Wagner Iglecias: O Papa no México

Não deixa de ser curioso que o chefe da Igreja Católica reconheça que o capitalismo nos aprisionou a todos na cultura do consumo e do descarte, como disse em sua missa em Chiapas, e apele aos indígenas do México, e de toda a América...

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aNão deixa de ser curioso que o chefe da Igreja Católica reconheça que o capitalismo nos aprisionou a todos na cultura do consumo e do descarte, como disse em sua missa em Chipas, e apele aos indígenas do México, e de toda a América Latina, que ensinem ao mundo o respeito à natureza e o valor da gratuidade, traços marcantes das mais variadas culturas pré-colombianas

Por Wagner Iglecias

O Papa Francisco iniciou nesta semana uma viagem ao México, um dos países com a maior quantidade de católicos em todo o mundo. Três fatos, entre vários, marcaram o início da passagem do chefe da Igreja Católica pelo país azteca: o Pontífice abriu a missa desta segunda feira em San Cristóbal de Las Casas, no estado de Chiapas, um dos mais pobres do país, em tzotzil, idioma indígena local. Pronunciou na língua indígena a citação bíblica “a lei do Senhor é perfeita em tudo e conforta a alma”. Francisco citou ainda uma passagem do Popol Vuh, livro sagrado do povo maia: “um desejo de viver em liberdade e tem sabor de terra prometida, onde a opressão, os maus-tratos e a degradação não sejam moeda corrente”. E sobretudo pediu, em nome da Igreja Católica, perdão aos povos indígenas.

Trata-se de um aceno que chega à América com cinco séculos de atraso. As inúmeras nações indígenas que vivam no chamado Novo Mundo foram vítimas sistemáticas não apenas da subjugação cultural e da espoliação de terras, mas sim daquele que talvez tenha sido o maior genocídio da História da Humanidade. Dezenas ou talvez centenas de milhões de indígenas foram mortos desde fins do século XIV pela invasão européia, do Alasca à Patagônia. O projeto colonial europeu, e em especial o espanhol, que ocupou do México à Argentina, era encarado por Madri não somente como uma empreitada econômica mas também como uma missão civilizatória. Já em 1550 o Bispo de Chiapas, o espanhol Bartolomeu de Las Casas, travou duro embate ideológico com seu compatriota o sacerdote Gines de Sepulveda. Para este último os indígenas eram como bestas primitivas, comparáveis a qualquer tipo de animal e portanto passíveis de toda sorte de escravidão ou coisa pior. Para Las Casas os índios eram, como os europeus, criados à imagem e semelhança de Deus, inocentes por não conhecerem o Deus cristão e portanto passíveis de serem mantidos vivos e livres e serem convertidos à fé católica pelos conquistadores.

O embate entre Sepúlveda e Las Casas exemplifica bem as duas opções que o invasor europeu colocava diante de si desde aquela época: escravizar e/ou dizimar as populações indígenas ou então converte-las ao cristianismo. De um modo ou de outro, a colonização das Américas pela Europa foi um processo de subjugação, física ou simbólica, de uma cultura por outra. E tudo em nome da necessidade de acumulação material das potências européias e da crença cega em sua superioridade moral e religiosa, que de resto se viu também ao longo dos últimos séculos nos processos de colonização da África, da Ásia e da Oceania por povos europeus diversos.

Não deixa de ser curioso que o chefe da Igreja Católica reconheça que o capitalismo nos aprisionou a todos na cultura do consumo e do descarte, como disse em sua missa em Chiapas, e apele aos indígenas do México, e de toda a América Latina, que ensinem ao mundo o respeito à natureza e o valor da gratuidade, traços marcantes das mais variadas culturas pré-colombianas. Obviamente nas entrelinhas trava-se uma guerra pela reconquista de milhões de indígenas e descendentes que em toda a região vão cada vez mais se distanciando do catolicismo e abraçando o cristianismo evangélico.

Ainda que já tenha visitado outros países latino-americanos, como Brasil, Bolívia, Paraguai, Cuba e Equador, é no México onde Franciso faz de forma mais enfática este tipo de discurso. México que há vinte anos aderiu ao Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) e desde então caminhou a passos largos para limitar-se ao papel de plataforma de produção de bens para o mercado dos EUA. México que, ao contrário do que se dizia quando do abraço eterno no grande irmão do Norte, tornou-se desde então um dos países com as maiores taxas de crescimento da pobreza em toda a América Latina. Ainda que a mensagem do Papa chegue à região após cinco séculos de espoliação das populações indígenas, talvez o Vaticano não poderia ter escolhido país mais simbólico para expressa-la.

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.



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