Ensaio sobre o ódio no Brasil do século 21

Nos últimos dias pelo menos três episódios vividos por personalidades ligadas ao PT vieram à tona para reforçar o que há algum tempo se anuncia como irreversível: o ódio está mais público do que...

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Nos últimos dias pelo menos três episódios vividos por personalidades ligadas ao PT vieram à tona para reforçar o que há algum tempo se anuncia como irreversível: o ódio está mais público do que nunca. Para compreendê-lo, é preciso discutir o papel das redes sociais neste processo de naturalização da boçalidade do mal

Por Murilo Cleto

Esta é uma matéria da Fórum Semanal. Confira o conteúdo especial da edição 216 clicando aqui

Já virou rotina. Nos últimos dias pelo menos três episódios vieram à tona para reforçar o que há algum tempo se anuncia como irreversível no Brasil: o ódio está mais público do que nunca. No primeiro deles, Alexandre Padilha, ex-ministro da Saúde e atual secretário municipal da pasta em São Paulo, foi novamente hostilizado num restaurante no bairro nobre de Jardim Paulista. Cinco meses atrás, o mesmo Padilha já havia sido alvo de constrangimento no Itaim Bibi. Em junho, o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega foi ofendido na Vila Olímpia, chamado de “ladrão”, “palhaço” e “sem-vergonha” por dois homens. O mesmo já havia acontecido quando Mantega acompanhava a mulher, em tratamento contra o câncer, no hospital Albert Einstein. “Vá pro SUS!”, “safado”, “filho da puta”, era o que gritavam.

O segundo episódio da semana foi protagonizado por um vizinho que, inconformado desde a vitória de Dilma Rousseff nas eleições de 2014, passou a agredir sistematicamente a socióloga Walquíria Leão Rego, pesquisadora dos benefícios trazidos pelo Bolsa Família e eleitora convicta do Partido dos Trabalhadores, até que o caso fosse parar na polícia. O terceiro, talvez o mais chocante, aconteceu durante o enterro de José Eduardo Dutra, figura histórica da sigla. Entre a distribuição de panfletos que diziam “petista bom é petista morto”, além de montagens da presidenta sentada num vaso sanitário, e protestos contra o ex-presidente Lula, estava o sinal de que já não há mais fronteiras para o exercício do ódio num país francamente dividido.

Em coluna lapidar publicada logo após o incidente com Guido Mantega no início do ano, Eliane Brum recuperou o conceito de “banalidade do mal”, elaborado por Hannah Arendt para descrever a automaticidade na realização das mais diversas atrocidades durante o 3º Reich na Alemanha, a despeito de seu potencial conscientemente monstruoso, substituindo-o pela ideia de “boçalidade do mal”, experiência provocada pelo avanço da internet na sociedade contemporânea. A boçalidade do mal, diz Brum, revela-se através da queda de máscaras que permitiram a revelação do verdadeiro eu recalcado pela experiência pública marcada pela impessoalidade, entendida como um mal social escancarado pelo declínio do homem público.

Mal social porque, em primeiro lugar, representa a negação do valor que nos é mais caro desde pelo menos o século XIX: a intimidade. Não por acaso a experiência pública se vê em derrocada porque escola, trabalho e assembleias são frequentados a partir de seu efeito instrumental, apenas um meio cujo objetivo principal é outra coisa. Neste sentido, importa menos o que a pessoa faz do que o que ela mesma sente a respeito. Efeito e causa disso são os programas de TV e revistas de cotidiano popularizados a partir dos anos 1970 e que brindam espectadores com aspectos que são fundamentalmente privados das mais diversas celebridades. O que sente seu artista favorito?

Não é por acaso que frequentemente as agressões sejam objeto de orgulho dos algozes, que muitas vezes expõem-nas, eles próprios, num exercício mórbido de narcisismo que se quer impor como liberdade de expressão e, a rigor, autenticidade, que é essa tendência de livramento das agruras da impessoalidade da vida pública.

No limiar do século 21, as redes sociais trouxeram consigo, de maneira direta ou não, uma promessa: horizontalizar as relações de poder calcadas pela informação, cada vez menos dependente de intermediadores de grande porte. Se a guinada provocou, de um lado, uma crise até agora não superada pelo jornalismo tradicional, de outro congestionou o espaço virtual. E isso implicou num processo quase natural de aquartelamento verificado pelos hábitos cotidianos dentro e fora da internet.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, o sociólogo Manuel Castells sustentou que a internet é apenas um espelho do que é a sociedade, já que a única coisa que promove é a abertura da sua expressão. O argumento é bem formulado sob a hipótese de que o debate político no Brasil sempre foi violento, o que é bem verdade. No entanto, Castells ignora três questões interligadas que evidenciam que o peso da gestão da cultura pública pela internet é muito maior.

Em primeiro lugar, Eliane Brum estava certa. Com o avanço das plataformas de comunicação, a internet virou terreno fértil para que a queda de máscaras provocasse uma avalanche de pensamentos íntimos, muitos deles agressivos. Segundo, e talvez mais importante, a dinâmica das redes sociais mais populares, o que é o caso do Facebook, contribuiu para que a aparente abertura de janelas representasse na verdade uma experiência de isolamento.

Em maio, pesquisadores vinculados à rede de Zuckerberg anunciaram os resultados perturbadores de um estudo realizado com 10 milhões de usuários, detectando que, em geral, interage-se somente com postagens cuja afinidade é explícita. Por outro lado, o algoritmo Edge Rank reforça a lógica predominante entre eles e passa a direcionar publicações conforme o grau de interação desenhado anteriormente.

Na prática, isso significa uma tendência cada vez maior de aprisionamento de usuários em bolhas que afastam aqueles que pensam diferente e promovem uma sensação de bem-estar, na medida em que o mundo, tal como nos é apresentado ali, soa muito melhor, já que estamos entre semelhantes. O resultado é uma incapacidade cada vez mais flagrante de lidar com a diversidade, seja de que lado for.

Em terceiro lugar, este cenário tem contribuído para que a boçalidade do mal seja naturalizada como parte do cotidiano. Agride-se frequentemente nas redes como se estivesse dando bom dia. Cada vez mais cedo, as crianças estão expostas a este fenômeno, que, ao que tudo indica, só tem alçado novas dimensões. Em 2013, o vídeo de um menino de cinco anos passou a circular como troféu para revoltados on e offline. Dava detalhes do que ele entendia que Lula havia feito com o Brasil. A gravação foi feita pela própria mãe, que intervém o tempo todo com comentários complementares.

Evidentemente o ódio contra o PT não é o único. Aliás, nada parece mais transpartidário que o ódio. A própria democracia tem sido vítima dele nos últimos meses, com pedidos de “intervenção” militar precedidos por relativizações estapafúrdias sobre o regime de 1964 no país. O Brasil assassina 50 mil pessoas por ano, lincha uma por dia e até agora não foi capaz de dar o nome de “guerra civil” para nenhum dos eventos que o lavaram de sangue, mesmo os mais distantes.

E isso diz muito mais do que parece. Ao se combater o ódio enquanto expressão e um problema moral individual, ignora-se a sua capacidade coletiva de mobilização e, principalmente, a boçalidade deste mal, que, se não chegou agora, nunca deu tantos sinais de que não vai mais embora.

Walter Benjamim, sempre ele, dizia que a retenção do choque da vida moderna nos tirou a concentração e a capacidade de imaginar. E se agora já não são mais as charretes a derrubar auras pelas ruas na metrópole, como escreveu Baudelaire, smartphones e tablets alimentam uma predisposição perversa do ser humano pela violência. Resta saber o que mais é preciso para que o ódio seja convidado a voltar para o armário. Quando já nem a morte é mais suficiente, talvez seja hora de recuar.

Foto de capa: Pixabay



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