Como parlamentares negros exemplificam a discriminação racial em vídeo

Histórias pessoais de discriminação racial nos comovem e podem até nos fazer chorar. Mas e daí? A pergunta que não quer calar é: quando deixaremos de tratar o racismo como evento doméstico que nos magoa?

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Histórias pessoais de discriminação racial nos comovem e podem até nos fazer chorar. Mas e daí? A pergunta que não quer calar é: quando deixaremos de tratar o racismo como evento doméstico que nos magoa? 

Por Cidinha da Silva*

O 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, paulatinamente se transforma em semana e mês da consciência negra. Sem dúvidas, uma vitória do movimento negro contemporâneo, que tem instado pessoas afrodescendentes de frágil identidade negra a se posicionar, a referir, pelo menos, o tempo histórico em que vivem.

Particularmente, como figura pública, só narro histórias pessoais de discriminação racial se elas tiverem um potencial muito grande de mobilização coletiva e se eu for capaz de contextualizá-las no espectro amplo de funcionamento do racismo para todas as pessoas negras. Não me interessa mobilizar a compaixão fajuta de quem quer que seja.

Emblemático da superficialidade de abordagem é o vídeo de um portal de notícias que entrevista oito parlamentares negros sobre como foram e ainda são alvo de preconceito e discriminação motivados por racismo.

A história contada pelo deputado Vicentinho (PT-SP) no vídeo, sobre sua irmã, escolhida para coroar a santa na igreja, é um bom exemplo. Na ‘hora H’ ela é substituída por uma colega branca no lugar de honra, ao tempo em que ela, a criança negra, excelente cantora, é escondida debaixo da mesa do altar e de lá emite sua bela voz. Isso nos comove e pode até nos fazer chorar. Mas e daí? A pergunta que não quer calar é: quando deixaremos de tratar o racismo como evento doméstico que nos magoa?

O culto à individualidade, à pessoalidade da discriminação racial sofrida, reforça as chaves mobilizadoras de afetos correlatos à prática do racismo no Brasil. Os agentes que ridicularizam certas situações de discriminação, bem como as pessoas discriminadas, são os mesmos que se sensibilizam com histórias nas quais o negro não reage. Apenas aquiesce e sofre.

As figuras públicas não podem compactuar com esse modelo; precisam rompê-lo. Não penso que seja possível combater o racismo amolecendo corações que derramam uma lágrima quando ouvem a história triste da infância do deputado e logo a seguir jogam lixo na rua e riem, porque estão contribuindo para que os garis “tenham o que fazer”. O racismo é um bicho feio. Horroroso. Letal! E assim deve ser tratado. Sem açúcar.

(*) Cidinha da Silva é escritora. Publicou, entre outros, Racismo no Brasil e afetos correlatos (Conversê, 2013) e Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014). Despacha diariamente em sua fanpage 

(Foto: Gustavo Lima/Câmara dos Deputados)



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