananéia; depois, São Vicente. Era alguém que controlava muitos quilômetros da costa. É um personagem misterioso, dizem que depois se aliou aos espanhóis. Mas uma coisa é certa, ele foi o fundador de São Vicente, e não o que a história oficial conta. Criei um personagem que seria descendente dele e faço um romance noir sobre isso. Esse personagem volta para lá para buscar alguma coisa e isso cria o pretexto para eu contar a trajetória do bacharel.

Fórum – Por que decidiu tratar desse tema?

Battisti – Ele é um personagem que faz falar muito. Existe muita especulação sobre sua história. Quem era, como veio parar aqui… E é alguém que teve um grande poder durante quase 30 anos. Tanto que há documentos que mostram como Portugal e Espanha tentaram negociar com ele. Na Batalha de Iguape, ele conseguiu fazer frente a uma tentativa portuguesa de recuperar o território, por exemplo. O sumiço dele depois é um mistério. Como toda lenda, tentam fazer dele uma pessoa boazinha, não era tanto assim. Uma pessoa pode ser boa ou não dependendo das circunstâncias. Mas é alguém que fundou o Brasil de alguma forma, porque a história oficial registra a fundação de São Vicente como o primeiro município do Brasil e, antes disso, ele já havia criado povoados lá e em Cananéia.

Fórum – E é um personagem pouco citado na história oficial

Battisti – A História do Brasil, como de qualquer outro país, é manipulada e reescrita pelos vencedores. Nós sabemos que as coisas não são exatamente da forma como são contadas. A conquista do território, com o massacre dos índios, a figura depois dos bandeirantes. Tudo isso. Sou apaixonado por História e, quando chego a um país, a primeira coisa que costumo fazer é ler sobre ele. E a gente sempre descobre que figuras que são tratadas como heróis são na verdade genocidas. Isso não é só no Brasil. É parecido em todos os lugares. Como a atuação dos jesuítas. Eles podem fazer beatos e santos, mas a história é outra. O bacharel é mais uma oportunidade de dizer “olha aqui a manipulação”.

Fórum – De alguma forma, será seu primeiro livro 100% brasileiro?

Battisti – Ao pé do muro é o meu primeiro livro brasileiro. Quando o escrevo, estou preso e, com um jogo da ficção, conto as histórias de pessoas com quem convivi dentro da cadeia. É o meu primeiro contato com o Brasil. Agora, esse será o primeiro em que posso mover os meus passos livremente, escolher para onde ir.

Fórum – Você produziu em idiomas diferentes durante essa trajetória. Como foi isso?

Battisti – Escrevi meu primeiro livro em espanhol, no México. Quando voltei para a França, não tinha conhecimento suficiente de francês e voltei a usar o italiano. Comecei a escrever em francês aqui no Brasil. Mas agora está ficando difícil, porque penso e sonho em português. Então, muitas vezes não bate. Quando você escreve, se perde com a personagem ou ela leva o autor para onde ele quer ir. Às vezes, é preciso puxar a história de volta. Preciso da ajuda de uma pessoa em qualquer idioma. Não é ortografia, são as expressões que você não encontra em nenhum dicionário. Por exemplo, se escrevo em italiano, não é mais o italiano que existe. É um idioma de 40 anos atrás. As expressões mudaram. É nesse ponto que preciso de uma colaboração. Agora, estou escrevendo em francês, mas uso também termos que são portugueses. Estou misturando as imagens dos dois idiomas. É algo que pode dar certo, ficar legal, mas existe o risco de ninguém entender.

A língua é viva e, para mim, o que é vivo hoje é o português brasileiro. Mas me obrigo a escrever em francês porque tenho medo de passar para o português e no fim não conseguir fazer em um nem no outro. Foi o que aconteceu com o italiano, passei para o francês e hoje não consigo escrever no meu idioma nativo nem uma carta para a família.

Fórum – E qual a sua relação com o Brasil hoje?

Battisti – Gosto desse país. Não sabia nada quando cheguei. Mas foi tão intensa a vida aqui, a solidariedade que recebi tão rapidamente. Tenho onze anos de Brasil, mas tenho a sensação que faz 30 ou 40 anos. Tenho amigos em vários estados, gente querida. É algo muito forte. Isso surpreende até companheiros que chegam do México, da Itália ou da França. Todo mundo acha que estou aqui sob pressão o tempo todo. Mas também não tenho 20 anos. Se eles precisam criar uma situação comigo para distrair o povo das besteiras que fazem, que continuem. Não vou viver 500 anos como as tartarugas, não vou ficar atrás do que eles pensam sempre.

Fórum – Essa pressão não existe na sua rotina?

Battisti – Aqui no Embu, as pessoas me conhecem, gostam de mim. Raramente alguém se manifestou diretamente a mim de maneira agressiva. E quando fizeram, foram militantes declarados de direita. Mas foi raro. Desde que estou na rua, faz mais de quatro anos, deve ter acontecido duas ou três vezes. Geralmente os que não gostam de mim não se manifestam. E os outros chegam e conversam. O meu problema é com a imprensa, que cria uma imagem de mim que não corresponde à verdade de jeito nenhum. Mesmo alguns adversários políticos ferrenhos que tenho, acho que mudariam de ideia se tivéssemos oportunidade de bater um papo. Eles estão falando de coisas que não sabem. Eu era um menino na época, estamos falando de 40 anos atrás.

Fórum – A que atribui essa resistência a você?

Battisti – A preguiça é um bicho feio. Se você quiser saber tudo sobre mim, tem como ir atrás. Mas, se você só quer ler o título da revista Veja ou de O Globo, isso é problema seu. Eu não vou atrás de você. Faça o que quiser. No STF [Supremo Tribunal Federal], o único que leu o pedido de extradição inteiro foi o Marco Aurélio Mello, que pediu vista. Ele citou que havia 143 vezes que eu era acusado de “subversão armada contra o poder do Estado”. Como uma pessoa assim não é político? Quem vai ler 800 páginas? Ninguém. Tem aqui o livro do Carlos Lungarzo, que eu não conhecia e hoje é meu amigo. O trabalho dele tem informações sobre a minha história que eu mesmo não conhecia. Coisas sobre as pessoas que me acusaram de fazer o que eu não fiz, que foram encontradas com as armas dos crimes e admitiram suas responsabilidades. Foram quatro anos de pesquisa para ele fazer Os cenários ocultos do Caso Battisti.

Fórum – E quem é esse Cesare Battisti pouco conhecido aqui?

Battisti – Tenho praticamente 30 anos como escritor, antes fui jornalista e fiz roteiros para minisséries de TV e escrevi peças de teatro. Ganhava dinheiro com algumas coisas e depois fazia trabalhos solidários. Fiz parte de um grupo de escritores que criou bibliotecas e davam oficinas em bairros carentes e prisões. Por isso que uma parte da França me defendeu muito quando essa polêmica toda voltou à tona. Minha vida é escrever. Acho que não vai dar certo tentar matar o ser humano e o autor. Vou continuar aqui escrevendo. Não vou fazer literatura para anestesiar a mim e a ninguém. Tenho um olhar social para o que está acontecendo no mundo. Estou proibido de fazer política e não faço. Mas alguém precisa me explicar onde está a fronteira entre a cultura e a política, porque a política era uma arte quando foi criada pelos gregos. Agora parece que virou outra coisa. Faço cultura e, se ela se parece às vezes com a política, é algo que não depende de mim.

Foto de capa: Reprodução



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