Sr. Promotor, com a devida vênia, o senhor é o retrato da estupidez

O promotor Jorge Marum, de Sorocaba, que ganhou notoriedade por publicar em seu facebook edificante comentário sobre a pergunta no Enem – segundo ele o “Exame Nacional-Socialista da Doutrinação Sub-Marxista” – onde Simone de Beauvoir diz que uma mulher “não nasce mulher, torna-se mulher”,...

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O promotor Jorge Marum, de Sorocaba, que ganhou notoriedade por publicar em seu facebook edificante comentário sobre a pergunta no Enem – segundo ele o “Exame Nacional-Socialista da Doutrinação Sub-Marxista” – onde Simone de Beauvoir diz que uma mulher “não nasce mulher, torna-se mulher”, mostra como a elite que se adona das instituições brasileiras tornou-se estúpida

Por Fernando Brito, no Tijolaço

O promotor Jorge Marum, de Sorocaba, que ganhou notoriedade por publicar em seu facebook, edificante comentário sobre a pergunta no Enem – segundo ele o “Exame Nacional-Socialista da Doutrinação Sub-Marxista” – onde Simone de Beauvoir diz que uma mulher “não nasce mulher, torna-se mulher”, mostra como a elite que se adona das instituições brasileiras tornou-se estúpida.

“Aprendam jovens: mulher não nasce mulher, nasce uma baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila. Só depois é pervertida pelo capitalismo opressor e se torna mulher que toma banho, usa sutiã e se depila”

Evidente que a “baranga francesa” é um personagem do século 20, enquanto o Dr. Marum é apenas um troglodita do 21, destes que se pode encontrar nos botequins da madrugada, cuspindo para o lado e classificando as mulheres que passam em “gostosas” ou “barangas”, cogitando se tomaram banho ou se estão de sutiã.

Perfeitamente, nada de original se o indigitado personagem daí a pouco saísse rumo a sua cotidiana função de vender pepinos na feira, gritando que “moça bonita não paga, mas também não leva” – com o devido perdão aos feirantes, gente boa e trabalhadeira. Há disso na vasta fauna humana e é para isso que as ideias progridem, para ir retirando pessoas da barbárie.

E nem é assim a maioria dos humildes, porque aprendi a ser respeitoso com um pintor de paredes, que mal garatujava o nome e nunca ouviu falar de Beauvoir ou Sartre, lá no Iapi de Realengo.

Mas o Dr. Marum, não.

Porque ele tem uma investidura da qual não está livre jamais em público, porque é promotor de Justiça e tem poder sobre a vida, a liberdade e o convívio humano.

Mais, porque tem recursos intelectuais que lhe permitem avaliar a extensão do que faz e do que diz publicamente, e dizer no facebook é dizer publicamente.

E faz tempo que vem dizendo o que é.

Já em 2011, afirmava que ” contra o pensamento único, serei sempre minoria, mesmo que só restem eu e o Reinaldo Azevedo!”

Infelizmente, Dr. Marum, existem mais.

Muitos, inclusive, ascendidos ao Ministério Público e até à Magistratura porque, bem escolarizados e em geral à custa dos recursos de universidades públicas, puderam passar em um concurso que lhes garante bons salários e uma condição próxima da divindade.

Como tem recursos de erudição, o Dr. Marum, bom covarde que é, apaga seus comentários e diz que fez, “apenas”, uma ironia.

Pior a emenda, doutor, porque ironia é dizer o contrário do que se quer dizer e em questões femininas repare da diferença da ironia de Mario de Andrade sobre as mulheres da aristocracia paulista: “Moça linda bem tratada,/três séculos de família,/burra como uma porta:/um amor!

Veja, Dr. Marum, que o grande autor paulista retrata, com o talento que lhe falta, a condição desejada às mulheres naquela São Paulo que o senhor endeusa, a da sociedade paulistana dos anos 30.

Diz o contrário do que deseja, porque deseja o contrário do que diz, enquanto o senhor diz exatamente o que pensa, mesmo num sentido vergonhoso do que seja o verbo pensar.

O senhor é uma pobreza mental, embora regiamente paga pelo sofrido povo brasileiro para castigá-lo.

Mas é também uma prova de que a “meritocracia”, hoje resumida a passar num concurso público, está fazendo com o nosso país.

Gente que recebeu tudo, desde a escola até um alto cargo, do povo brasileiro, das pessoas humildes que lhe custearam os estudos e lhe pagam o salário virarem isso: uma estranha ironia, onde se diz o que ninguém merece ouvir.



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