Eu não era feminista

Eu não era feminista, não era mesmo, nunca fui, nem me reivindicava como tal. Aí, não sei se o mundo ficou cada dia pior, os homens mais machistas, ou eu mesma que passei a me revoltar mais diante de certas coisas

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Eu não era feminista, não era mesmo, nunca fui, nem me reivindicava como tal. Aí, não sei se o mundo ficou cada dia pior, os homens mais machistas, ou eu mesma que passei a me revoltar mais diante de certas coisas

Por Paula Sacchetta, em seu Facebook

Eu não era feminista, não era mesmo, nunca fui, nem me reivindicava como tal. Aí, não sei se o mundo ficou cada dia pior, os homens mais machistas, ou eu mesma que passei a me revoltar mais diante de certas coisas. Desde sempre, desde pequena, quando era menininha mesmo e já “mexiam comigo na rua”, eu ficava furiosa. Odiava os “princesa” ou “bom dia” acompanhados dos olhares mais perversos. Nem tinha peito e já mexiam comigo na rua. Sempre fui magricela, e ainda mexem. A questão vai pra além do corpo, basta ser mulher – ou menina novinha de tudo mesmo. Sempre respondi, xinguei, falei os palavrões mais feios que conhecia. Minhas amigas odiavam andar comigo na rua “Paula, um dia você ainda vai tomar um tiro”. Eu não me importava, não conseguia engolir aquilo. Um dia, eu devia ter uns 14 ou 15 anos, estava saindo do clube, acompanhada de uma delas e uns caras passaram falando vários absurdos. Respondi, gritei, fiquei enlouquecida. Uma mulher que estava com eles veio pra cima de mim e me agrediu. Me bateu mesmo, de mão fechada, dando socos na minha cabeça. Eu saí correndo pra fugir, tinha dado errado mesmo, pela primeira vez. Atravessei a rua sem prestar atenção e pra não ser atropelada, dei uma desviada de um carro que passava e torci o pé. Cheguei em casa com o pé roxo, preto mesmo, e disse pros meus pais que tinha torcido no clube. Fiquei com medo da bronca, de responder na rua a quem “mexesse comigo”. Resultado: um ligamento rompido e mais de dois meses de gesso. Fora isso, já passei por milhares de outras situações e acho que todas passamos, todos os dias. Quando vou pra aula no centro e coloco uma roupa, penso se, mesmo eu gostando e achando bonita, não é “curta demais” pra pegar metrô e andar por aí. Aí eu me troco, melhor do que ficar aguentando olhares e comentários o dia todo. Sou menos livre. Um dia, um jornalista de outra cidade que eu admirava muito muito me encontrou numa palestra e me chamou pra tomar um café para “conversar sobre um projeto”. Tentamos marcar por e-mail, ele não podia naquela tarde. Tentamos na tarde do dia seguinte, ele também não podia e sugeriu à noite. Achei estranho o horário, mas topei. Ele marcou num bar e quando eu cheguei, ele estava tomando uma caipirinha. Continuei achando estranho, mas me sentei. Aí ele me disse que não tinha projeto nenhum, mas que queria “tomar um drink comigo” mesmo. Me senti burra, idiota, invadida, senti raiva e saí chorando. Nem consegui responder ou dizer alguma coisa que ele merecia. Outro dia estava no Pão de Açúcar, cruzando à pé pelo estacionamento vazio, um cara passou olhando de um jeito horroroso e eu “que foi, imbecil? perdeu alguma coisa?” e ele “não, tô te olhando, lindinha”. Xinguei muito e ele disse “você fica linda bravinha”. Mandei “tomar no cu”, ele começou a vir pra cima de mim: “vamos ver agora quem vai tomar no cu”. Saí correndo, gritando e chamei o segurança. Gente, nada novo mesmo, se vocês se chocam com esses relatos, saibam: acontecem TODOS OS DIAS. Uma amiga minha começou a ser perseguida por um psicopata, que deixava bilhetinhos no carro dela. Ele tentou estuprar ela, dentro da faculdade. Não conseguiu, não aconteceu, saiu em todos os jornais, ele desapareceu. Mas ninguém conseguiu ver quem era, então nada pôde ser feito de fato contra ele ou para protegê-la. Eis que esses dias ele reaparece, em mais um bilhetinho: “onde estiver, estarei”. Pedi pra ela se cuidar, tomar cuidado, não andar sozinha. Ela agora tem que ter medo e pensar por onde anda. É revoltante pedir pra ela se cuidar, ele é que devia saber que não pode fazer o que está fazendo ou o que tentou fazer. Ontem jantei com uma amiga e ela me contou, bem em choque e um tanto constrangida, que tinha chegado no dia anterior em casa às duas da manhã, cruzado com um vizinho no corredor e cumprimentado ele com um “boa noite”. Minutos depois ele tocou a campainha, perguntou que horas eram, ela entrou, pegou o relógio, respondeu e ele “você pode me ajudar?”, olhando pra baixo: ele estava se masturbando, com o pau pra fora, dentro do apartamento dela, no prédio dela, o vizinho de porta. Ela me dizia sem graça que bateu a porta sem conseguir responder, tamanho o susto. Tenho acompanhado também as publicações da Olívia Pedroso, que tem escrito suas “histórias de mulher”, relatando os mais variados abusos sofridos: os olhares e a culpa que querem colocar nas nossas costas por estarmos “de shorts curto” ou um cara se masturbando dentro do carro, enquanto seguia ela na rua da escola. Também li a Paula Lion, que mudou recentemente pra Buenos Aires e que contou que teria escolhido “melhor” onde moraria ou por onde andaria, se tivesse ido sozinha, e não com o companheiro. Contou como se sente agredida lá, “talvez um pouquinho mais do que São Paulo”, por ser uma mulher andando sozinha pelas ruas à noite. Ou então, como disse minha amiga que estava de blusa-com-a-barriga-de-fora no sábado passado, “puxa vida, não posso sair com uma blusa que acho bonita, porque acham que minha barriga é corrimão”. Estávamos numa festa, a abordagem feita era sempre a mesma: tentavam pegá-la pela barriga, puxando pra perto. Ou quando participei de uma exposição linda e coletiva, de 17 mulheres e nas discussões do processo criativo, em uma reunião com 12, duas já tinham sido estupradas. Ou ainda, quando recebi um inbox de um amigo, de quem gosto e de quem não esperava isso, pedindo uma indicação de uma estagiária, com “a” mesmo, porque “Claro, mundo machista. Às vezes uma menina entrando em contato ajuda”.

Tudo isso pra dizer: estamos cansadas. Acontece sempre, todo dia e em todo lugar. E somos menos livres por isso. Isso sem nem falar da violência física mesmo, dos assassinatos, ou que até os anos 1980, no Brasil, existia “crime contra a honra” e uma mulher podia ser morta pelo marido se ele achasse que ela tinha “ferido sua honra”.

Não estou escrevendo esse texto porque “estou de tpm”, porque “acordei com o ovo virado” ou porque sou “histérica”, é um relato pensado e sincero, depois de uns dias tentando digerir muita coisa.

Acho que escrevo pra compartilhar mesmo, pra quem acha que essas coisas não acontecem, ou pra quem não consegue ver. O machismo está em toda parte. E eu, que não me reivindicava feminista, tento me engajar um pouquinho mais a cada dia, simplesmente porque não dá pra aguentar, simplesmente porque não temos que aguentar. Machistas: onde estiverem, estaremos. Não passarão.

Foto: Flickr/Galiza Foto



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