Lutar por um dia da consciência humana é bastante cômodo pra quem foi considerado o único humano por séculos

Em mês de ‪#‎AgoraÉQueSãoElas‬ e Dia da Consciência Negra, é importante pontuar algumas questões sobre representatividade pra responder a certos lugares-comuns do Facebook, sobretudo quando começam a se multiplicar os compartilhamentos que propõem o dia de uma "consciência humana" pra acabar com o racismo

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Em mês de ‪#‎AgoraÉQueSãoElas‬ e Dia da Consciência Negra, é importante pontuar algumas questões sobre representatividade para responder a certos lugares-comuns do Facebook, sobretudo quando começam a se multiplicar os compartilhamentos que propõem o dia de uma “consciência humana” pra acabar com o racismo

Por Murilo Cleto

Em mês de ‪#‎AgoraÉQueSãoElas‬ e Dia da Consciência Negra, me parece que é importante pontuar algumas questões sobre representatividade pra responder a certos lugares-comuns do Facebook, sobretudo quando começam a se multiplicar os compartilhamentos que propõem o dia de uma “consciência humana” pra acabar com o racismo.

Por representatividade, me refiro ao índice de inclusão de determinado grupo social em alguma área, seja ela qual for. Por exemplo, apesar de a população brasileira ser majoritariamente negra e parda, na TV ela é de apenas 4% – normalmente ocupando papéis subalternos. Nos 5 cursos mais concorridos da USP este ano, só um calouro tem a cor da pele preta.

Há 3 formas de encarar índices de representatividade. 1) considerando-os coincidência. Quer dizer, imaginar que por algum acaso aleatório os números são do jeito que são; 2) imaginando-os como resultado da competência individual do sujeito. Quer dizer, “se não passou é porque não estudou” etc; e 3) constatando-os como reforço de um quadro histórico, que, de tão arraigado, acabou naturalizado.

Dos 3 modelos de interpretação, só um deles admite mudança. O motivo é simples: se você considera que um quadro é historicamente forjado, considera também que ele é passível de intervenção. E, neste sentido, a questão é: como intervir? Através de proposições etéreas, como, por exemplo, ” mais educação”, que normalmente só servem pra protelar a solução de problemas que, apesar de estruturais, continuam ceifando vidas e oportunidades cotidianamente. Ou através de políticas afirmativas, uma solução “vergonhosa”, mas a única capaz de encarar a balança desequilibrada de frente. Na prática, isso quer dizer o seguinte: os sujeitos já iguais perante a lei faz tempo, mas não tempo o suficiente pra que os índices de representatividade estejam mais equilibrados. Aliás, só o tempo não corrige, como mostram os números.

Veja, nos últimos 10 anos, o número de mulheres negras assassinadas cresceu 54% no Brasil. E, como disse, há 3 maneiras de enxergar este dado.

Li boas críticas à campanha #AgoraÉQueSãoElas. A maioria delas mostrava-se visivelmente incomodada com o fato de que homens concedessem espaço para mulheres como se fossem cavalheiros. Mas a questão não é essa. É demonstrar que sem concessão os quadros não mudam. Na Folha de S. Paulo, onde boa parte destas críticas se concentrou, o número de colunistas mulheres é quase 3 vezes menor que o de homens. Coincidência, competência ou história? Somente 9% dos parlamentares brasileiros na atual legislatura são mulheres – e você já sabe como ler estes números. Indiscutivelmente, a campanha tem um trunfo: desnudou como nunca a baixa representatividade de mulheres no universo de analistas políticos e econômicos do país. E deixou claro que, sem concessão, os números não se equilibram. Vale a mesma lógica pra refletir sobre a política de cotas. Se o Estado deixa como exige o sistema, aprofundam-se quadros históricos, que, a certa altura, tornam-se irreversíveis.

Hoje, um jovem negro tem 3,7 vezes mais risco de ser assassinado no Brasil. Por causa dos homicídios, a expectativa de vida de um negro ao nascer é 1,73 ano menor que a de um branco. Coincidência, competência ou história?

Agora bradam contra o 20 de novembro aqueles que acreditam que é ele quem produz racismo, quando, na verdade, surgiu pra estabelecer um contraponto. Pra dizer que, a despeito do que a história da civilização inculcou – isto é, vergonha -, é possível ter orgulho da pele preta que ainda hoje carrega as marcas de uma história que nada tem de coincidência ou competência.

Sejamos francos: dia da “consciência humana” sempre existiu. E o que ele produziu, dentre outras barbáries, é isso que está aí listado. Lutar por um dia da consciência humana é bastante cômodo pra quem foi considerado o único humano por séculos.

Foto de capa: John T. BledsoeLibrary of Congress, U.S



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