PMDB e PSDB: de volta para o futuro

Nos últimos anos, os dois partidos parecem começar a viver uma mistura dos seus papéis históricos: o perfil dos parlamentares tucanos, outrora marcado por economistas, altos gestores públicos e intelectuais, têm mudado bastante, e agora são comuns nas fileiras do partido policiais, ruralistas e...

1393 0

Nos últimos anos, os dois partidos parecem começar a viver uma mistura dos seus papéis históricos: o perfil dos parlamentares tucanos, outrora marcado por economistas, altos gestores públicos e intelectuais, têm mudado bastante, e agora são comuns nas fileiras do partido policiais, ruralistas e líderes religiosos

Por Wagner Iglecias*

O PSDB surgiu de uma costela do PMDB, no final dos anos 1980. Criou-se como partido a partir de uma cisão parlamentar entre setores progressistas que se incomodavam com o poder crescente de José Sarney e Orestes Quércia dentro do PMDB na época. Autodenominou-se Partido da Social Democracia Brasileira, mas, ao contrário dos partidos social-democratas europeus, nunca teve base social entre os sindicatos de trabalhadores. Sua base eram políticos considerados de centro-esquerda, altos tecnocratas do Estado, intelectuais identificados com a luta contra a ditadura e segmentos da classe média urbana. Carregou até meados da década de 1990 a pecha de partido em cima do muro, pois embora reivindicasse uma visão progressista sobre a economia e sobre o papel do Estado em relação ao desenvolvimento, na prática caminhava cada vez mais para aquilo em que, a partir do governo FHC, acabaria se tornando: o partido político da grande burguesia financeirizada, internacionalizada, adepta do receituário neoliberal difundido no mundo todo pelo Consenso de Washington e pelas grandes instituições multilaterais como o FMI e o Banco Mundial.

pmdb e psdbJá o PMDB sangrou com a saída das lideranças tucanas, mas capilarizou-se cada vez mais pelos rincões do país e especializou-se no papel de fiel da balança de todos os governos pós-ditadura. O partido fez parte dos governos Sarney, Itamar, FHC, Lula e faz parte do governo Dilma. Abriu mão de lançar candidatos a presidente (a última vez foi em 1994, com Orestes Quércia) e aos poucos a imagem de fiador da transição democrática foi ficando para trás, sendo substituída pela de uma federação de caciques políticos locais, sem projeto de país e sem ideologia, limitados ao fisiologismo do toma-lá-dá-cá que marca o nosso presidencialismo de coalizão.

Nos últimos vinte e cinco anos os dois partidos irmãos focaram-se, assim, cada qual no seu quadrado: aos tucanos cabia pensar e implementar a modernização (pela direita) do Estado brasileiro e ao PMDB cabia ocupar-se dos nichos deste mesmo Estado em troca de apoio aos governos de turno e às suas reformas, quaisquer que elas fossem. Curioso mesmo pensar que o projeto de país tucano passava por encolher aquela estrutura da qual e na qual o PMDB se alimentava e se reproduzia.

Nos últimos anos, porém, os dois partidos parecem começar a viver uma mistura dos seus papéis históricos: o perfil dos parlamentares tucanos, outrora marcado por economistas, altos gestores públicos e intelectuais, têm mudado bastante, e agora são comuns nas fileiras do partido policiais, ruralistas e líderes religiosos. É da lavra de deputados tucanos projetos de lei recentes como a “cura gay” ou o “assédio ideológico de estudantes por parte de professores”, por exemplo. O tucanato alinhou-se também a bandeiras defendidas pelos setores mais conservadores da sociedade, como a redução da maioridade penal e o estatuto da família. O PMDB, por sua vez, acaba de propor ao país a carta de intenções chamada “Ponte para o Futuro”. Diante de um governo moribundo e trôpego como o de Dilma Rousseff, o PMDB sugere, na prática, o fim da CLT, o fim do Mercosul (via acordos bilaterais do Brasil com os EUA e a União Européia), o fim da indexação da correção do salário mínimo, o fim da obrigatoriedade de percentuais mínimos do orçamento previstos pela Constituição para a saúde e a educação e o fim do marco regulatório do Pré-Sal (hoje favorável à Petrobrás e ao interesse nacional), entre outras medidas que ao fim e ao cabo jogariam por terra nossos arremedo de Estado de Bem Estar Social.

Claro que toda essa movimentação não faz com que o PMDB abandone a gramática política de varejo da troca de apoio ao governante de turno pela cessão de nacos do Estado. E nem que o PSDB deixe de lado seus projetos estratégicos em relação ao país, todos muito similares ao que aplicou quando foi governo, na grande noite neoliberal da década de 1990. Mas não deixa de ser interessante ver como os dois partidos vão cada vez mais mesclando seus papéis no sistema político brasileiro, aproximando-se numa intensidade como não se via há muitos anos. Diante do eventual fim do ciclo petista no poder, não será algo impensável um Brasil comandado novamente pelos dois partidos irmãos, numa junção indigesta de radicalismo neoliberal, fisiologismo político e conservadorismo moral.

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

Foto de capa: Divulgação



No artigo

x