Anonymous vs Estado Islâmico: um alerta para a democracia

A guerra cibernética entre o grupo extremista Estado Islâmico (EI) e os ciberativistas do Anonymous é um sintoma da profunda mudança no padrão de disputa em torno de narrativas políticas no século XXI. Ao mesmo tempo, é uma evidência do despreparo dos governos, partidos...

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A guerra cibernética entre o grupo extremista Estado Islâmico (EI) e os ciberativistas do Anonymous é um sintoma da profunda mudança no padrão de disputa em torno de narrativas políticas no século XXI. Ao mesmo tempo, é uma evidência do despreparo dos governos, partidos e instituições democráticas, em geral, para atuar nesse terreno da disputa simbólica

Por Vinicius Wu

Assunto pouco explorado no Brasil nos últimos dias, a guerra cibernética entre o grupo extremista Estado Islâmico (EI) e os ciberativistas do Anonymous é um sintoma da profunda mudança no padrão de disputa em torno de narrativas políticas no século XXI. Ao mesmo tempo, é uma evidência do despreparo dos governos, partidos e instituições democráticas, em geral, para atuar nesse terreno da disputa simbólica. Os milhares de jovens mobilizados na internet mundo afora, por ambos os lados, indicam a necessidade de buscarmos a compreensão desse fenômeno.

No último dia 13, o grupo internacional de ciberativismo Anonymous declarou guerra aos terroristas do Estado Islâmico através de seu canal no YouTube e de um tweet em sua conta oficial: “Não se enganem: #Anonymous está em guerra com o #Daesh. Não pararemos de nos opor ao #IslamicState. Somos também melhores hackers. #OpISIS”. O grupo convoca sua rede de ativistas e colaboradores a desencadear a maior operação de ataques virtuais contra os terroristas responsáveis pelo recente atentado em Paris.

O Anonymous já havia organizado ataques cibernéticos contra o EI em reação aos atentados contra o Charlie Hebdo. Segundo a revista Foreign Policy, quase 150 sites do Estado Islâmico foram derrubados, além de mais de 100 mil contas no Twitter e 5900 vídeos de propaganda do EI. Grupos simpáticos ao Estado Islâmico também foram expostos e localizados pelos membros de Anonymous. Um IP sediado no Kuwait servia de base para a disseminação de mensagens e contas do grupo no Twitter.

Os extremistas reagiram e passaram a ameaçar os ativistas do Anonymous que contribuíram para a derrubada dos diferentes canais de comunicação do EI. O site Intelligence Group, que monitora a ação de grupos extremistas na rede, confirmou a veracidade das mensagens trocadas pelo aplicativo Telegram nas quais o Estado Islâmico revela seu incômodo com as ações de Anonymous e promete reagir. Eles também orientam os membros de sua rede e colaboradores a se proteger dos hackers: “Não abram nenhum tipo de link a não ser que tenham a certeza de quem é a fonte, usem VPN [ligações criptografadas] e mudem de IP constantemente por razões de segurança […] e não tenham um e-mail semelhante ao seu nome de usuário no Twitter. Os infiéis publicaram endereços de IP de apoiantes do EI, por isso tenham cuidado”.

Mas, o que isso tudo significa no contexto da malfadada “guerra ao terror”? Creio que, acima de tudo, o contencioso envolvendo Anonymous e o Estado Islâmico indica que estamos diante de fenômenos novos, em termos de comunicação e política, frente aos quais os aparatos de Estado têm tido dificuldade em lidar.

O Estado Islâmico não é um grupo terrorista qualquer. É muito mais sofisticado que a Al-Qaeda, por exemplo. Eles têm utilizado a internet para disseminar sua mensagem de horror ao redor mundo e não o fazem sem se preocupar com a disputa simbólica e política. Não por acaso, lograram recrutar jovens ocidentais, além de já possuírem muitos adeptos voluntários nos países onde tem presença territorial.

É preciso refletir sobre as motivações do Estado Islâmico em operar, com tanto zelo, esse tipo de movimentação política. É preciso entender as razões pelas quais um grupo com uma visão de mundo medieval lança mão das novas tecnologias, informação e comunicação para disputar sua versão sobre os fatos e os massacres que vem promovendo.

Parece evidente que está em jogo uma disputa em torno de valores que não pode ser resolvida de forma simplista como propõe aqueles que afirmam estarmos diante de uma disputa entre “Ocidente x Oriente” ou entre “civilização x barbárie”. A noção do “choque de civilizações”, com todo seu etnocentrismo e prepotência, parece fortalecer, em grande medida, a própria mensagem que o EI busca veicular.

Um mundo sem utopias, sem projetos alternativos, sem referências, em meio a tantos impasses, assimetrias e desequilíbrios – de ordem ambiental, econômica, social, cultural e política – é um terreno fértil para a disseminação de mensagens de ódio e extremismos como o difundido pelo Estado Islâmico. Não se pode subestimar, portanto, a força política do EI. Não basta pensar apenas no enfrentamento militar. Há política em jogo.

Além disso, é importante refletir, ainda, sobre o fato de a reação ao Estado Islâmico no ambiente das redes não ser protagonizada pelas instituições públicas, partidos, ong´s, sindicatos, parlamentos, mas, por um grupo anônimo, contraditório, de origem, sustentação e motivações políticas obscuras. O Anonymous é o anti-Estado Islâmico na internet e isso demonstra que há um vazio que tem origem na crise da representação política que perturba boa parte das democracias ocidentais.

A internet é uma esfera pública global que mobiliza valores, ideologias, identidades. Na luta contra os horrores promovidos pelo EI, armas não bastam. É preciso mobilizar outras frentes de batalha, além, é claro, de assegurar o respeito à soberania dos países nos quais o intervencionismo militar norte-americano e da OTAN só fez aumentar o ódio e a predisposição à barbárie.

Foto de capa: Anonymous/Reprodução



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