Sobre reconquistar o direito de entender como as coisas funcionam

A Oficina Comunitária de Bicicletas e os encontros do Café Reparo fazem parte de um movimento que provoca contra-ações em busca de normatizar o reparo e dar autonomia aos indivíduos, para que qualquer pessoa interessada possa passar de consumidora passiva à construtora do seu...

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A Oficina Comunitária de Bicicletas e os encontros do Café Reparo fazem parte de um movimento que provoca contra-ações em busca de normatizar o reparo e dar autonomia aos indivíduos, para que qualquer pessoa interessada possa passar de consumidora passiva à construtora do seu próprio entorno

Por Caroline Barrueco, da Noosfera

“Sentia-se péssimo ao perceber que, embora viesse originalmente de um mundo com carros, computadores, balé e Armagnac, ele não sabia, por conta própria, como aquelas coisas funcionavam. Não era capaz de fazer nada daquilo. Sozinho, era incapaz de construir uma torradeira. O máximo que conseguia era fazer um sanduíche e olhe lá.” – Douglas Adams em “O Guia do Mochileiro das Galáxias”

Estamos cercados de eletrônicos vindos de terras distantes, fabricados por mãos-de-obra baratas, e imensamente complexos no funcionamento dos seus minúsculos componentes.

Um mundo onde quase ninguém sabe construir uma torradeira. Nem a pessoa encarregada de fazer o projeto da torradeira, nem as pessoas que montam as diversas partes da torradeira.

Mas muita gente adora comer sanduíches. E por isso se torna dependente da torradeira, a mercê desse objeto sobre o qual não sabe quase nada.

Oficina Comunitária de Bicicletas, em Porto Alegre
Oficina Comunitária de Bicicletas, em Porto Alegre

Até que um dia, por algum motivo tão desconhecido quanto ela própria, a torradeira vai, inexoravelmente, parar de funcionar. E existem várias artimanhas para nos convencer de que, quando isso acontecer, o melhor a fazer seria jogar a torradeira fora.

Esse momento tem chegado cada vez mais cedo, em parte graças a um fenômeno chamado obsolescência programada, que é quando um objeto é projetado para diminuir de propósito sua vida útil. As peças em geral são mais frágeis em pontos estratégicos, e às vezes o objeto é deliberadamente programado para parar de funcionar depois de um tempo.

Toni Conde, expert multimídia e professor do Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne, explica que “alguns fabricantes de cartões de memória para câmeras e smartphones limitam o número de possíveis fotos ou vídeos. Depois de uma determinada cota, o cartão se torna inutilizável. Isso também acontece com impressoras. Algumas são programadas para pararem de funcionar depois de um certo número de impressões”. (Leia aqui)

Em um artigo de 193e, Bernard London sugere que o consumo seja implementado como principal razão de viver dos americanos, e para isso, os bens deveriam ser substituídos com mais frequência. O documentário espanhol Obsolescência Programada mostra que inúmeros produtos estão sendo fabricados para durarem cada vez menos, para que continuemos consumindo (e, consequentemente, produzindo lixo). Impressoras Epson, por exemplo, são programadas para pararem de funcionar depois de dezoito mil cópias – felizmente, existe uma forma de hackear as impressoras e aumentar indefinidamente suas vidas.

Fazer acessórios que são incompatíveis de um modelo para o outro também é uma forma deliberada de levar os consumidores a inutilizar as antigas peças, mesmo que ainda estejam em perfeito estado. Isso acontece muito com carregadores ou baterias de smartphones, que mudam a cada novo modelo, para que toda a parafernália associada ao celular antigo tenha que ser jogada fora.

Outra grande parte do lixo desnecessário é produzido por um fenômeno chamado obsolescência percebida, que é quando um objeto ainda é totalmente funcional, mas graças à cultura da moda, é percebido como velho ou antiquado e é substituído por outro objeto com design atualizado. Isso acontece especialmente com roupas, mas também com acessórios em geral.

Tudo isso é especialmente problemático porque nossa economia é linear, ou seja, a maioria das coisas que consumimos acaba no lixo. Segundo a Ellen McArthur Foundation, 80% de todos os produtos de consumo que compramos viram lixo. Sem volta, sem reciclagem, nada. Lixo puro.

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Sherlon Assis, um dos organizadores do Café Reparo, ajudando a consertar uma TV

Quando Ellen McArthur bateu o recorde de volta ao mundo solo em um veleiro, teve que reunir de uma vez absolutamente tudo que precisaria para os 71 dias de viagem. Ver aquele espaço finito com tudo amontoado– pasta de dente, roupas, comida –, e depois ver o lixo que ia se formando dentro do veleiro, fez com que ela se desse conta de que o planeta Terra também é um espaço finito e que estamos todos no mesmo barco. Apesar de óbvia, essa constatação é também arrebatadora quando paramos para pensar.

Após voltar para o continente, Ellen criou um instituto para ajudar iniciativas que incentivem a economia circular – aproximar a economia do que acontece em todos os outros ecossistemas da natureza, em que o próprio conceito de lixo nem existe.

É claro que reciclar é importante, mas também exige muita energia, combustíveis e recursos. O ideal seria, em primeiro lugar, evitar a produção de lixo, prevenir ao máximo o descarte de produtos.

E uma das maneiras mais eficientes de se fazer isso é aumentando a vida útil das coisas, entendendo como elas funcionam, e sendo capaz de consertá-las, quando necessário.

Com o desenrolar do século vinte, a produção em massa, somada à falta de tempo crônica, fizeram com que as habilidades de pequenos consertos gerais diminuíssem drasticamente entre as pessoas. E com isso nossa relação com os objetos mudou.

Simples reparos, como pregar a perna de uma cadeira, ou colar a sola do sapato, estão cada vez menos comuns, e assim a cultura do desperdício se alastrou de canetas e pequenos objetos para itens maiores, como roupas e móveis.

De repente vivemos num mundo onde comprar um novo produto é mais simples, prático, fácil e barato do que consertá-lo.

Para reverter essa lógica, estão surgindo “grupos de reparos” pelo Brasil afora, como a Cidade da Bicicleta em Porto Alegre, que disponibiliza uma oficina comunitária para consertos de bicicletas. Você pode chegar lá com sua bici, e voluntários te ensinam a consertá-la. Logo, poderá retribuir o favor ensinando outros a também consertarem suas bicicletas.

E assim, além de expandir o conhecimento e também a autonomia das pessoas, os grupos de conserto acabam criando um senso de comunidade, cuidado e ajuda mútua.

Entender de que forma um objeto mecânico – como uma bicicleta – funciona é principalmente questão de observação e lógica. Então, quando tudo era mecânico, também o conserto era muito mais difundido e simples.

Mas para entender o funcionamento de chips ou componentes eletrônicos não basta paciência e observação lógica, é preciso aprender um novo idioma.

Então, os objetos dos quais mais dependemos diariamente são também estrangeiros para nós: não falamos seus idiomas, eles foram fabricados em países distantes, e acima de tudo não temos nenhuma relação com eles para além de suas funções. Não existe afeto. Nossos objetos eletrônicos em geral nos servem para suas funções, e quando estão menos do que perfeitos são rapidamente substituídos.

Assim como as oficinas comunitárias de bicicletas, os Cafés Reparo são espaços que ensinam gratuitamente as pessoas a consertarem seus objetos quebrados. Técnicos voluntários se sentam ao lado dos donos de objetos quebrados, e juntos eles abrem o objeto, olham e compreendem seu funcionamento, e por fim, o consertam.

Simples assim, mas ao mesmo tempo esse é um movimento super potente, que provoca ações imediatas, dinâmicas e eficazes na contramão da cadeia de consumo em massa e da produção desenfreada de lixo.

Pedro Belasco, que participa de vários projetos que buscam fomentar a cultura hacker, tem ajudado a organizar os encontros do Café Reparo em São Paulo. Para ele, mais do que consertar os objetos, os encontros servem para “fazer com que os participantes tomem consciência da forma como a indústria os manipula”. Nesse sentido, os Cafés Reparo servem para dar ferramentas e conhecimento para que seus frequentadores possam evitar a estrutura de consumo linear, e também para que ganhem um pouco mais de autonomia e compreensão de objetos eletrônicos e digitais.

“Para mim, esse conhecimento de como as coisas funcionam deve ser acessível, se não for, é uma questão política torná-los abertos. Abrir uma televisão e ter acesso aos esquemas eletrônicos é um direito fundamental, porque todo o conhecimento é resultado do legado da humanidade, e todo desenvolvimento tecnológico acontece por sobre o acúmulo de avanços passados”, argumenta Pedro Belasco.

Atualmente, Belasco põe em prática um plano audacioso: ele quer prototipar um aparelho musical para “ter a experiência de pilotar um projeto de manufatura industrial de eletrônicos” e, com isso, hackear a cadeia do consumo de dentro para fora, “entender quem são os players, como se organiza a cadeia produtiva que nos levou a este estado cultural lastimável.”

Um dos encontros do Café Reparo
Um dos encontros do Café Reparo

Ser capaz de entender como seu celular realmente funciona é libertador. Consertar sua torradeira pode ser uma experiência extremamente gratificante.

Ao abrir, olhar dentro e compreender sua estrutura e funcionamento, a relação que se tem com um objeto muda completamente. “A intervenção aqui é importante também por criar valores sociais. É preciso ter cuidado com esses itens para mante-los ‘vivos’. E cuidado é uma emoção positiva para se investir”, diz um trecho retirado do site de um Café Reparo australiano.

Nesse sentido, segundo artigo publicado no portal The Conversation, “consertar é uma extensão natural de ‘compreender’, um processo criativo que traz um imenso sentimento de satisfação”. Assim, passa-se a ter uma relação de afeto e cuidado, e o objeto passa a existir para além da sua função.

A Oficina Comunitária de Bicicletas e os encontros do Café Reparo fazem parte de um movimento que provoca contra-ações em busca de normatizar o reparo e dar autonomia aos indivíduos, para que qualquer pessoa interessada possa passar de consumidora passiva à construtora do seu próprio entorno, o que no fim a ajuda a habitar a própria existência de forma mais ativa. Existem também comunidades digitais de reparo, como o site I fix it, que disponibiliza tutoriais para consertos de mais de mil produtos.

Para além da praticidade, em uma cultura que exige que não só os produtos estejam novinhos e reluzentes, mas também os rostos photoshopados de modelos de beleza e suas aparentes vidas impecáveis, evidenciar as cicatrizes nos objetos do dia a dia é também rejeitar ativamente esses valores. E nos ajuda a levantar questões sobre como lidamos com nossas próprias imperfeições, e a ver beleza nas narrativas reveladas pelos “defeitos”.

Em seu artigo sobre o assunto, Anna König percebe que “processos industriais eliminaram o próprio conceito de imperfeição: nós raramente aceitamos ‘defeitos’ no mundo dos bens de consumo produzidos em massa. Produtos consertados podem ser vistos como espinhos na doutrina contemporânea – eles perfuram a perfeição ilusória e revelam tanto a dedicação do reparador quanto o patchwork que é a própria vida. (…) Longe de ser um exercício trivial, remendar é de fato uma atividade que está carregada significado cultural”.



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