Um ano do massacre de estudantes no México: dez perguntas que seguem sem resposta

Os normalistas estariam vivos? Onde estão? Por que foram atacados? Estas e outras questões ainda seguem em aberto Por Camila Alvarenga e Vanessa Martina Silva, do Opera Mundi...

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Os normalistas estariam vivos? Onde estão? Por que foram atacados? Estas e outras questões ainda seguem em aberto

Por Camila Alvarenga e Vanessa Martina Silva, do Opera Mundi

No último sábado (26/09), completam-se exatos 365 dias do desaparecimento dos 43 estudantes da Escola Normal de Ayotzinapa, ocorrido cidade de Iguala, no México. Apesar das diversas manifestações em todo o México e em diversos países do mundo, o governo do presidente Enrique Peña Nieto ainda não apresentou uma versão considerada satisfatória pelos familiares.

Às vésperas do marco, na última quarta-feira (24/09), o presidente chamou os pais para uma conversa, mas o resultado não agradou os familiares, que reclamaram a falta de comprometimento do governo com as demandas por eles apresentadas. No mesmo dia, iniciaram uma greve de fome de 43 horas para chamar a atenção para a falta de solução para o caso.

Em meio à falta de definição sobre o que aconteceu com os estudantes, dez perguntas sobre o caso seguem sem resposta. Confira:

1 – Por que um ônibus de estudantes foi atacado no dia 26 de setembro de 2014?

A versão oficial do governo mexicano e as investigações independentes dizem que os estudantes foram atacados por policias municipais da cidade de Iguala, mas não se sabe qual foi a motivação do atacado e sequestro deles. Uma hipótese levantada por especialistas nos últimos dias, no entanto, sugere que os estudantes teriam virado alvos do narcotráfico – que inclui policiais corruptos – por terem “confiscado” um ônibus que continha drogas.

2 – Se foi o cartel Guerreros Unidos que atacou os estudantes, por que o fizeram?

Outra tese diz que os policiais que levaram os estudantes eram ligados ao cartel Guerreros Unidos. De acordo com essa versão, eles teriam suspeitado que os jovens faziam parte do cartel rival, que disputa o controle da região, Los Rojos.

Apesar de diversos integrantes do Guerreiros Unidos, inclusive seu suposto máximo líder, terem sido presos, até o momento não foi esclarecido o motivo do ataque aos jovens, tampouco o paradeiro dos mesmos, já que o exame realizado por cientistas austríacos não conseguiu avaliar o DNA do material encontrado no lixão de Cocula – onde, segundo o cartel, os corpos dos garotos teriam sido queimados.

3 – Os normalistas sequestrados estariam vivos?

A Upoeg (União de Povos e Organizações do estado de Guerrero) acredita que a maioria dos jovens sequestrados está nas mãos da delinquência organizada e é obrigada a fazer a colheita de plantas utilizadas na fabricação de drogas estimulantes na serra de Filo de Caballo. O governador do estado de Guerrero, Rogelio Ortega Martínez, também acredita que os desaparecidos estão vivos e as pessoas que os têm os dividiram em vários grupos para poder movê-los de um lugar ao outro sem levantar suspeitas.

4 – Por que a equipe de investigadores internacionais e familiares das vítimas contestam a versão apresentada pelo governo?

Para as famílias dos 43 normalistas, tanto o governo estadual quanto o federal estão envolvidos nos desaparecimentos, visto que – para eles – não estão fazendo todo o possível para encontrá-los e, mais de uma vez, as investigações oficiais chegaram a conclusões contestadas sobre o paradeiro dos jovens.

São duas as principais linhas contestatórias:

– Os estudantes não poderiam ter sido confundidos com narcotraficantes do grupo Los Rojos porque, desde a primeira abordagem, eles se apresentaram como normalistas e também estavam devidamente identificados;
– Um especialista peruano em ciência do fogo apontou que a hipótese de incineração a céu aberto é cientificamente impossível. Segundo cálculos, para incinerar totalmente um corpo seriam necessários 700 quilos de madeira ou 310 de pneus queimando por 12 horas. Assim, para queimar 43 corpos, teriam que ser usadas 30,1 toneladas de madeira ou 13.300 pneus queimando por 60 horas (dois dias e meio). Além disso, a fumaça produzida seria visível a vários quilômetros do local. Mas, nenhum morador da região disse ter visto semelhante fenômeno e a versão do governo diz que a fogueira de corpos durou seis horas.

Em reunião realizada com o presidente Enrique Peña Nieto na véspera do primeiro aniversário do desaparecimento dos jovens (24/09), os pais fizeram oito solicitações ao governo, mas não foram atendidos. Entre elas, pedem que sejam investigados o ex-governador de Guerrero, Ángel Aguirre; o ex-procurador do estado, Iñaky Blanco; o ex-procurador federal, Murillo Karam; o atual titular da Agência de Investigação Criminal, Tomás Zerón; e a responsável pelos serviços de perícias, Sara Mónica Medina.

5 – Onde estão os corpos ou os estudantes vivos?

A Upoeg acredita que eles estariam sendo obrigados a participar na produção de drogas na serra Filo de Caballo, mas nada foi comprovado.

A análise dos supostos restos mortais encontrados no lixão de Cocula não puderam ser identificados, por isso os pais contestam a versão de que os jovens estejam mortos e seguem pedindo que eles sejam encontrados com vida. Até agora, só foram encontrados os restos de um dos estudantes, Alexander Moro.

6- Qual foi o papel do Estado nos acontecimentos? Por que o presidente Peña Nieto demorou tanto tempo para se pronunciar?

O presidente mexicano foi duramente criticado pelos familiares dos desaparecidos por ter demorado a se pronunciar sobre o episódio. Enquanto o mandatário demorou 12 minutos para se pronunciar após a morte do comediante Roberto Gómez Bolaños, o “Chaves”, o pronunciamento sobre os 43 jovens levou 10 dias.

Além disso, Peña Nieto realizou uma viagem internacional e participou da cúpula do G-20 enquanto o país protestava pedindo o reaparecimento dos estudantes.

7 – O governador do estado de Guerrero na época, Ángel Aguirre, foi acusado de omitir informações sobre o sequestro dos 43 estudantes. Por que ele não é investigado?

Durante o mandato de Aguirre, a violência e os desaparecimentos forçados se alastraram por Guerrero, com o narcotráfico tomando conta do território. Diante deste cenário, Aguirre é acusado de omissão.

Segundo dados de 2014 do Instituto Nacional de Estatística e Geografia mexicano, menos de 2% dos crimes são resolvidos no país. Guerrero é um dos três estados com maior impunidade do México. Além disso, os estudantes foram detidos por forças estaduais.

A pressão sobre ele veio de todos os lados e seu partido, o PRI (Partido Revolucionário Institucional), retirou seu apoio, fazendo com que reunciasse ao cargo em outubro de 2014.

8 – Se o prefeito de Iguala à época, José Luis Abarca, estava realmente envolvido no sequestro, por que não disse onde estão os corpos?

As autoridades mexicanas argumentam que foi o prefeito José Luis Abarca e sua esposa que arquitetaram o ataque e o desaparecimento dos estudantes. Por isso, foram presos. Mas, desde que estão sob custódia do Estado, não revelaram nenhuma informação acerca do paradeiro dos jovens.

9 – Qual é a participação do Exército no sequestro? Por que não foi autorizada a investigação do quartel próximo ao local onde supostamente os corpos teriam sido queimados?

No dia do sequestro, soldados demoraram mais de duas horas para ir ao local onde os estudantes haviam sido atacados e, segundo sobreviventes, não prestaram auxílio.

O governo ainda não investigou o Exército, afirmando que o órgão tem seus próprios mecanismos de investigação. No início deste ano, o secretário do Interior, Osorio Chong, declarou que os militares são intocáveis.

Além disso, uma hipótese é que a suposta incineração teria ocorrido em crematórios do Exército na região ou ainda em crematórios privados.

10 – Dos 111 que foram presos desde o início da investigação, algum deles ofereceu alguma pista concreta para encontrar os normalistas? Algum deles estava, de fato, envolvido diretamente com o caso?

A polícia chegou a prender 111 pessoas suspeitas pelo desaparecimentos dos 43 de Ayotzinapa. No entanto, após a prisão desses suspeitos, o Estado não ofereceu mais explicações sobre o papel que desempenharam no sequestro dos jovens.

(Foto: Blanko/FlickrCommons)



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