Lurdez da Luz: “Me proponho a pensar de forma utópica no dia a dia”

Naija, novo vídeo de Lurdez da Luz, mostra a batalha cotidiana dos imigrantes africanos no Brasil. Transbordando política, ela fala contra o racismo e o machismo, ressaltando o valor de sua ancestralidade negra Por Jarid...

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Naija, novo vídeo de Lurdez da Luz, mostra a batalha cotidiana dos imigrantes africanos no Brasil. Transbordando política, ela fala contra o racismo e o machismo, ressaltando o valor de sua ancestralidade negra
Por Jarid Arraes
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Uma oração em yorubá inicia o vídeo de “Naija“, novo clipe de Lurdez da Luz; a música é parte do seu álbum Gana Pelo Bang e foca a vida dos imigrantes africanos no Brasil. Naija, uma gíria para “nigeriano”, mostra facilmente a que veio: transbordando política, Lurdez quer mostrar as batalhas cotidianas daqueles que são, na maioria das vezes, suspeitos. Mas completa, na letra: “é melhor ser suspeito do que ser réu”.

Lurdez explica que sente uma identificação de alma com a música negra, o que a foi aproximando cada vez mais a história afrobrasileira e da própria África. Lurdez também cita a recente entrevista concedida para a pesquisadora Bianca Gonçalves, no site Lugar de Mulher, onde explica um pouco de sua própria identidade racial: “(…) num quis me podar por ser branca. (…) num posso ter como opção ser uma mina do indie rock porque isso é mais adequado ao meu tom de pele, uma mulher negra num tem que fazer dança afro se ela quiser ser bailarina do municipal. Eu quero me aproximar cada vez mais da África, e o próximo passo, ir lá, produzir lá. Naija é só uma evolução do meu olhar pra São Paulo, pra África e pro meu interior”, completa.
Mas a identificação não é somente exterior e nem se baseia apenas nos ícones da música que Lurdez têm como referências. “Existe também a questão de sangue, minhas gotas negras herdadas da minha família baiana, que evito usar como argumento quando o assunto é racismo, mas que fazem sentido quando a ideia é falar sobre cultura e sobre ancestralidade”, pontua.
Imagem: Reprodução / Facebook
“O rap existe como movimento social e existe como forma de arte e eu tô mais para a segunda opção” (Imagem: Reprodução / Facebook)

Lurdez explica que partilha com os imigrantes africanos a busca por uma vida melhor. “A letra já abre com ‘meio rebelde, meio mercenária’, que é uma analogia entre eu tentando sobreviver de arte e uma miliciana de algum exército paramilitar africano”. Segundo ela, a exclusão é um tópico subjetivo da letra. E aparece, de fato, em muitas formas: nas palavras, na estética, no dia a dia de trabalho que é mostrado, nos poucos recursos ou ainda na placa vermelha destacada logo no início do vídeo, onde se pode ler “Movimento de Luta Social Por Moradia”.

A política, aliás, é um campo onde Lurdez se articula muito bem. “O rap existe como movimento social e existe como forma de arte e eu tô mais para a segunda opção, apesar de que o que me fez querer me expressar através dessa forma de arte foi o conteúdo que questiona o sistema”, explica. Lurdez se identifica com muitas reivindicações e bandeiras dos movimentos negros e feministas. Entre elas, menciona a luta contra o genocídio da juventude negra, as cotas das universidades, o combate ao racismo institucionalizado e a objetificação da mulher. “Em especifico, a imagem vendida da mulher negra”, salienta. “Menores salários pra mulheres, assim como menores ainda pra mulher negra, a luta por moradia através de ocupação… Até chegar no fim do capitalismo e na igualdade entre todos!”, exclama. “Utópico, mas isso que eu me proponho: a pensar de forma utópica no dia a dia. Não faço parte de nenhum movimento, só do movimento do universo, quero fluir com ele e servir aos seus propósitos e leis naturais”.
Por ser mulher, Lurdez sabe muito bem qual é o peso do machismo. Por isso, faz questão de destacar o espaço das mulheres no Hip Hop e denuncia a discriminação que ela própria já sofreu ao longo de sua carreira. “Muito do que fazem e dizem é sem declarar, é nas portas que se fecham e no ignorar seu trampo, como se fosse algo menor e você sabe que não é”. “Existe várias questões como a liberdade sexual feminina que é julgada, isso faz com que se misture a vida pessoal da mulher com a sua competência e não vejo isso entre os homens. Vários pais ausentes ou espancadores são considerados grandes guerreiros”, critica.
Mas Lurdez salienta que o Rap não é um planeta à parte da sociedade repleta de machismo e não gosta quando alguém sugere que o Rap é mais machista do que os outros gêneros musicais. Para ilustrar sua fala, Lurdez cita as críticas que apontam a presença de mulheres nos clipes com pouca roupa. “Temos que confiar no livre arbitrio das irmãs, existe uma ideia que é a exploração do corpo da mulher por um homem, ela ser como um carro ou como uma corrente de ouro, e outra é a própria mulher estar lançando da sua vontade de ser como quer pra ganhar dinheiro, ou território, ou ambos. A sensualidade não pode ser considerada inimiga da inteligência. Claro que há machismo, menor por conta de todas nós, pois são muitas e muito boas as mulheres no cenário, e isso só cresce, até que será em pé de igualdade”, declara.
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“Quero que assistam Naija, ouçam a letra e se emocionem, questionem, ou ambos” (Imagem: Reprodução / Youtube)
Lurdez comemora as críticas positivas que Naija recebeu. “Quero que assistam Naija, ouçam a letra e se emocionem, questionem, ou ambos”. No último dia 27, Lurdez da Luz esteve no festival Satélite, em Brasília, o maior encontro de mulheres DJ’s no país. “Em outubro tem um evento onde estarei falando sobre processo de criação, inspirações, dissecando minhas letras junto com o Lirinha, no Sarau Ritimo e Poesia no Sesc Pinheiros dia 13. Dia 25, num domingo, tem show com a minha banda – coisa rara, aliás, geralmente toco mais com DJ no Sesc Interlagos. Agora a cereja do final de ano é o evento coletivo que organizo com meu companheiro Tubarão Dulixo, o passa bola que reune várias atrações musicais e intervenções poéticas, dia 5 de dezembro na Biblioteca Mario de Andrade, na madrugada toda”, divulga.
Em um dos seus vídeos mais assistidos e compartilhados pelas redes, clipe da música “Levante”, Lurdez passa sua mensagem:
“Igual a mim tem um monte
Pronto pra linha de frente
Que enxerga o horizonte
Homem e mulher combatente
A levada é pra levante
A mensagem é pra levante
Se tá sentando, então levante
Tamo além, vamo adiante”

Foto de capa: Reprodução / Youtube



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