Estranhos no Paraíso

Em artigo, a secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Ivana Bentes, denuncia a discriminação contra a juventude negra e pobre no Rio de Janeiro: “A violência começa nos ônibus com...

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Em artigo, a secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Ivana Bentes, denuncia a discriminação contra a juventude negra e pobre no Rio de Janeiro: “A violência começa nos ônibus com policiais entrando, revistando, buscando, afrontando, reprimindo os moradores das periferias que vêm para as praias da Zona Sul. Só que os meninos não aceitam mais essas humilhações”

Por Ivana Bentes*

Beirou o insuportável o clima de conflito e agressão à juventude negra nas praias do Rio neste domingo de sol de 21/08/2015. A violência começa nos ônibus com policiais entrando, revistando, buscando, afrontando, reprimindo os moradores das periferias que vêm para as praias da Zona Sul.

Só que os meninos não aceitam mais essas humilhações e reagem, são pura potência e energia, não aceitam mais o racismo da polícia e de alguns moradores e comerciantes dos bairros que usufruem da orla do Rio.

Se tem roubos pontuais, a maior parte das olas, ondas, arrastões juvenis é um fenômeno coletivo das galeras que se juntam, se autoprotegem e “tocam o terror” com uma violência simbólica (e também de fato) que responde a uma violência real, continuada, programática!

A polícia mata nas favelas, achaca e prende preferencialmente os meninos negros. Os garotos na Vieira Souto (endereço mais chique do Rio) se impõem em grupos, zoam, cantam alto, assustam com sua sociabilidade de tribos juvenis.

O clima é de tensão, stress, correria no Arpoador e Ipanema. Grupos entram amedrontados nos restaurantes porque um policial atira para cima para dispersar os garotos negros que andam juntos indo para um ponto de ônibus.

Um bunker de carros de polícia e carros de reportagens das principais TVs concentrados no Arpoador espera a próxima correria na areia. Arma-se um circo midiático em torno de um moleque negro perseguido na areia. Oito jovens negros já estão dentro dos camburões! Mães, namoradas, irmãs e amigos explicam aos policias que “ele não é ladrão”. Mas as operações são pela cor da pele, alguns meninos são levados no bolo ou porque reagem à truculência e suspeição sistemática contra pobres.

Em todos os pontos de ônibus, policiais aos montes chegam revistando, olhando para cada menino, mulher, criança negra que vem das periferias e favelas como suspeitos! Moradores e porteiros dos prédios chiques nas portarias comentando a violência, e alertando seus iguais (os brancos) que passam para tomar cuidado!

Os garotos e os grupos nos pontos de ônibus estão revoltados: “se me tocarem, se jogarem gás de pimenta dentro do ônibus, vamos dar porrada!”. “Não adianta prender, a Dilma vai mandar soltar”, diz um homem branco pronto para um linchamento na rua! Racismo, rejeição, ódio de classe, ódio entre os grupos. Querem expulsar a juventude negra do paraíso!

“Somos todos iguais na praia”. Nunca fomos! Só que agora tem uma garotada que não aceita, não vai aceitar o apartheid “cordial” das areias cariocas!

Podem chamar de arrastão ou do que for, podem criminalizar, pode colocar no Jornal Nacional e no Fantástico. Enquanto não tiver um arrastão para mudar essa mentalidade racista, os meninos vão responder com o que têm: seus corpos e sua potência!

O que está por trás desse clima de apocalipse que culpabiliza e criminaliza os jovens negros além do racismo da polícia e da sociedade é, neste momento, também uma reação para reverter a decisão do juiz Pedro Henriques Alves, do Rio, de acabar com prisões por suspeição dos jovens nos ônibus. A iniciativa surgiu após dezenas de jovens terem sido apreendidos nos últimos meses a caminho das praias da Zona Sul, sem que estivessem praticando atos infracionais. Uma parte da polícia e dos moradores da Zona Sul está inconformada.

O mais grave é ver moradores de Copacabana, jovens brancos de classe média, cercarem um ônibus com jovens que voltam da praia e agredirem os passageiros: “Abre a porta, abre a porta, motorista! Só tem ladrão. Vamos dar porrada. Fotografa eles, só tem ladrão” — dizia um deles, enquanto espancava um adolescente, chutado várias vezes.

Amo o Rio, mas o apartheid “cordial” nas areias, que poderia até ser “suportável” para muitos, vem se transformando em uma batalha campal, impossível de se “abstrair”. Rio 40 Caos, como dizem os cariocas.

Também a narrativa sobre os “arrastões” na TV, a cada domingo de sol, se torna mais cínica e parcial, amplificando e naturalizando o ódio e o medo.

#‎juventudenegraviva‬

* Ivana Bentes é secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura

Foto de capa: Reprodução/Facebook



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