Da mídia à barbárie ou o pêndulo de Lévi-Strauss

Na web e nas redes sociais para cada post de ódio, rancor e preconceito há também as propostas de vanguarda e progresso civilizatório. É também o espaço antídoto contra as produções da miséria da...

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Na web e nas redes sociais para cada post de ódio, rancor e preconceito há também as propostas de vanguarda e progresso civilizatório. É também o espaço antídoto contra as produções da miséria da mídia brasileira

Por Moisés dos Santos Viana, no Observatório da Imprensa

O clima esquenta nas redes sociais. Os sujeitos agora mostram a sua face oculta, o seu “lado B”. A sociedade brasileira não mais se camufla sob a falácia da democracia racial e dos pactos entre casa grande e senzala. Está à mostra a composição histórica social do Brasil: desigual e cruel, injusta e antidemocrática, machista, racista e intolerante. Nada gentil. Ao menos, as ideias circulantes nessa esfera pública levam os analistas a refletir sobre a tentativa de entender como se comporta e se expressa boa parte dos usuários dos novos meios de comunicação (ver artigo no OI).

O vaticínio de Lévi-Strauss sobre o Brasil, de que passamos “da barbárie à decadência sem conhecer a civilização”, se configura como algo pertinente na atualidade. Assim, podem-se pensar alguns pontos no que tange ao papel da mídia e como há uma circularidade com as redes sociais no processo de mediatização das relações sociais e consumo das formas simbólicas.

A decadência da mídia tradicional

O sistema de comunicação social convencional, aqui tratado como “a mídia”, vive um processo político de concentração (ver artigo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação), é um microcosmos da sociedade brasileira. Configura-se historicamente como mecanismo de coesão, com a possibilidade de criar formas simbólicas, indicando, formando e nutrindo as ideologias das oligarquias e plutocracias brasileiras: conjunto de referências, pensamentos e cosmovisões. Nessa perspectiva, a mídia é voz e vez dos privilegiados. Ela tem a prerrogativa de manter a ordem nas formas da organização sociocultural, funciona como agente institucional e suas relações com os sujeitos sociais cria “um clima” para os humores sociais.

No campo político e cultural, esse humor é expressivamente o ódio, as acusações e as leviandades. Não se faz isso sozinha, mas articulada com outras instâncias de poder que nutrem ideologicamente (sistemas judiciários e policiais, sistemas econômicos e religiosos). A mídia, então, ao produzir “esse clima”, aproveita sobretudo as lacunas deixadas pelo combo do subdesenvolvimento sociocultural e econômico-político da sociedade brasileira. Seu insumo são as misérias da sociedade que se transformam em gostosas guloseimas na maravilhosa fábrica de chocolate: as produções jornalísticas, telenovelas e enlatados diversos. A mídia também se nutre do vácuo político dos partidos enfraquecidos, da criminalização e desarticulação dos movimentos sociais (feita desde 1964) e da ridicularização do pensamento de esquerda como um todo.

Nas redes sociais, a barbárie

Pensar o papel da mídia na sociedade é um exercício nada fácil, dadas as diversidades sociais que ela encerra. Daí a possibilidade de pensar como há a circularidade entre mídia convencional (rádio, TV e impressos) e redes sociais nos processos de comportamento, política e cultura.

Apesar da decadência dos sistemas convencionais (ver artigo DCM), a mídia se mantém com um relativo poderio institucional, pois sua influência continua. E hoje se percebe, mais do que qualquer coisa, como as temáticas propostas por essa mídia são reverberadas nos sistemas políticos, jurídicos, econômicos e redes sociais e vice-versa.

Tal circularidade é visível nos posts, nos comentários e nas formas de comunicação interpessoais mediadas por essas novas tecnologias e redes sociais. Ou seja, “o clima” iniciado na mídia convencional é compreendido e experimentado. Nas redes sociais se configura humor de ódio, aflorando o que já é cotidiano na sociedade brasileira. Aquelas sombras banalizadas e domesticadas, remidas e sublimadas perdem seus filtros. O que se combatia com educação doméstica, escola e religião se ressignifica em atos, palavras e imagens. Os princípios civilizatórios se vão.

Frustrações, ódio e preconceitos são materializados nos textos como livre expressão de uma realidade vivida constantemente no contexto das dissimulações, nas mentiras e ficções das formas simbólicas. Sobrando ofensas, criando instabilidades sociais e demonstrando as lacunas do processo civilizatório brasileiro. O que se chamava de politicamente correto é combatido descaradamente, permitindo mais que tudo xingar, injuriar e ridicularizar mulheres, nordestinos, africanos, mas sobretudo discriminar gays, religiões de matriz africana, negros, haitianos e esquerdistas.

É o triunfo do racismo, do preconceito, da xenofobia e barbárie, capitaneados pela classe média que agora não mais nega suas vísceras. Como destaca o jornalista Leandro Fortes ao comentar um post do promotor de justiça de São Paulo que pediu para a tropa de choque agir sumariamente contra os que protestavam na avenida por onde ele passava: “(…) Gado cevado na mentalidade fascista da classe média brasileira, majoritariamente branca, racista e iletrada”. Essa sentença se encaixa muito bem ao post de uma blogueira classe média, ao ridicularizar os acesso dos pobres à saúde: “a grande preocupação do pobre é procriar”.

Há ainda os comentários aleatórios dos sujeitos nas redes sociais que pedem a morte dos comunistas, bolivarianos e petistas. Morte a Lula e a Dilma, bem como o fim do Foro de São Paulo. E outros milhares de exemplos que há nas redes sociais. O sujeito gentil virou o hater, pessoa tida como comum que posta comentários de ódio e que pode se concretizar em agressão física, como aconteceu com o repórter do CQC.

No mundo onde se tem a ilusão do direito à livre expressão, há a confusão com o sentimento de impunidade, perpassa os jardins da intolerância, os recalques, formando as fontes inesgotáveis de um processo de barbárie que se perpetua em cadeia nas redes sociais.

Da web à mídia viciada

A web e as redes sociais se tornaram dubiamente o front das ideologias, ao mesmo tempo em que se torna o espaço dos sujeitos e das suas proposições miseráveis. A velha mídia é estruturada como privilégio dos plutocratas e espaço das oligarquias. Como uma imensa máquina extorque o direito social da comunicação dos mais pobres, manipula e degenera a classe média mediana, simbiose das ideias dos seus exploradores e mais o pacto infeliz de ódio que se tem contra tudo que seja do povo pobre.

Mas, na web e nas redes sociais para cada post de ódio, rancor e preconceito há também as propostas de vanguarda e progresso civilizatório. É também o espaço antídoto contra as produções da miséria da mídia brasileira. A luta da sociedade contra as estruturas e processos de exclusões nasce nos movimentos e espaços contra as formas simbólicas de ódio e opressão.

No clima atual de decadência que vive a mídia, a web é o fórum proposto para desenvolver os sistemas de combate à barbárie. Será que o processo de inclusão alimentar e social do Brasil chegou ao fim com a reação em cadeia das oligarquias e plutocracias ao despertar as sombras que avizinhavam a cultura brasileira? Porque não houve alguma de desestabilização dos sistemas das velhas mídias. Mas o que há é a constatação que as mediações se ampliaram, “o direito à antena” se problematizou, não por ampliação dos direitos sociais à comunicação e sua democratização, mas para manter o mínimo possível de resistência.

O protagonismo do “príncipe eletrônico” não mais se põe em monólogo inquestionável. Agora há de lidar com uma nova forma de agir no mundo as redes sociais, os coletivos conectados e toda potencialidade das novas tecnologias (ver indicadores Cetic). Os detratores da civilização brasileira com suas máquinas eletrônicas de produzir monstros agora lidam com um mundo de diversas vozes. Até onde irá? Talvez Lévi-Strauss estivesse equivocado!

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Moisés dos Santos Viana é jornalista e professor

Foto de capa: Pixabay/stevepb

 

 



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