Professor da Unicamp escreve carta em resposta a pichação fascista na universidade

“Morte aos comunistas da Unicamp. Seus parasitas, vão trabalhar”, dizia a mensagem escrita em muro do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). Segundo professor livre-docente Renato Ortiz, “existe atualmente na sociedade brasileira um...

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“Morte aos comunistas da Unicamp. Seus parasitas, vão trabalhar”, dizia a mensagem escrita em muro do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). Segundo professor livre-docente Renato Ortiz, “existe atualmente na sociedade brasileira um clima explícito de cretinice, ela não se envergonha de si mesmo, orgulhosa, torna-se pública, revelando sua face distorcida”

Por Redação*

(Foto: Reprodução/Facebook)
(Foto: Reprodução/Facebook)

Há quase duas semanas, as agressões à família de Walquiria Leão Rego, professora da Unicamp, cometidas por um vizinho antipetista, ganharam repercussão na mídia. Poucos dias antes, outro episódio de intolerância: no último dia 8, uma mureta do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da universidade à qual a socióloga é vinculada amanheceu pichada com os dizeres: “Morte aos comunistas da Unicamp. Seus parasitas, vão trabalhar”.

Embora apagada poucas horas depois pela direção do IFCH, a mensagem gerou revolta nas redes sociais. O professor livre-docente Renato Ortiz, titular do instituto, escreveu uma carta em resposta ao ato fascista. “Existe atualmente na sociedade brasileira um clima explícito de cretinice, ela não se envergonha de si mesmo, orgulhosa, torna-se pública, revelando sua face distorcida. Pior, não se contenta em circunscrever-se aos espaços dos partidos ou dos movimentos políticos, invade o quotidiano, as conversas, amizades, relações de trabalho”, argumentou Ortiz em seu texto, que viralizou no Facebook.

Segundo o diretor associado do IFCH, Jesus José Ranieri, em entrevista ao Correio Popular, a universidade optou por não instaurar sindicância ou acionar a polícia “porque o instituto presa pela convivência pacífica e não quer despertar uma reação mais incisiva”. Ranieri afirmou que estuda realizar em outubro evento para discutir “este momento de absoluta intolerância que o Brasil está vivendo”.

Confira, abaixo, a carta de Renato Ortiz:

Carta aos Colegas do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas

“Morte aos comunistas do IFCH”. A frase estava escrita na parede de entrada do prédio da direção do Instituto de Filosofia. O lugar escolhido era estratégico, ao subir as escadas a mensagem podia ser vista no seu brilho ofuscante. Minha reação foi de espanto, permaneci imóvel diante do texto, nunca havia visto algo assim em minha vida universitária. No dia seguinte, ao chegar no Instituto, os dizeres tinham sido apagados.

“Morte aos comunistas”. A segunda parte da frase é genérica não tem intenção de ser precisa. Dificilmente, após o colapso da União Soviética, ela poderia dirigir-se àqueles que se consideram “comunistas”. Não, o termo possui uma conotação polissêmica: “esquerda”, “canalha”, “safado”, “petista”, “corrupto”. A denominação deve ser suficientemente ampla para dar a impressão que a pessoa que escreve situa-se na condição fictícia de que é possível falar “contra todos”.

Ela estaria indefesa, ameaçada pelas forças estranhas que a rodeiam. A primeira parte da sentença é, no entanto, clara, límpida, lembra a palavra de ordem do fascismo: morte. Não há nenhuma dubiedade no que é dito: os adversários devem ser aniquilados.

Creio que foi precipitado apagar o grafitti. Ele deveria, temporariamente, permanecer no muro, vestígio e testemunho da estupidez que nos cerca. Temos a ilusão que a universidade, um lugar de liberdade e debate, estaria ao abrigo dessas coisas. Engano. As fissuras sociais nos atingem diretamente.

Existe atualmente na sociedade brasileira um clima explícito de cretinice, ela não se envergonha de si mesmo, orgulhosa, torna-se pública, revelando sua face distorcida. Pior, não se contenta em circunscrever-se aos espaços dos partidos ou dos movimentos políticos, invade o quotidiano, as conversas, amizades, relações de trabalho.

A intolerância sente-se confortável, à vontade para se apresentar como um código moral duvidoso. “Morte”, “Comunista”. As palavras não nos machucam diretamente, mas contém uma potencialidade inquietante, a passagem da intenção ao ato, da agressão verbal à violência física. Resta-nos a indignação, dizer não a esta deriva autoritária, expor sua arrogância e falsidade.

A indignação é um sentimento de repulsa, retira-nos da passividade, recorda-nos que o presente é frágil e as conquistas que conhecemos nada têm de perenes, permanentes.

Renato Ortiz
10 setembro de 2015

* Com informações da Carta Campinas



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