“A ideia de empoderamento da mulher não vem do Ocidente. Pode ser encontrada em textos do Islã”

Em entrevista, a feminista palestina Sana Atabeh conta como funciona o centro de acolhida a mulheres vítimas de violência em que trabalha na Cisjordânia e explica de que maneira a ocupação israelense na região reforça o machismo e outras formas de opressão.

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Em entrevista, a feminista palestina Sana Atabeh conta como funciona o centro de acolhida a mulheres vítimas de violência em que trabalha na Cisjordânia e explica de que maneira a ocupação israelense na região reforça o machismo e outras formas de opressão

Por Redação*

Se em uma sociedade machista já é difícil ser mulher no Ocidente, a situação é ainda mais complicada em regiões onde há conflitos militares e focos de fundamentalismo religioso – como acontece, por exemplo, em territórios de ocupação palestina. Sana Atabeh é uma ativista feminista que trabalha na Casa de Acolhida para mulheres vítimas de violência na Cisjordânia e luta, por meio de seu trabalho e de sua militância, para acabar com as opressões de gênero e, ao mesmo tempo, pela resistência e liberdade do povo palestino.

De acordo com ela, na Casa de Acolhida as mulheres vítimas de violência – seja física ou psicológica – recebem assistência de outras mulheres e contam com um diálogo direto com órgãos oficiais e ministérios que tratam dos direitos femininos. O centro de referência está aberto desde 1990. “Cada caso é diferente, mas no geral o que se oferece na Casa de Acolhida é a proteção, um espaço de segurança para a mulher e sua família até que se resolva a situação”, disse Atabeh em entrevista ao portal espanhol La Marea.

Atabeh milita no movimento feminista palestino que, segundo ela, além de empoderar mulheres contra opressões de gênero, contribui para a luta de emancipação e resistência do povo palestino em relação às ofensivas israelenses.

“Dizemos com orgulho que o movimento de mulheres na Palestina não é uma criação recente. Em 1922 se criou a primeira união de mulheres. Depois, em 1926, se formaram outras que participaram de forma ativa no movimento de libertação da Palestina (…) Para nós, mulheres, é uma prioridade aumentar a participação e presença das palestinas nos espaços de tomadas de decisões e no âmbito político”, afirmou, salientando que, atualmente, a participação de mulheres no cenário da política na região é de 30%.

Contrariando o senso comum, a ativista diz que, ainda que existam críticas que acusam as mulheres palestinas que entram em contato com o feminismo de “ocidentalização”, a ideia de empoderamento feminino não vem do Ocidente e pode ser encontrada em textos do Islamismo.

“Às vezes, quando fazemos palestras sobre o empoderamento da mulher contra a violência, nos dizem: ‘Essa forma de pensar vem do Ocidente’. Mas esses conceitos não vêm do Ocidente, podem ser encontrados em textos do Islã. O Islã, entre outras coisas, fala do respeito entre os membros de uma família e de uma comunidade (…) Há pessoas que não concordam com a evolução das mulheres, nem que tenham um papel junto aos homens nas decisões políticas; essas são as pessoas que dizem que a ideia de empoderamento vem do Ocidente”, explicou.

Segundo Atabeh, a luta das mulheres e a luta pela resistência palestina está diretamente relacionada, tendo em vista que as ofensivas israelenses “instrumentalizam” a violência machista e outras formas de opressão.

“A mídia tradicional israelense nos apresenta como mulheres fracas enquanto nos culpabilizam por instigar nossos filhos a lutar contra as ocupações, nos fazem responsáveis. Mas as mulheres palestinas não são fracas. Quando as mulheres têm seus maridos ou seus filhos nas prisões, elas são o pilar fundamental da família, o sustento social que articula toda a sociedade (…) As mulheres palestinas vivem uma dupla opressão pelo fato de serem mulheres e pelo fato de serem palestinas em território israelense”, afirmou.

*Com informações do La Marea

Foto: Ester Mora



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