A cerca e as cruzes

Diante de um grave déficit demográfico, a Europa teria tudo para acelerar o acolhimento de refugiados, mas não é o que vai acontecer. E pelo menos a Hungria já admitiu: o motivo nunca foi...

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Diante de um grave déficit demográfico, a Europa teria tudo para acelerar o acolhimento de refugiados, mas não é o que vai acontecer. E pelo menos a Hungria já admitiu: o motivo nunca foi econômico

Por Murilo Cleto

Desde a Segunda Guerra Mundial não se via um fluxo tão intenso de refugiados na Europa. Só até o fim de julho deste ano, 438 mil pessoas pediram asilo. Alemanha e Hungria já receberam mais pedidos em 2015 do que em todo o ano passado, o que se explica diante do agravamento da Guerra Civil na Síria, disparado o maior berço de migrantes do mundo atualmente.

Nas últimas semanas, a situação nas fronteiras tem piorado com as medidas anti-imigração adotadas pelos países mais ao sul do continente europeu. É o caso da Hungria, que, além de ter erguido uma cerca de 4 metros de altura e 175 quilômetros de extensão na divisa com a Sérvia, tornou crime a sua danificação e a entrada ilegal no território. Desde o início do ano, 190 mil refugiados chegaram ao país, que tem reagido de modo enérgico. O primeiro-ministro Viktor Orban chegou a dizer que a Hungria tem o direito de decidir rejeitar muçulmanos e que a sua presença poria em risco a manutenção dos valores cristãos europeus.

Apesar de chocantes, as declarações de Orban são importantes para desmascarar o principal argumento que ainda sustenta a rejeição de refugiados orientais no continente: a economia. Enquanto boa parte dos Estados na Europa sofre com um preocupante déficit demográfico que encurrala seus sistemas previdenciários, os imigrantes poderiam representar um salto de produtividade e arrecadação. Hoje a média de filhos por mulher na União Europeia é de 1,6, quando seriam necessários pelo menos 2,1 para pelo menos manter a população no mesmo nível. Portugal, que pode ter a população reduzida em 20% nos próximos 40 anos, paga até 5 mil euros por bebê para incentivar a natalidade. Mas, ao que tudo indica, isso é o que menos importa agora.

No auge dos efeitos da crise econômica que assola o mundo desde 2008, a Dinamarca abandonou de vez a tradição de tolerância com imigrantes e liderou a suspensão do Tratado de Schengen, maior orgulho do bloco à exceção do Euro, em vigor desde os anos 1990, símbolo do processo de globalização e que pressupunha ausência de controle alfandegário entre signatários, promovendo como nunca a livre circulação. Em 2011, o ministro da Integração Soren Pind disse à Folha de S. Paulo que o maior desafio para a Dinamarca na integração dos imigrantes era “aceitar que nem todo mundo é igual à nossa sociedade. Somos uma tribo há mais de 2.000 anos. Nós viemos dos vikings e gostamos muito do nosso jeito de viver”. Além de destacar a maior representatividade de imigrantes em atos criminosos, Pind sustentou que a sua contribuição para a economia era significativamente inferior do que a dos ocidentais. Na ocasião, o desconforto era explícito entre chefes de Estado, que se acusavam mutuamente de fazer vista grossa à entrada de imigrantes e permitir sua distribuição pelo velho continente.

Mesmo antes da crise, no entanto, a relação da Europa com imigrantes já se fazia nada menos do que tensa. Isso inclusive quando o próprio continente passou a incentivar a chegada de estrangeiros diante do boom econômico e da incapacidade de suprir a demanda do mercado, superaquecido na década de 1990 e propulsor da abertura de fronteiras. É o que defende o professor doutor Rafael Tassi Teixeira, que estudou especialmente o modo como a imprensa espanhola representou imigrantes brasileiros no país. De acordo com Teixeira, a despeito de todos os indicativos socioeconômicos e do processo de integração, enaltecidos também pelo governo, os veículos de comunicação insistiam na figura do estrangeiro latino como sinônimo tanto do exótico quanto do perigoso. O problema não é, nem nunca foi, econômico.

Na Polônia, país de esmagadora maioria católica (90% da população), a ONG Cáritas, organização cristã que lideraria uma eventual ação para abrigar refugiados, já se manifestou contrária ao acolhimento. Sua alegação é a de que temem pela reação dos islâmicos ao conviver com o cristianismo: “Por exemplo, nossas camas têm cruz. Eles vão aceitar viver com cruzes por todos os lugares?”, indagou Pawel Keska, porta-voz da entidade. Se os 4 milhões de refugiados sírios fossem muçulmanos, o que já é mais do que improvável, o índice de total de praticantes da principal religião árabe na União Europeia saltaria de 4 para 5%.

Entre 2007 e 2015, a União Europeia investiu nada menos que 2 bilhões de euros em recursos para o controle das fronteiras. No ano passado, o Reino Unido chegou a sugerir o cancelamento da Mare Nostrum, operação humanitária que tinha como principal objetivo impedir o afogamento de imigrantes no Mediterrâneo. Em 2015, mais de 2,6 mil refugiados morreram no mar tentando a travessia. Somente após o grande clima de comoção que tomou conta do mundo após a divulgação de fotos de um menino sírio morto numa praia da Turquia é que a Alemanha decidiu fazer frente e divulgar um improvisado plano de distribuição de 160 mil imigrantes pelo continente. Isso pouco depois de Angela Merkel ter feito uma criança palestina chorar durante coletiva em que dizia não ser possível para o país regularizar a situação dos ilegais.

Nos Estados Unidos, o magnata Donald Trump tem atacado explicitamente os mexicanos na terra da liberdade: “Quando o México envia suas pessoas, não envia o que há de melhor. Eles enviam pessoas que têm muitos problemas, e eles trazem os problemas para nós. Eles trazem drogas, eles trazem crimes, eles são estupradores”, disse há pouco tempo. A proposta de Trump, ainda favorito a concorrer à Casa Branca pelos republicanos, é simplesmente deportar todos os imigrantes ilegais do país. Desde a anistia concedida por Ronald Reagan nos anos 1980, 11 milhões de imigrantes chegaram aos EUA e não têm como legalizar sua situação graças à contenção do Congresso. O presidente Barack Obama chegou a barrar as expulsões por decreto.

E não é preciso ir muito longe para saber que este não é um imaginário exclusivo da Europa ou dos Estados Unidos. Enquanto, por um lado, cresce o número de brasileiros voluntários em centros de acolhimento de refugiados pelo país, por outro crescem também as manifestações de racismo e xenofobia. Em Londrina, um senegalês foi atingido por uma banana e chamado de “macaco”, “preto fedido” e “ladrão” por uma moradora. Outro imigrante do Senegal foi nada menos que incendiado enquanto dormia em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Na região metropolitana de Porto Alegre, um cliente registrou, orgulhoso, a abordagem intimidadora a um frentista haitiano justificando-a como reação ao projeto do Foro de São Paulo para a América Latina. Mais recentemente, em Niterói, diversos cartazes foram distribuídos com um recado direcionado a muçulmanos, em forma de texto e de imagens, que traziam uma assombrosa compilação entre a figura de Jair Bolsonaro e a Ku Klux Klan. O deputado carioca, que já anunciou pré-candidatura ao Planalto em 2018, declarou recentemente que refugiados são “a escória do mundo”.

Rejeitados na Hungria, milhares de refugiados já começaram o caminho de volta. Pode parecer obra da ficção, mas preferem retornar aos tentáculos do Estado Islâmico que permanecer em condições sub-humanas na Europa, apartados por uma cerca que tem mais direitos que gente. Ao Globo News Sem Fronteiras, um sírio que apressava o passo para casa, apesar do transparente cansaço físico e mental, disse à repórter: “Se é para morrer, lá ao menos eu tenho meus amigos e minha família”. Como será que ele reagiria a uma cama com cruzes em volta?

Imagem de capa: Reprodução



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