“Sem iniciativas independentes não existe cultura, só prateleira de supermercado”

Questionamento político e social, cultura popular, maracatu e riffs de guitarra. Conheça mais o cantor pernambucano Siba que, desde o movimento manguebeat nos anos 1990, enaltece em suas músicas a luta contra as “cidades...

707 0

Questionamento político e social, cultura popular, maracatu e riffs de guitarra. Conheça mais o cantor pernambucano Siba que, desde o movimento manguebeat nos anos 1990, enaltece em suas músicas a luta contra as “cidades pensadas para homens-que-tem-carros-e-vão-a-shoppings”

Por Ivan Longo

Esta é uma matéria da Fórum Semanal. Confira o conteúdo especial da edição 215 clicando aqui

“Progrediremos, todos juntos, muito em paz/ Sempre esperando a vez na fila dos normais/ Passar no caixa, voltar sempre, comprar mais/ Que bom ser parte da maquinaria”. Este é um trecho de ‘Marcha Macia’, uma das principais faixas do mais recente álbum do cantor pernambucano Siba, ‘De Baile Solto’ [baixe aqui].

De forma irônica e sarcástica, a música faz uma crítica fina aos ‘avanços’ de um suposto progresso que chega com a “nova ordem que tomou conta da cidade”, questionando o consumismo, a vigilância, as noções de cidadania e os comportamentos impostos a quem faz parte da “maquinaria”.

Esse tipo de questionamento feito na canção e em boa parte das músicas do álbum – produzido independente de gravadoras e com recursos próprios – retomam a essência do movimento que Siba ajudou a criar, no início dos anos 1990, como vocalista da banda Mestre Ambrósio: o Manguebeat. “Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto!”, dizia o manifesto do movimento que atentava para a necessidade de resgatar a cultura regional e popular que estava sendo dilacerada pelo crescimento da metrópole em nome de um falso progresso.

Passados mais de vinte anos e mais de dez álbuns lançados com o Mestre Ambrosio, com a Fuloresta ou em carreira solo, Siba, ao ser perguntado se ainda enxerga esse tipo de opressão, é direto. “Basta pesquisar a história recente de repressão ao Maracatu de Baque Solto pelo governo de Pernambuco para saber qual o real lugar que a cultura local ocupa no estado”, disse, referindo-se às operações da Polícia Militar pernambucana que, este ano, vem realizando ações para encerrar as festas de rua de maracatu de grupos tradicionais de Nazaré da Mata, no interior do estado, às 2h da manhã. Tradicionalmente essas festas aconteciam até o amanhecer.

Siba em ensaio de Maracatu de Baque Solto, na Zona da Mata de Recife. (Foto: lab.org.uk)
Siba em ensaio de Maracatu de Baque Solto, na Zona da Mata de Recife. (Foto: lab.org.uk)

Nesse sentido, Siba procura, em suas músicas, colocar em primeiro plano não só os ritmos tradicionais que cresceu ouvindo – como maracatu, ciranda e coco – mas também fazer contestações políticas que são fruto de opressões do sistema e do “desenvolvimento”.

“’De Baile Solto’ parte da situação de marginalidade e exclusão de uma cultura local para discutir assuntos altamente pertinentes ao momento político do Brasiil, na minha opinião. Qual a real importância da diversidade cultural para nós? Que podemos esperar desse projeto desenvolvimentista em que nos engajamos?”, afirmou.

Aos 46 anos, Sérgio Roberto Veloso de Oliveira – como consta em seu RG – se considera hoje um homem menos inocente do que aquele que começou a carreira tocando guitarra, ainda criança, em Recife, mas com a percepção de que suas “intuições inocentes de juventude estavam certas”.

Na conversa com  Fórum, Siba falou ainda sobre suas influências musicais, o contato com a cultura popular, cena independente e momento político. Confira.

Fórum – Como você se descobriu músico e decidiu viver de música?

Siba – Aos sete anos de idade meus pais me puseram numa escolinha de iniciação musical do colégio. Desde muito cedo eu já tinha uma relação ativa com a música, não só de tocar mas de ouvir, um exercício de curiosidade que me fazia procurar discos e ler sobre o que ouvia.O ambiente musical do Recife e do Agreste de meus familiares também foi determinante e se descobrir músico foi um processo lento, que só se definiu no momento de escolher um caminho profissional que, no meu caso, era uma opção de muito risco pois não havia perspectivas animadoras para isso no Recife dos anos 1980.

Fórum – Quais suas principais influências musicais, nacionais e internacionais?

Siba – A música de rua de Pernambuco, o rock dos anos 60 e 70, a música urbana da África pós-colonial, jazz.

Foto: ronaldobressane.com
“Me envolvi num longo processo de aprendizado do Maracatu de Baque Solto e da Ciranda que foi determinante para tudo o que fiz até hoje como artista” (Foto: ronaldobressane.com)

Fórum – Sua obra, em geral, é muito marcada por ritmos tradicionais – como maracatu e ciranda – e regionalismos. Como que você entrou em contato com essas tradições e qual sua relação com elas?

Siba – Não se vive no Recife sem ser afetado pela presença e força da cultura popular que vem da periferia e do interior. Cresci nos subúrbios de Recife e Olinda e tinha uma família totalmente ligada às suas origens no Agreste do estado, então a música do lugar em que cresci esteve sempre presente e era impossível de ignorar. Mais tarde me envolvi num longo processo de aprendizado do Maracatu de Baque Solto e da Ciranda que foi determinante para tudo o que fiz até hoje como artista.

Fórum – Este ano, em uma entrevista, você afirmou que “maracatu é rock”. Por que?

Siba – Os estereótipos e preconceitos em relação a tudo o que classificamos como “cultura popular” e “tradição” são tão profundos e arraigados no Brasil que tornam impossível qualquer diálogo sobre essas formas de expressão que não seja mediado por termos pejorativos ou no mínimo redutores. O Baque Solto tem em comum com o Rock os elementos expressivos que são marca da diáspora africana: Música, dança, poesia, teatro e artes plásticas conectados num todo indivisível, ritmo, intensidade, gosto pela distorção e volume alto, presença corporal, incorporação do ruído e do grito, etc… Comparando o Baque Solto com Rock eu tento estabelecer a possibilidade de uma conversa sobre Maracatu que de outro modo vai ser guiada por referenciais pejorativos.

Fórum – Diante das produções “mainstream” que dialogam com a lógica de mercado e de sistema, é possível afirmar que a música regional hoje é também uma música de protesto ou ainda de conotação política?

Siba – Música regional é tudo o que não é “mainstream”? Então quase toda a vastíssima produção musical do Brasil é “regional”? Mas o Sertanejo, o Funk, o Pagode e o Forró Eletrônico não são também estilos que, embora com ampla projeção, tem uma origem regional bastante definida? Parece que a diferença está mais ligada à facilidade ou impossibilidade do acesso aos meios de promoção da grande mídia, que ainda se mantém arrogantemente na posição de dizer o que tem e o que não tem potencial de comunicação mais abrangente.

Não existe intenção política de democratizar rádio e TV no Brasil. Nesse sentido, qualquer expressão que se afirme distinta dos modelos massificados tem automáticamente caráter de resistência e quem faz isso com mais radicalidade é a “Cultura Popular”, embora sem um discurso afirmativo à altura, pelo menos por enquanto.

Fórum – Como membro fundador do Mestre Ambrósio, você é considerado um dos pioneiros do movimento manguebeat. Quando surgido, o movimento atentava para a necessidade de se resgatar a cultura do mangue de Recife, dilacerada pelo crescimento da metrópole em nome de um ‘falso progresso’. Enxerga, mais de 20 anos depois, ainda uma cultura regional sendo massacrada por um falso progresso no Recife?

Siba – Basta pesquisar a história recente de repressão ao Maracatu de Baque Solto pelo Governo de Pernambuco para saber qual o real lugar que a cultura local ocupa no Estado.

Fórum – O movimento Ocupe Estelita, nesse sentido, pode ser considerado um “movimento manguebeat” à nível social e político? Como avalia a situação do cais e do processo de gentrificação, como um todo, na cidade?

Siba – Uma pequena articulação de gente jovem conseguir barrar um mega projeto de especulação imobiliária, no centro histórico de Recife, no auge da euforia desenvolvimentista, tem um valor simbólico enorme. Mas a cidade segue se desenvolvento num sentido elitista e excludente, parece que temos que aceitar a maldição de que só é possível vivem em cidades de puro concreto que são pensadas para homens-que-tem-carros-e-vão-a-Shoppings.

Fórum – Seu novo disco, De Baile Solto, tem algumas letras com certo tom político e de crítica social. Este pode ser considerado um álbum político?

Siba – O lugar comum de que “tudo o que fazemos ou dizemos é político” vale aqui, nenhum trabalho meu deixou de ser fruto de escolhas que tiveram contexto e consequência políticos. Mas “De Baile Solto” tem um texto mais políticamente explícito mesmo, foi feito num momento em que tive que pensar com mais intensidade a dimensão política de minha relação com o Maracatu de Baque Solto e consequentemente meu posicionamento como indivíduo e artista.

Fórum – De que maneira esses conceitos – crítica social e consciência política – se fazem presentes na sua vida?

Siba – É necessário que se lute contra a própria burrice e ignorância, antes de mais nada. É fundamental se defender das forças que a cada segundo tentam nos convencer de que só há um modo de ser e viver, a saber, sendo macho, branco, católico, consumidor e conservador. É preciso se inventar diferente mesmo nas pequenas coisas.

Fórum – Tem alguma avaliação do atual momento político do país? Isso se manifesta, ainda que de maneira indireta, em alguma canção do seu álbum mais recente?

Siba – “De Baile Solto” parte da situação de marginalidade e exclusão de uma cultura local para discutir assuntos altamente pertinentes ao momento político do Brasil, na minha opinião. Qual a real importância da diversidade cultural para nós? Que podemos esperar desse projeto desenvolvimentista em que nos engajamos? De que tratamos quando falamos de violência e segurança pública? Jamais seremos capazes de pensar uma relação com o meio ambiente que não seja a que herdamos de europeus e americanos? Que valores podem substituir o “ter” e “poder”, para construirmos um lugar melhor para nossos netos? E assim por diante…

Fórum – Para o artista que valoriza a cultura reginal há o risco de ter seus valores suprimidos pela indústria fonográfica? Qual a importância do cenário independente para esses artistas?

Siba – Não valorizo a cultura regional. Acredito em desenvolver e cultivar um olhar local para lidar com problemas cada vez mais globais. A cultura popular faz isso, de um ponto de vista secularmente oprimido. A pressão da Indústria Cultural pode ser esmagadora, mas a do preconceito e racismo é ainda mais forte e as culturas locais seguem resistindo e se afirmando distintas e singulares. Sem iniciativas independentes não existe cultura, só prateleira de supermercado.

Fórum – Suas letras são muito marcadas também pelo tom poético. Qual a relação que você tem com a poesia?

Siba – Meu texto é totalmente vinculado às poéticas orais praticadas no Nordeste, mesmo quando não faço uso de nenhum dos formatos tradicionalmente estabelecidos. Meu processo criativo em relação a poesia é similar ao de um Mestre de Maracatu, Cirandeiro, Cantador de Viola etc, só o “transporte musical” é que vai mudando de acordo com o meu momento de vida.

Fórum – Seus primeiros discos foram muito mais marcados pelos ritmos regionais e os dois últimos ganharam uma participação significativa da guitarra. O que explica essa mudança e essa mistura?

Siba – A guitarra é apenas uma ferramenta. Um instrumento não está necessariamente restrito a um estilo ou ritmo. A oposição entre eletricidade e tradição é falsa. Nos discos da Fuloresta, que apressadamente poderiam ser entendidos como “tradicionais”, tem inúmeros elementos alheios ao contexto habitual da música de rua, e guitarra também.

Recentemente, precisei me reapropriar de meu primeiro instrumento por necessidades de expressão e assim a guitarra passou a ocupar um lugar central em meu trabalho, mas isso não tem nada a ver com a questão de modernidade versus tradicionalismo.

Fórum – Diante do fato de sua obra ser uma produção não convencional, “fora da caixa” e que inova na mescla entre o novo e o tradicional, acredita que seu público tenha um perfil cultural em específico?

Siba – Comunico com um público muito diversificado e tenho dificuldade de traçar um perfil claro dele. Tem gente que me acompanha desde o Mestre Ambrósio, outros chegam a meu trabalho por conta de minha vinculação profunda com a cultura popular. Há quem se interesse pelo que eu faço em relação com a atual produção urbana independente do Brasil… Tenho até um público infantil!! Não posso reclamar.

Fórum – Musicalmente falando, o que o Siba tem de diferente hoje do Siba que começou tocando guitarra em Recife?

Siba – A perda de uma parte da inocência e a percepção de que minhas intuições inocentes de juventude estavam certas.

Esta é uma matéria da Fórum Semanal. Confira o conteúdo especial da edição 215 clicando aqui



No artigo

x