Nasser: O Estado Islâmico é muito mais perigoso que a Al-Qaeda

Professor de Relações Internacionais da PUC-SP analisa atentados terroristas na França e afirma que ataques militares contra o Estado Islâmico não surtirão efeito: "Fica difícil imaginar que se a França mandar alguns aviões, fizer alguns bombardeios e soltar um míssil vai acabar com o...

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Professor de Relações Internacionais da PUC-SP analisa atentados terroristas em Paris e afirma que ataques militares contra o Estado Islâmico não surtirão efeito: “Fica difícil imaginar que se a França mandar alguns aviões, fizer alguns bombardeios e soltar um míssil vai acabar com o EI”

Por Anna Beatriz Anjos

Na última sexta-feira (13), atentados terroristas deixaram 129 mortos e 352 feridos em Paris. Segundo autoridades da França, os ataques foram executados por três grupos coordenados, que agiram em seis locais durante a noite. No sábado (14), o Estado Islâmico assumiu a autoria dos ataques, o que gerou reação imediata do governo francês: o presidente François Hollande prometeu travar “combate implacável contra o terrorismo” e o primeiro-ministro Manuel Valls assegurou que a ofensiva militar conduzida pelo país na Síria não cessará.

Para Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), uma resposta militarizada da França no território dominado pelo EI apenas alimentará a espiral de violência, que atinge sobretudo civis de ambos os lados. “Para acabar com esse conflito é preciso secar o EI de recursos. Precisamos saber quem vende armas paras eles, de onde arrecadam dinheiro, para quem vendem petróleo – se você cortar isso, acabou a organização. Ela não vai morrer de um dia para o outro com a bomba salvadora, mas vai definhar”, argumenta. “Fica difícil imaginar que se a França mandar alguns aviões, fizer alguns bombardeios e soltar um míssil vai acabar com o Estado Islâmico – não vai. E, infelizmente, como o EI vai reagir ? Matando inocentes.”

Confira a íntegra da entrevista que Nasser concedeu à Fórum:

Fórum – Quais as diferenças entre o atentado à redação do Charlie Hebdo e o desta sexta-feira, em termos operacionais?

Reginaldo Nasser – Foram vários ataques concomitantes, e quando acontece isso a gente já sabe: é planejado, organizado, porque fazer três, quatro ataques simultâneos não é fácil. Envolve uma organização muito grande, é diferente do Charlie Hebdo. Na época, falamos isso: [o ataque] era típico dos lobos solitários; é alguém que, se dizendo do Estado Islâmico, se sentiu estimulado a fazer algo. Mas esse não. Olhemos o contexto: houve um atentado no Líbano um dia antes. Teve também o ataque ao avião russo no Egito. Isso tudo revela que eles [EI] têm poder de fogo. Não é a Al-Qaeda – é muito pior.

Fórum – É a segunda vez que atentados terroristas ocorrem na França apenas neste ano. Por que o país tem sido alvo desse tipo de ação?

Nasser – Hoje, o Hollande decretou guerra ao Estado Islâmico, mas isso não é de hoje. Inclusive, há um artigo meu na Fórum do ano passado fazendo uma observação sobre isso: a França está declarando guerra ao Estado Islâmico faz tempo, e está atacando. Quando acontece um atentado, temos que diferenciar as motivações dos indivíduos que fizeram esse atentado e as motivações da organização que está por trás. Os indivíduos geralmente têm idade entre 20 e 25 anos, chegando até a 30; são muito exacerbados, recebem uma lavagem cerebral da organização – são realmente suicidas. Agora, a organização age de forma racional. Quando digo isso, não é no sentido de valorizar – pelo contrário, o que aconteceu foi uma carnificina que vitimou jovens. Mas eles [EI] escolhem o alvo, porque aceitaram o fato de que a França está em guerra. Nesse artigo que citei, escrevi que, quando você declara guerra a uma organização terrorista, você a está valorizando e a reconhecendo enquanto um ator importante que deve ser combatido. Em outras palavras, legitima a organização e mostra que é forte. E eles [EI] querem demonstrar exatamente isso: força.

Fórum – O que, na sua avaliação, motivou a escolha dos locais onde ocorreram os ataques?

Nasser – Esse terrorismo escolhe lugares de aglomeração e que dão visibilidade. Se fizessem ataques na periferia de Paris, não teria tanta repercussão. Eles miraram jovens de locais de classe média, classe média alta. E também um estádio de futebol onde estava o presidente do país, o que chama muita atenção. Depois do 11 de setembro, houve muitos atentados em casas de show, por exemplo. Eles escolhem esses lugares e esse público. Isso é o que o terrorismo faz: as vítimas são uma mensagem. A mensagem é para o Estado francês, e ela é dupla: para dizer que estão em guerra, que estão respondendo às ações da França no Estado Islâmico; e para mostrar também o seguinte: “olha, esse Estado é fraco, não protege seus cidadãos. Nós fomos ao centro de Paris, nos lugares frequentados pela classe média, classe média alta, e conseguimos matar todo esse pessoal.”

Fórum – Em entrevista à Fórum, o jornalista irlandês Patrick Cockburn, autor do livro A origem do Estado Islâmico – O fracasso da “guerra ao terror” e a ascensão jihadista, disse que as estratégias de combate ao EI não têm sido eficazes.  

Nasser – Quando nos perguntamos como combatê-lo, a resposta é fácil e ao mesmo tempo difícil. Fácil porque é preciso cortar o fornecimento de armas e recursos que chegam até o Estado Islâmico. Por que não se faz isso, então? De onde vêm as armas que eles usam? De onde vêm os recursos? Eles vendem petróleo, e hoje administram um território do tamanho da Jordânia. O Estado Islâmico é muito mais perigoso que a Al-Qaeda, porque, além de promover ações como as que ocorreram em Paris, domina um território com 5, 6 milhões de pessoas e age como se fosse um Estado – a estimativa é que tenha de 30 a 35 mil combatentes. Opera como se fosse guerrilha e atua como terrorista. É muito diferente da Al-Qaeda, muito mais perigoso. Lembremos que fez os atentados contra o avião russo e no Líbano e está agindo em várias frentes, porque está sendo atacado também. Está tentando mostrar reação. Se quiser combater, tem que reconhecer que é um grupo poderoso e importante. Não adianta fazer escárnio e achar que é um bando de loucos. É um grupo muito perigoso, muito bem estruturado e tem um poder de atração: três mil europeus aderiram ao EI no ano passado. Nos EUA, em 2014, foram 125 [pessoas que aderiram ao EI], e em 2015, 250. Um dos autores é francês. Então, não adianta vir com essas história de que os terroristas vêm de fora [como refugiados]. Alguns podem ter vindo, mas há também cidadãos europeus – o que é mais perigoso ainda.

Fórum – Quais serão as consequências desses atentados para os refugiados árabes que tentam acessar os países europeus? 

Nasser – Espero que nenhuma, porque os refugiados são tão vítimas quanto esses jovens que morreram. Estão fugindo de dois atores que praticam terrorismo, basicamente: o Estado Islâmico e outras organizações como ele, e o Estado sírio, pois o terrorismo também é exercido pelo Estado. Essas pessoas são vítimas de todos os lados, estão correndo e não têm para onde ir. A confusão que alguns tentam fazer é deliberada, porque é muito nítido: não há relação nenhuma. Se houvesse, eles [refugiados] estariam alinhados ao Estado Islâmico, mas estão correndo dele. São milhões de pessoas deslocadas dentro da Síria e tentando deixar o país por conta da guerra. Você citou o livro do Patrick Cockburn, e ele coloca entre aspas uma declaração do vice-presidente dos EUA [Joe Biden] dizendo que quem deu armas para o EI foram Arábia Saudita, França, Inglaterra etc. Entre aspas, uma declaração do vice-presidente dos EUA! Esses conflitos foram alimentados por grandes potências com aliados da região, e os refugiados são vítimas.

Fórum – A extrema-direita francesa, representada sobretudo pelo partido Frente Nacional, pode aproveitar os atentados para se fortalecer ainda mais – assim como fez em relação ao episódio envolvendo a redação do Charlie Hebdo?

Nasser – Sem dúvidas. A França tem 4 milhões de islâmicos, e se 1% aderisse ao Estado Islâmico, seria o caos. Não tem relação entre uma coisa e outra. Ninguém fala nada sobre o ataque terrorista no Líbano que matou basicamente muçulmanos. Segundo números oficiais dos EUA, 85% dos mortos no mundo em decorrência de ataques terroristas são islâmicos. Eles são vítimas do terrorismo. Mas sabemos que há gente que, por outras razões, quer barrar a imigração, e utiliza desses artifícios desonestos e irresponsáveis para fortalecer suas pautas. 

Fórum – O presidente francês François Hollande prometeu “combate implacável” ao terrorismo, o que evidentemente envolverá ofensivas militares. Essa reação não alimentaria ainda mais a espiral de violência? O que de fato pode ser feito para minar o poderio do Estado Islâmico?

Nasser – Mesmo antes do ataque ao Charlie Hebdo, a França foi o país europeu que mais insistiu em participar da guerra civil na Síria. O Hollande vem a todo momento tentando obter autorização do Congresso e apoio dos europeus para agir na Síria – até os EUA ficaram com um pá atrás. Repito: não é casual. A França tem se mostrado à frente dos outros nessa questão. Os atentados de ontem revelam que não é esse o caminho, porque vai haver isso [represálias]. Os ataques empreendidos na Síria e no Iraque não estão adiantando absolutamente nada. Nem os ataques do Putin – um mês de ofensiva da Rússia, que todo mundo diz que é muito precisa militarmente, não atingiu em nada o Estado Islâmico. Para acabar com esse conflito é preciso secar o EI de recursos. Precisamos saber quem vende armas paras eles, de onde arrecadam dinheiro, para quem vendem petróleo – se você cortar isso, acabou a organização. Ela não vai morrer de um dia para o outro com a bomba salvadora, mas vai definhar. Porém, pelo visto, ninguém tem feito absolutamente nada a respeito. Fica difícil imaginar que se a França mandar alguns aviões, fizer alguns bombardeios e soltar um míssil vai acabar com o Estado Islâmico – não vai. E, infelizmente, como o EI vai reagir? Matando inocentes, porque é modelo de ação terrorista o que fez ontem na França, é algo abominável. As cenas são horrorosas, mas vão voltar a acontecer, porque eles [EI] não se importam. É uma luta desigual, porque o governo [francês] faz seus bombardeios e mata civis lá – o que a gente não vê, porque não repercute –, e aí as organizações terroristas vêm para a França e matam civis. É uma espiral de violência, mas com civis, esse é o problema. Os atores armados são os que menos são atingidos. O chamado efeito colateral é muito maior do que o efeito militar. Civis inocentes morrem de todos os lados. 

Fórum – Muitas pessoas têm dito que os ataques à França significam um ataque à civilização e ao Ocidente. O que pensa sobre isso?

Nasser – Temos que tomar cuidado ao falar que a Europa e a civilização ocidental estão sob ataque. Quem está sob ataque são um país e um governo que têm exercitado seus músculos ultimamente; a França, nos últimos dez anos, tem gostado disso. Não é casual que ela tenha entrado na mira do terror. Esse espírito imperialista de querer intervir, resolver os problemas dos outros, buscar aliados e depois mudar de lado… esse jogo da França, que também é dos EUA, da Rússia, da Arábia Saudita é um jogo irresponsável. Esses governos são tão ou mais responsáveis do que o Estado Islâmico ou outras organizações do Oriente Médio. O resultado são essas consequências lamentáveis para a juventude, para o lado democrático da Europa. A vida de Paris é dinâmica e pujante, e isso não pode parar. Vejo até gente que se coloca como crítica e diz que é preciso entender a luta do Oriente com o Ocidente, mas não tem luta! Tem luta de quem apoia ação bélica e terrorista, seja de organizações não estatais como estatais, contra aqueles que se opõem a isso, que não querem ação militarista. Não tem luta de Oriente contra Ocidente, isso é uma bobagem. Estamos tratando de extermínios e assassinatos, e todo mundo é contra isso, tanto no Oriente como no Ocidente. A grande maioria da população repudia terrorismo. O terrorismo está esperando uma reação forte da França, eles querem isso. Tomara que a França não o faça.

Temos que tomar cuidado também com o próprio Brasil. Estamos aí com a discussão do Projeto de Lei Antiterrorista, que é draconiano e totalitário. Não entendo como a presidenta Dilma Rousseff pode aprovar um projeto desse, não tem sentido nenhum. Se esse projeto passar a vigorar, ameaçará a democracia, porque não existirá dinâmica na sociedade civil. O que eu queria acrescentar é que, por vezes, a ação contra o terrorismo é do mesmo nível da ação terrorista, e uma alimenta a outra, não pode ser assim. O terrorismo gosta de ditadura e de guerra, não gosta de democracia. Quanto mais democracia, pior; quanto mais tensão e guerra, melhor. Veja, não havia ação terrorista na Síria e no Iraque, e agora são os locais onde mais há no mundo. Não é por acaso, esses países estão em guerra. 

(Foto: Mathieu Delmestre/Partido Socialista da França)



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