Chico Macena: O corpo de São Paulo escorre vidas…

Há uma necessidade quase orgânica de não apenas resgatar, documentar e preservar, mas, de permitir que todos tenham acesso ao conhecimento do que é histórico e se possível, ter a oportunidade de tocar e vivenciar essa história

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Há uma necessidade quase orgânica de não apenas resgatar, documentar e preservar, mas, de permitir que todos tenham acesso ao conhecimento do que é histórico e se possível, ter a oportunidade de tocar e vivenciar essa história

Por Chico Macena*

Uma cidade não é feita apenas de construções e pessoas, mas sobretudo, de histórias. Histórias que constroem crenças, culturas, edifícios e monumentos e as cidades.

Em uma simples caminhada observadora e sem pressa, por qualquer região de São Paulo, percebermos os detalhes dos entornos e contornos existentes sem sabermos ao certo quem construiu, em que época, o motivo, a quem serviu e, muito menos, as inspirações do autor.

Um dos fatos curiosos esquecidos da cidade é a história de suas fontes e chafarizes, erguidos como ornamentos ou solução para o abastecimento de água ao longo dos séculos, para moradores, visitantes e animais. Porém, ao menos 22 fontes e chafarizes desapareceram entre 1890 e 1906 como parte de uma política pública para obrigar a população a contratar os serviços de água encanada da Companhia Cantareira de Águas e Esgoto, recém encampada pelo Governo do Estado daquela época.

Nesta lista existiam fontes monumentais, lugares que serviam, para o abastecimento de água, para formar rodas de conversas, descontração, refrigerar a cidade, comércio popular e ainda para receber notícias “diretas da fonte”. Infelizmente estas importantes obras de arte e de políticas públicas desapareceram. Mas, em alguns lugares ainda conseguimos perceber por meio de vestígios no solo onde elas ficavam. O Largo São Francisco e São Bento são exemplos disso.

Na região central da cidade, ainda existem 18 fontes, a maioria construída após 1.900, inicialmente com a função ornamental. Atualmente, estas fontes assumiram uma importante função como auxiliar no controle de umidade e, fazem parte, de um importante projeto de recuperação da região.

Este é apenas um exemplo de como a cidade se movimenta muitas vezes ocultando ou enterrando a própria história, por força do seu constante crescimento. Mas, podemos ver outros marcos esquecidos, como nossos rios e córregos históricos: Saracura, Itororó, Traição, Anhangabaú, ou o local onde existia o Cemitério dos Aflitos (hoje, o marco zero no movimento cultural hip hop), o Hospício de Alienados, o Campo dos Curros, as casas públicas de banho, Casa da Pólvora, locais das antigas sedes da Câmara Municipal, ou o Edifício W. Zarrur, que por 48 anos foi edifício mais alto do Brasil, passando praticamente despercebido no fundo do Vale do Anhangabaú.

“Sem história, sem memória, sem futuro”. O ditado popular que chama atenção para o resgate da memória que está espalhada e despercebida no nosso dia a dia. Há uma necessidade quase orgânica de não apenas resgatar, documentar e preservar, mas, de permitir que todos tenham acesso ao conhecimento do que é histórico e se possível, ter a oportunidade de tocar e vivenciar essa história.

A Jornada do Patrimônio é uma importante iniciativa da Prefeitura de São Paulo com este objetivo, dar acesso à população a importantes marcos, obras de arte e a própria história desta cidade, de modo que todos possam perceber aquilo que o Mário de Andrade há décadas alertara:

“Lá fora o corpo de São Paulo escorre vida ao guampaço dos arranha-céus”.

*Chico Macena, 53 anos, é administrador e Secretário do Governo do Município de São Paulo

Foto de capa: Fonte Monumental Júlio de Mesquita em 1928. Créditos: Acervo do Arquivo Histórico de São Paulo/SMC/PMSP



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