“Estou assustado, com medo de sair de casa”

Além de ter sido expulso da instituição depois reclamar de transfobia e entrar em conflito com professores, o único estudante transexual da faculdade Cásper Líbero lida agora com discursos de ódio e até ameaças...

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Além de ter sido expulso da instituição depois reclamar de transfobia e entrar em conflito com professores, o único estudante transexual da faculdade Cásper Líbero lida agora com discursos de ódio e até ameaças de morte nas redes sociais; faculdade mantém a decisão, mas aluno ainda pode recorrer e ser readmitido

Por Ivan Longo

Ganhou repercussão na imprensa e nas redes sociais, nos últimos dias, o caso do estudante Samuel Silva que, na última sexta-feira (9), teve decretado pela direção da Faculdade Cásper Líbero o seu desligamento da instituição.

Único aluno transexual da faculdade e militante da questão de gênero, Silva cursava Publicidade e Propaganda e foi expulso da instituição por, supostamente, ter agredido o coordenador do curso com quem foi reclamar sobre a postura de uma professora – que o expôs, via e-mail, para toda a turma, o ridicularizando por ter reclamado de um método de aula que havia sido dada na língua inglesa. “Vitimização moral”, disse a professora no e-mail, questionando ainda a capacidade intelectual do estudante.

De acordo com Samuel, o coordenador marcou uma reunião com representantes de sala para discutir o episódio envolvendo a professora e não o chamou. Reivindicando seu direito de fala, o aluno, então, entrou na reunião mesmo contra a vontade do coordenador que, para provocá-lo, começou a tratá-lo pelo nome de mulher, sendo que, há anos, ele luta para ter o direito de usar o seu nome social.

O estudante, segundo sua versão, teria saído do local da reunião irritado e esbarrado no coordenador do curso – que caiu no chão e alegou agressão. A direção da faculdade, por sua vez, fez sua apuração interna e optou por demitir a professora que o expôs, tirar o cargo do professor que era coordenador do curso e expulsar Samuel. “Ainda que tenha havido desentendimento entre o aluno e a professora, nada justifica a agressão física do aluno contra o coordenador do curso”, disse a instituição em comunicado.

“Eu fico questionando o comportamento da faculdade frente a essa situação, pois é uma faculdade de comunicação e a comunicação está toda errada. Eles estão me expondo o tempo todo. Tem uma carta no site da instituição falando que eu agredi o coordenador do curso sem prova nenhuma. Eles criaram uma comissão abitrária para me julgar sem nenhuma pessoa em minha defesa”, disse o aluno sobre o “interrogatório” que participou cercado por sete funcionários da Fundação Cásper Líbero – nenhum aluno.

Após o episódio, Samuel passou a lidar também com discursos de ódio e até ameaças de morte que dezenas de pessoas estão enviando via mensagem no Facebook. De acordo com o aluno, que há anos tenta superar a transfobia, o discurso de ódio, diante de sua atitude de expor o ocorrido, já era esperado, mas não nesse nível.

Samuel passou a receber mensagens ofensivas e até mesmo ameaças. (Reprodução/Facebook)
Samuel passou a receber mensagens ofensivas e até mesmo ameaças. (Reprodução/Facebook)
Reprodução/Facebook
Reprodução/Facebook

“Eu não esperava mensagens tão duras, com tanto ódio. Gente falando que eu devia morrer, gente falando para eu me matar, gente me ameaçando mesmo. Eu estou assustado, com medo de sair de casa”, contou Samuel, que pretende registrar um boletim de ocorrência para cada uma das mensagens.

Paralelamente ao discurso de ódio, boa parte dos estudantes da Cásper Líbero vêm se mobilizando para defender o colega diante de sua expulsão. Nesta terça-feira (13), por exemplo, centenas de alunos – com o apoio de frentes políticas da instituição, como o Centro Acadêmico, a Frente LGBT e a Frente Feminista – se reuniram para discutir o episódio e evidenciar outros casos de transfobia ou outros tipos de opressão no interior da faculdade. Além disso, uma carta de repúdio à expulsão do aluno e que está na rede já conta com mais de 500 assinaturas.

A instituição, por sua vez, afirmou por meio de nota que mantém a decisão de desligar Samuel única e exclusivamente por conta da suposta agressão. “Para a tomada de decisão foi instaurada uma sindicância para investigar e avaliar o caso, em que todas as partes envolvidas no incidente foram ouvidas, inclusive o Samuel”, disse a faculdade.

De acordo com o estudante, no entanto, a instituição o informou que ele pode escrever uma carta recorrendo à decisão e que será analisada até o final do mês por um conselho técnico-administrativo. “Não sei como fazer, tenho que procurar um advogado mas precisa ser um advogado militante, pois não tenho como pagar”, lamentou.

Sobre toda a mobilização em defesa do estudante e a possibilidade de o aluno recorrer da decisão, a faculdade não se manifestou.



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