Leonardo Padura: Cuba ainda é um fantasma que assombra a direita brasileira

O escritor cubano conta como a Revolução contribuiu para superar a discriminação racial no país ao dar acesso para negros à universidade. Ele defende o caráter humanitário da presença de seus conterrâneos no programa Mais...

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O escritor cubano conta como a Revolução contribuiu para superar a discriminação racial no país ao dar acesso para negros à universidade. Ele defende o caráter humanitário da presença de seus conterrâneos no programa Mais Médicos e afirma que a relação entre Brasil e Cuba é social e economicamente vantajosa para ambos

Por Leonardo Fuhrmann

Esta é uma matéria da Fórum Semanal. Confira o conteúdo especial da edição 215 clicando aqui

O gosto de Leonardo Padura pela heresia – não só no pensamento religioso – está presente para além do título do livro que veio lançar no Brasil, Hereges. Para refletir sobre a Cuba de hoje, ele recorre ao passado de seu país e a personagens que enfrentaram o pensamento vigente. Ateu convicto, o escritor retrata na obra os judeus e a questão do livre arbítrio na relação deles com Deus.

Pessoalmente, mesmo sem ter fé religiosa, Padura trata com otimismo os resultados da visita do Papa Francisco a Cuba. Defensor do reestabelecimento de relações normais da nação com os Estados Unidos, ele deixa claro que não acredita que o sistema capitalista seja capaz de resolver os problemas de sociedade alguma.

Apesar de falar sobre as conquistas do regime cubano e as mazelas do antigo sistema, não esconde também os fracassos do governo revolucionário, como a falta de competitividade econômica ou de ética de algumas pessoas ligadas ao regime. Sobre o futuro de Cuba após o governo de Raúl Castro, responde com sinceridade e em espanhol claro: no tengo la más puta idea”.

Fórum – Qual o atrativo de escrever romances históricos?

Padura – Existe, de fato, uma tendência hoje a escrever romances históricos. Há um percentual grande de autores que são levados por argumentos que lhe parecem interessantes. A escolha se baseia em um acontecimento em si. Há cerca de dez anos, o gênero foi impulsionado pelo grande êxito de O código da Vinci, do Dan Brown. Eu me recordo de ter passado por uma livraria, em uma cidade da Espanha, e todos os livros que estavam na prateleira principal tinham a ver com Jesus Cristo, Maria, Santo Graal e templários.

Ou seja, todos eram uma espécie de subproduto de Dan Brown. Há um outro tipo de romance histórico que tem sido cultivado desde sempre, que tem um interesse muito mais social, porque esse gênero pode servir para revisar o presente. E é isso que me interessa. Escrevo textos com uma investigação histórica que parte do presente e vai ao passado ou vice-versa. Hereges é o terceiro livro em que uso de pesquisa histórica.

Antes foram O homem que amava os cachorros, também publicado no Brasil, e História de minha vida, ainda inédito no país. Os três partem de preocupações do presente, a partir de preocupações da sociedade contemporânea, especialmente a cubana. Creio que é uma forma de usar o passado como um espelho para ver melhor o que está acontecendo no presente. Busco ver os elementos da sociedade de meu país e saber quais são novos e os que são consequências ou repetições de uma história de épocas e circunstâncias diferentes.

Fórum – Por que o seu interesse pela figura do herege?

Padura – A figura do herege me interessa na medida em que opõe aos ortodoxos e, por isso, acaba sendo atacado por eles. É uma reação que existe desde quando a sociedade se organizou civilizadamente. Na Grécia Antiga, houve diversos casos de heresia. É uma palavra carregada de significado negativo, sobretudo na religião, em especial na católica.

A Igreja Católica catalogou como hereges, ao longo de sua história, diversas pessoas que contrariaram seus postulados, que questionaram afirmações que deveriam ser tratadas como verdades absolutas. Existem sociedades que se orgulham de haver grandes liberdades nelas e há quem considere que essa liberdade não é suficiente e rompem com esse equilíbrio. Por isso, são consideradas hereges.

Fórum – O que essa figura fala ao presente para você?

Padura – Acho que o meu romance é bastante claro ao estabelecer a relação entre heresia e a sociedade cubana. Quando comecei a escrever o livro, tinha a ideia de falar sobre um jovem cubano, não sabia neste momento se seria um homem ou uma mulher, que rompia com determinados códigos e participava de uma relação com a sociedade que não é a oficialmente estabelecida.

Mas eu percebi que a leitura do livro seria muito política sobre Cuba e muito estreita sobre o caráter da heresia, da rebeldia e da busca por um espaço diferente. Por isso, busquei outros contextos com relação semelhante, para abrir o espectro social e filosófico. Por isso recuo à chegada de um judeu a Cuba antes da II Guerra Mundial e também a outro em Amsterdã, no século XVII, que começa a pintar na época de Rembrandt.

Primeiro, porque a questão do livre-arbítrio é um assunto teológico muito importante dentro da cultura judaica. Segundo, porque os judeus sefarditas que fugiram de Portugal e da Espanha durante a Inquisição gozaram de grande liberdade de religião, costumes e cultura quando chegaram à Holanda.

E os judeus que vieram para Cuba, fugidos das perseguições do nazifascismo, também tiveram a mesma oportunidade. Ou seja, tenho dois personagens em sociedades onde podem desenvolver suas maneiras de ser e pensar, mas mesmo assim eles entram em conflito com elementos delas e rompem com os cânones da heterodoxia.

Fórum – O veto do governo cubano ao desembarque dos judeus do navio Saint Louis às vésperas da II Guerra Mundial é um fato conhecido em seu país?

Padura – É uma história sobre a qual pouco se falou em Cuba durante muitos anos. Há cerca de dez anos, um jornalista publicou uma crônica sobre os refugiados do Saint Louis. Houve também um filme, do ano de 1974, que se chamou O barco dos malditos. Creio que não se falava dessa história por duas razões: porque a história oficial revolucionária cubana prioriza contar sobre o que aconteceu antes de 1959, apenas sobre fatos que ajudam a legitimá-la.

Neste momento, começamos a recuperar essa história anterior. Houve uma época em que a história de Cuba começava em 1959, como fizeram também em outras revoluções. Lembre-se que a Revolução Francesa mudou o nome dos meses e o calendário, passou a contar a partir do ano 1 da Revolução. E, de outro lado, por ser realmente um episódio muito vergonhoso. E é estranho dentro da história de Cuba, pois somos tradicionalmente um país muito aberto aos imigrantes, como o Brasil, mas em uma dimensão muito menor.

Os imigrantes em Cuba tinham os mesmos problemas que têm em todas as partes. Se é pobre, está na parte debaixo da escala social. Se é mais negro, está mais ao fundo da escala social. São realidades econômicas e étnicas que fazem parte da cultura dos povos latino-americanos construídos a partir de muitas emigrações. E, por razões utilitárias ou de uma cultura aberta, os imigrantes sempre foram recebidos. E esse episódio é um capítulo negro na história cubana e teve como protagonista o elemento social mais negativo dos 50 anos de nossa República, que foi a corrupção.

Foi a corrupção que impediu que um país como Cuba, que – graças aos episódios ocorridos na Europa, com duas guerras mundiais, e à imigração – foi um país que depois de passar por um conflito devastador, como foi sua Guerra da Independência, cria rapidamente uma grande riqueza. Toda população poderia ter vivido muito bem, mas outra vez há uma grande semelhança com o Brasil, pois a grande riqueza ficou nas mãos de uns poucos. E, muitas vezes, essa maneira de enriquecimento teve relação com a corrupção. E o episódio do Saint Louis é fruto dessa corrupção e também da dependência que as decisões de Cuba tinham na época da política norte-americana.

Fórum – O racismo ainda é uma questão em Cuba?

Padura – Um dos princípios do processo revolucionário, desde o início, foi a eliminação de qualquer elemento desse tipo de discriminação social, seja social ou legalmente aceita. Mas eliminar a discriminação racial não significa acabar com o racismo. O racismo é uma atitude humana que está muito mais enraizada e exige um processo muito mais complexo.

A gente sente em Cuba determinadas atitudes racistas, inclusive na maneira como as pessoas se referem aos negros e aos brancos. Existe um elemento discriminatório na escolha das palavras, inclusive. Mas há uma integração cada vez maior entre as raças em Cuba. Aconteceu algo muito significativo porque a primeira geração de jovens crescidos com a Revolução, em que havia brancos e negros, chega massivamente à universidade.

Os anos 1970 produzem um grande crescimento no número de matrículas universitárias e muitos negros, pela primeira vez nas histórias de suas famílias, puderam ingressar no ensino superior. E isso faz com que sejam pessoas muito mais capacitadas. Mas segue sendo um problema não totalmente superado.

Fórum – Quando os médicos cubanos começaram a desembarcar no Brasil, uma jornalista chegou a afirmar nas redes sociais que eles tinham “cara de empregados domésticos”.

Padura – Muitos médicos cubanos são negros. No meu grupo de estudos pré-universitários, a maioria dos negros optou pela Medicina ou Direito porque sempre foram as duas carreiras que, em nossos países subdesenvolvidos, são consideradas as de maior prestígio.

Fórum – No livro, você explicita de forma muito clara a contradição entre um personagem que é ligado ao regime e não tem nada de socialista e outro que, apesar de não ter relação com o poder, age de uma forma mais humanitária.

Padura – Muitas vezes na vida pública – ocorre também no Brasil, vocês sabem – a ética e a política não caminham juntas. E as pessoas que têm uma visibilidade política nem sempre têm uma ética que sustente seus atos. Por outro lado, há os que estão alijados da política e levam a vida de uma forma muito mais humanista. E essa é a diferença que existe entre esses dois personagens. Roberto aproveitou todas as oportunidades obtidas pela proximidade do poder e Ricardo se manteve distante da política, mas mantém um comportamento muito mais decente e participativo.

E isso ocorre com certa frequência em Cuba.Eu quis marcar bastante esses dois polos diferentes porque os dois estão relacionados com Daniel Kaminsky. Roberto é um de seus amigos mais próximos e o outro é, de alguma forma, seu primo. E, no centro desse triângulo, está o tio Pepe. É ele quem permite a Daniel ter amigos cubanos e se desenvolver. É também o homem que adota Ricardo e lhe dá a possibilidade, isso é o que diz o próprio Ricardo, de ser uma pessoa.

Tio Pepe também faz um ato de sacrifício para salvar seu sobrinho Daniel. Apesar de ser um ortodoxo, aparentemente inflexível em sua maneira de pensar, é capaz de entender os demais e dar-lhes um espaço. Por isso, acredito que nessa relação de personagens, a figura de Pepe Carteira – judeu e polonês, que chegou a Cuba e trabalhou humildemente, se casou com uma negra que tinha um filho e levou uma vida comum – é quem dá uma verdadeira lição de vida aos demais. Ele é aparentemente um homem ortodoxo de tudo, mas que é capaz de deixar esse espaço para os outros e para si mesmo.

Fórum – Você atribui a isso o fracasso das utopias?

Padura – Creio que o fracasso das utopias é mais complexo do que o problema ético, ainda que essa seja uma questão decisiva. Você não pode dizer uma coisa e fazer outra. Se faz isso, está tendo uma atitude ética falsa. Penso que o fracasso das utopias passa pela dificuldade que existe no homem de passar por cima de seus interesses pessoais, que às vezes não têm a ver com ter mais ou menos dinheiro, pode ser algo relacionado com o poder ou as ortodoxias.

Creio que não pode haver uma utopia se não houver um projeto totalmente igualitário. Se os que encaminham essa utopia – não digo dirigem para não ter essa ideia de mando – não tiverem um espírito realmente humanista, fica difícil. Creio que no caso da grande utopia do século XX, o grande problema se chamou, como figura visível, Josef Stálin. Mas o problema tem muito a ver com a economia também. É preciso primeiro resolver o problema econômico para depois atacar as outras questões da sociedade.

E a economia socialista fracassou desde o princípio porque não conseguiu criar um sistema que fosse capaz de dar participação a todos e gerar riqueza. Sem riqueza, não há como haver projetos sociais. Para ter saúde gratuita para a população toda, alguém precisa pagar a esse médico. E quem lhe dá o salário é o conjunto da sociedade.

Se não há recursos para garantir uma subsistência digna a ele, ao professor e aos demais trabalhadores, tudo começa a funcionar de uma maneira disfuncional. E daí surgem as atitudes de excesso de poder e de falta de ética, a corrupção é uma delas, existe também o abuso de poder, o tráfico de influência…

Fórum – E o capitalismo?

Padura – Para mim, o capitalismo não é a opção. Ele não foi capaz de resolver os grandes problemas das sociedades. Parecia que seria possível uma outra forma de capitalismo nos países nórdicos, por exemplo. Por sua cultura, capacidade de trabalho e inclusive por sua religião, como no caso da Holanda também, eles teriam essa capacidade de criar uma sociedade melhor.

É o que se conseguiu de mais positivo até o momento. Mas eles próprios estão fazendo, nos últimos 20 ou 30 anos, uma leitura muito crítica dos resultados que obtiveram, por verem os problemas que foram formados dentro de suas sociedades.

Fórum – O submundo é o grande tema da literatura cubana hoje?

Padura – A literatura cubana tem um espectro de interesses muito amplo. Mas o fenômeno da pobreza, da marginalidade e do submundo das cidades está muito presente nesses anos. Acontece que, de 1990 para cá, a sociedade cubana se empobreceu repentinamente. E esse problema gerou um submundo na sociedade cubana que é muito atraente do ponto de vista literário. Pedro Juan Gutierrez dedica sua literatura a falar desse universo.

Eu toco nele em alguns momentos, mas não é meu único interesse. E como a literatura dele teve muito êxito em um primeiro momento, sobretudo na Espanha, outros escritores pensaram que esse era o caminho do sucesso. E, por isso, eles começaram a fazer também esse tipo de “realismo sujo”. Mas é uma literatura muito diversificada e mal divulgada a partir de dentro de Cuba. E, portanto, pouco visível fora de meu país.

Fórum – A aposentadoria do detetive Mario Conde não lhe dá mais liberdade para circular pelo submundo?

Padura – Em A neblina do passado, um livro meu que está publicado no Brasil, há momentos em que Mario Conde vai a esse submundo de Havana. Mas vai por uma necessidade da trama, não porque eu queira usar esse espaço como cenário para os meus romances. Meu personagem deixa de ser policial por uma necessidade interior dele. Para ser verossímel dentro da sociedade cubana, eu precisava que o personagem do detetive fosse um policial. Mas Conde é, por natureza, um antipolicial.

Por isso, desde a primeira história, ele está em conflito com a sua profissão. E, em cada uma dessas quatro primeiras obras minhas, ele resistia mais a ser um policial. Até que no último deles, Conde deixa a polícia. Eu pensei que esse momento era também o fim do personagem. Mas depois percebi que ele me servia a outras investigações que são mais complicadas, pois um civil não pode fazer investigação criminal em Cuba. Creio que no Brasil também não.

Além disso, as investigações hoje exigem todo um aparato técnico, como as provas de DNA, por exemplo. Um homem que sai pelas ruas perguntando para as pessoas sobre uma história hoje dificilmente vai descobrir algo. Por isso, gosto muito de construir os argumentos para ele, pois me servem para observar a sociedade cubana e ver a sua evolução.

Fórum – A literatura policial para você é um pretexto?

Padura – No meu caso, é uma ferramenta para entrar no lado mais escuro de uma sociedade, onde há o crime, a violência, o medo e a corrupção. E o romance policial coloca você frente a essa parte da sociedade. Por isso uso de histórias policiais para fazer uma literatura social.

Fórum – A identidade do seu personagem Daniel Kaminsky com Cuba se mantém viva graças ao beisebol. Qual a importância desse esporte para os cubanos?

Padura – O beisebol é uma parte importantíssima da cultura e da espiritualidade do cubano. Em nosso país, esse esporte é praticado há 150 anos. Veio por jovens cubanos que tinham ido aos Estados Unidos e chegou como símbolo de atividade física e social da modernidade industrial porque é uma prática criada no norte dos Estados Unidos em um momento de grande crescimento industrial daquela região, antes da guerra civil norte-americana.

E quando chega a Cuba passa a ser uma representação social que nada tem a ver com a Espanha. A Espanha é vista como o que é o passado, o reacionário e o retrógrado, enquanto os Estados Unidos representam o moderno, o progressista e o novo. E, rapidamente, o beisebol deixa de ser praticado apenas por esses jovens ricos e brancos que haviam ido estudar nos Estados Unidos, mas passa a ser uma atividade também de outras pessoas, etnias e classes sociais porque o negro rapidamente passa a praticá-lo também e o beisebol se torna um elemento importante na coerção social cubana.

Imagine que a Liga Profissional de Beisebol de Cuba aceita jogadores negros 50 anos antes do que a norte-americana. No atual momento está um pouco em baixa por razões conjunturais e comerciais muito importantes. Creio que o futebol é hoje uma das indústrias que mais rende dinheiro no mundo e tem uma visibilidade impressionante.

Isso também chegou a Cuba, apesar de não termos tradição futebolística. A isso, se soma a má relação com os Estados Unidos nesses anos todos, os problemas de organização da federação internacional e o fato de os talentos cubanos do beisebol vão jogar lá e depois não podem regressar. Isso prejudica esse esporte em nível mundial e especificamente em Cuba.

Fórum – O futebol não lhe atrai?

Padura – Eu gosto muito de futebol. Sou um torcedor apaixonado pelo Barcelona quando eles não usam sua qualidade desportiva como uma manifestação do nacionalismo catalão. Porque sou um inimigo dos nacionalismos, me parecem uma coisa horrível. E se a Catalunha se tornar independente, terei de me tornar fanático por um clube galego ou andaluz.

Fórum – O grito de “vai para Cuba” virou praticamente uma ofensa no Brasil hoje. Como você vê isso?

Padura – Durante muitos anos, a direita brasileira viu a Cuba como o inferno comunista na terra, ou pelo menos pelas terras mais próximas, do lado de cá do Atlântico. E esse fantasma cubano segue na mente desse grupo político. Creio que as parcerias e intercâmbios entre o Brasil e Cuba estão sendo benéficos para os dois países. Quando um médico cubano chega a uma comunidade perdida de um estado brasileiro onde os médicos brasileiros não estão, temos um ato humanitário importante.

Quem nega isso está rejeitando uma evidência tão clara contra a qual não há discussão. Por outro lado, o Brasil tem feito projetos econômicos em Cuba que ajudam nosso país, mas que também beneficiam o Brasil. Os médicos cubanos que vêm ao Brasil geram um recurso que Cuba utiliza em seus projetos sociais e os investimentos brasileiros lá significam um capital que regressa para cá. E acredito que ver apenas o lado político de uma relação social e econômica é uma visão reducionista de uma realidade que é muito mais complexa.

Fórum – Você tem reclamado de ter de falar demasiadamente sobre política aos jornalistas brasileiros?

Padura – É algo que acontece comigo também quando vou a outros países. A sociedade cubana tem sobretudo uma leitura política. E os jornalistas muitas vezes me perguntam sobre a política cubana e eu os respondo. Mas quando falo com você, o mais importante para mim é falar do meu trabalho. Imagine, eu vou completar 60 anos dentro de 15 dias e dediquei quatro anos a escrever Hereges e outros cinco a O homem que amava os cachorros.

Ou seja, serei um homem que dedicou um sexto de sua vida a escrever dois romances. Isso é mais importante do que muitas coisas que passaram em minha vida. Dediquei dois sextos, dos 4 aos 24 anos, aos estudos escolares e das outras quatro partes, dediquei uma a escrever esses dois livros. E quando me perguntam o que virá depois de Raúl Castro, eu digo que falaremos quando vier. Porque, como se diz em espanhol, no tengo lá más puta ideia do que pode se passar depois.

Fórum – Mas há muito da política cubana em seus livros, não?

Padura – Eu vivo em Cuba e escrevo sobre sua realidade, como lhe disse na primeira pergunta que me fez. Quando viajo pela História é para entender o que é Cuba e os cubanos de hoje. Das obras de Rembrandt aos cachorros de Ramón Mercader, tudo que está aqui nos meus livros tem a ver com Cuba. Mas não esperem que eu seja capaz de explicar a política cubana, primeiro porque não sou político e segundo porque é um exercício demasiadamente difícil explicar a política cubana.

Foto de capa: Divulgação



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