A crise e as ruas

Se a crise econômica se transformar em crise social, as mobilizações de rua podem alterar seu sentido, significado, conteúdo e composição de classe. Os protestos podem mudar de cor. Não bastará para a esquerda repetir o repertório dos últimos anos, o que, por sinal,...

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Se a crise econômica se transformar em crise social, as mobilizações de rua podem alterar seu sentido, significado, conteúdo e composição de classe. Os protestos podem mudar de cor. Não bastará para a esquerda repetir o repertório dos últimos anos, o que, por sinal, já havia sido inócuo nas mobilizações de 2013

Por Vinicius Wu

A situação econômica do país pode desaguar em uma crise social de efeitos imprevisíveis, com implicações significativas em termos de agitação política e mobilizações de rua. Em 2016 – ou até antes disso – a crise pode levar às ruas outro perfil de manifestantes. A classe média tradicional, predominante nas manifestações desse ano, pode dar lugar aos desempregados, subempregados, jovens de periferias e movimentos sociais tradicionais. Se isso ocorrer, teremos uma mudança profunda do atual cenário político.

As respostas que os diferentes governos têm dado à crise econômica internacional, desde 2008, são, em linhas gerais, as mesmas. E os resultados também. Entre as 34 maiores economias do planeta o número de desempregados saltou de 33 milhões, em 2007, para 48 milhões, em 2015, consequência direta dos “ajustes” realizados sob a tutela de organismos financeiros transnacionais.

O rendimento médio do trabalho, nesses países, manteve-se estagnado, enquanto a renda dos mais ricos avançou significativamente, resultando no aumento das desigualdades e da miséria. A renda dos 25% mais pobres variou apenas 0,8% entre 1995 e 2011, ao passo que a da parcela mais rica foi ampliada em 17,4% no mesmo período.

Também nos países mais desenvolvidos, os cortes realizados nas políticas de proteção social e do trabalho tiveram impacto significativo entre os segmentos mais vulneráveis da população e isso vale tanto para a Europa quanto para os EUA. A tensão social aumenta e torna ainda mais dramática a situação dos refugiados que, atualmente, pressionam as fronteiras da Europa.

Há quem acredite que os resultados do ajuste no Brasil possam ser diferentes. Seria um caso singular. Mas, considerando a outra hipótese – a de que os efeitos tendem a serem os mesmos – podemos supor que a crise econômica pode se transformar em uma crise social e a esquerda deve estar atenta a essa possibilidade.

Até 2014, o Brasil havia logrado frear o impacto da crise internacional, através de políticas anti-cíclicas, da manutenção dos investimentos públicos e das políticas sociais. Ainda que a pobreza extrema tenha conhecido ligeira variação para cima, já em 2013, o país havia conseguido manter um saldo positivo durante os anos de repercussão da crise de 2008. Uma alteração desse quadro, dificilmente, não será acompanhada de repercussões decisivas no cenário político nacional.

Portanto, se a crise econômica se transformar em crise social, as mobilizações de rua podem alterar seu sentido, significado, conteúdo e composição de classe. Os protestos podem mudar de cor. Não bastará para a esquerda repetir o repertório dos últimos anos, o que, por sinal, já havia sido inócuo nas mobilizações de 2013.

Será preciso pautar e disputar uma agenda alternativa, que esteja à altura do atual período político. Simplificações e soluções fáceis, dificilmente, contribuirão para que o campo popular supere seus atuais impasses. O movimento das ruas pode tomar uma conotação distinta e imprevisível. Caso isso ocorra, a liderança desse processo pode definir muita coisa na política brasileira dos próximos anos.

Foto de capa: Reprodução



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