Que horas ela volta? Só a gente que vive é que sabe

O belo filme de Anna Mulayert já é bem conhecido do público, mas o livro “Só a gente que vive é que sabe – depoimento de uma doméstica” é passado que merece ser relembrado. A...

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O belo filme de Anna Mulayert já é bem conhecido do público, mas o livro “Só a gente que vive é que sabe – depoimento de uma doméstica” é passado que merece ser relembrado. A obra conta a história de Lenira Maria de Carvalho, doméstica por mais de cinquenta anos e que faz um longo relato, completo e reflexivo, sobre a vida pessoal e o cotidiano dessas trabalhadoras

Por Solange Peirão

Em certo momento do filme “Que horas ela volta?” a empregada doméstica Val de D. Bárbara afirma algo como “só a gente que vive é que sabe”, para sintetizar o desafio que é conciliar trabalho e  moradia na casa dos patrões e ainda criar os filhos, mesmo que à distância.

O bonito filme de Anna Mulayert, com sua justa repercussão positiva, já é bem conhecido do público, mas o livro “Só a gente que vive é que sabe – depoimento de uma doméstica”, que a Editora Vozes/Nova lançou em 1982, como parte da série de registros de memória, os Cadernos de Educação Popular 4, é passado que merece ser relembrado.

Lenira Maria de Carvalho é esta doméstica que permaneceu na profissão por mais de cinquenta anos, e que aqui faz um longo relato, completo e reflexivo, sobre a vida pessoal e o trabalho dessas trabalhadoras.

Nasceu em 1932 no interior de Alagoas. Em suas palavras, “filha de mãe solteira, porque minha mãe foi prostituída pelo filho do dono de engenho, o filho da senhora que criou ela; então esta senhora assumiu de criar o meu irmão mais velho, por ele ser filho do dono do engenho; e eu sou filha de doméstica com camponês, mas meu pai nunca assumiu”. Lenira foi criada por este irmão mais velho e com 14 anos foi para o Recife para trabalhar, como ela diz, “na casa do meu padrinho, ele era filho do homem que prostituiu minha mãe”.

Pausa. Precisamos ir devagar para assimilar este emaranhado que marca as relações familiares de Lenira e de tantas mulheres como ela, pelo Brasil afora. E eu, que convivi com algumas delas, por mais de dez anos, porque foram, incluindo Lenira, a liderança nacional do movimento de organização sindical das trabalhadoras domésticas, me ponho a pensar, a partir do filme, como este País mudou. E para melhor.

Jessica, a filha da Val, é a expressão desta mudança. Sua geração, ou até mesmo a anterior, quebra esta corrente brutal de dominação, quase escravidão. Lenira, em seu relato, nos fala sobre isso, e impressiona como as situações apontadas cobrem todos os aspectos de sua vida pessoal e de trabalho. Vejamos a realidade que ela e suas companheiras viviam há meio século.

“O fato é que depois eu pude perceber que a doméstica que vem da zona da cana, ela já vem com medo, já sendo assim mais escrava, porque ela já viu todos aqueles camponeses sendo escravos; (…) naquele tempo, o camponês ainda apanhava nos escondidos.”

“Uma coisa que era muito ruim é que eles não me botavam junto com as outras domésticas. Eu fui dormir num quarto separado (…) As domésticas achavam que eu estava sendo mais protegida, só que depois eu vi qual era a proteção. Era para eu não aprender alguma coisa com as outras domésticas, e era também muito aquela proteção de medo de eu me perder, como a gente diz, que é perder a virgindade.”

“Eu fui ficando assim aquela menina marcada, aquela menina que se pegou assim a coisa de Igreja(…) Naquele tempo não tinha nada para a doméstica, não tinha Associação, nada. Então era umas cinco, seis domésticas , e a gente se juntava a rezar o terço para São Judas Tadeu, para que a gente saísse da casa dos outros. Tão era a mágoa , tão era a vontade de sair da casa dos outros. E sair da casa dos outros era mais com um casamento.”

“Aí uma vez eu fui em casa. Passei o Natal lá no interior e já passei Ano aqui na cidade. E no Ano, a minha irmã morreu, a única irmã que eu fui criada com ela. Quer dizer, eu estava aqui na festa e minha irmã lá morta. E uma coisa que me marcou muito, que me doeu, é que veio um telegrama e meus patrões não me entregaram. Só me entregaram um mês depois, porque eles tinham certeza que se eles tivessem dito, eu tinha ido e não teria voltado. E de fato, eu acho que não voltava mais para a cidade. E eles souberam marcar bem, ver, medir muito as coisas, e não me deram o telegrama. E só um mês depois disseram que ela estava muito mal, e que não adiantava eu ir, e logo depois eles me disseram que ela tinha morrido. Eu só fui um ano depois. Minha mãe estava lá com meu irmão. E eu fique aqui trabalhando até hoje.”

“E também eu vivia aqui, mas parece que a minha raiz estava no interior. E de fato, eu fui noivar com rapaz do interior. E quando eu noivei, eu senti como tudo mudou comigo naquela casa que eu trabalhava, como todo mundo me via quase com raiva. Como aquilo me marcou, meu Deus (…) E depois eu fui comparando as coisas, então foi que eu cheguei à conclusão de que eles só queriam o meu trabalho. Por que não queriam que eu casasse quando diziam que eu era da família? Depois que viram que o noivado ia para frente e tudo, aí aceitaram e começaram o enxoval. Mas tal foi a alegria quando o casamento acabou! Como eu sentia uma alegria neles!”

“E depois eu descobri por que ninguém naquela casa quis que eu estudasse: é porque eu era de muito valor para o trabalho. E se eu estudasse, o medo tudo era porque eu ia sair da casa deles.

Agora, 2015, voltemos à Jessica. Vai chegando do Recife, entrando na casa dos patrões da Val e botando reparo naquela casa “com um quê de modernista”. Olha atenta os livros da biblioteca, e observa com naturalidade que patrões e empregadas podem, até, ter interesses similares, em matéria de literatura.

Aliás, impressiona mesmo a naturalidade na atuação das atrizes que protagonizam o filme. O trio feminino, Val, Jessica e D. Bárbara  constitue seu eixo, sua centralidade. E a performance delas, espontânea, sem exagero, nos aproxima rapidamente da verossimilhança com a realidade.

Jessica sabe o que é bom. Por sinal, todos nós sabemos. O quarto confortável do hóspede, o sorvete gourmet do Fabinho e a piscina… E Lenira nas suas memórias, em um dado momento, deixa bem claro que “vem aquela vontade de ter as coisas, a vontade de uma jovem que está tendo aquela tentação dentro da própria casa onde ela trabalha e mora; (…) como a comerciária também tem muito mais tentação de se mostrar mais bem vestida do que a menina doméstica, não é?”

Mas o reverso desta situação foi aos poucos se arquitetando. Outras empregadas que entrevistei denunciam como foram percebendo que seu “quarto que parece uma suíte, e é melhor que meu quarto na casa da minha família”, não satisfaz porque nada daquilo é seu, e porque a “gente traz da casa da gente essa maneira de viver, quer dizer, não se mexe nas coisas dos outros”.

Certo que Jessica podia agir diferentemente porque não vivia a totalidade destes sentimentos que só se configuram na relação mesma de trabalho, e quando esta acontece na casa dos patrões, ao mesmo tempo moradia da empregada. Mas o curioso é que se este distanciamento é um fator que lhe dá maior liberdade no uso dos bens, na expressão de suas ideias, nem por isso fica tentada a  permanecer na casa dos patrões de sua mãe, quando é desrespeitada. E diálogos rápidos marcam as contradições: é Val quem, levemente insatisfeita, se espanta com a facilidade de Jessica em aceitar qualquer cantinho para morar, em uma favela de um bairro distante.

Essa situação me remete de novo a uma fala de Lenira que se refere a outra constatação, talvez mais valiosa: a formulação da identidade de classe que as empregadas domésticas foram paulatinamente construindo e, consequentemente, a aproximação  de outros trabalhadores, visando  um projeto político comum de transformação social:

“A doméstica por estar num mundo tão estreito dentro daquela casa, ela quase não percebe ou não fica assim dando valor à luta dos outros trabalhadores. Eu acho que o trabalho da gente é mostrar que a promoção da doméstica tem que ser conjunta com os outros trabalhadores. Na medida em que o campo piora a situação da doméstica piora, porque a maioria do povo vem do campo; os homens vão para a construção civil e as mulheres vão ser domésticas”.

E o que dizer sobre a delicada questão das sensibilidades? Ah, que difícil é conviver e separar trabalho dos afetos, quando se mora no mesmo local em que se trabalha! E provavelmente a ligação mais forte aconteça entre as empregadas e as crianças da família. Lenira fez a observação mais bela a respeito, que já ouvi: “…mas depois que eles crescem, que eles estudam, que eles são médicos, tudo isso acaba; (…) então o laço afetivo da gente fica, mas o deles passa…”

Curioso que é neste aspecto que o confronto Val e D. Bárbara fica mais evidente. Quem é, de fato, a mãe? Quem me criou?  Quem cuida, faz o cafuné da noite, prepara o café da manhã?

Há uma cena interessante: D. Bárbara preparando o desjejum para Jessica, porque Val, tal qual uma patroa, perdeu a hora e… dormindo com Fabinho! Bela inversão de maternidades!

Mas calma, D. Bárbara tem suas limitações: manda, em outro momento, lavar a piscina depois que Jessica nadou e se divertiu com os moleques… Fabinho acredita na justificativa do rato e Jessica, altiva, sorri com a ironia de quem tudo compreendeu.

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Fabinho, criança, logo de cara introduz a pergunta que dá título ao filme, e Jessica faz o mesmo em outro momento, para marcarem, ambos, a ausência materna. Mas… que horas ela volta, mesmo?

Melhor destrocar e voltar aos papéis de origem. As mulheres com seus filhos, qualquer que seja a condição social, amargam as limitações das jornadas cotidianas, duplas, triplas, por necessidade, por vaidade, ou realização pessoal. Fabinho, criança, logo de cara introduz a pergunta que dá título ao filme, e Jessica faz o mesmo em outro momento, para marcarem, ambos, a ausência materna. Mas… que horas ela volta, mesmo?

Alguns pontos interessantes do filme, enquanto escolhas de linguagem. O discurso, o diálogo são sempre privilegiados, tanto assim que mal me lembro, por exemplo, da trilha sonora. As locações só fazem reforçar esta ideia. Parecem sets bem fechados a serviço da palavra, tal qual no teatro.

Na casa, o olhar restrito de quem vê, da cozinha, pela porta entreaberta, quem se senta à cabeceira da mesa de jantar. Na casinha de Val e Jessica, a porta entreaberta descortina uma paisagem mais ampla, uma fresta da favela. Mesmo ao chegar aqui, no bairro, o grupo que conversa sobre a casinha para alugar parece estar num cenário.

Aliás, as cenas de rua nunca mostram demoradamente as pessoas; no ônibus que traz mãe e filha da Rodoviária, o papo fica centrado no “desastre” da reurbanização do Largo da Batata, sem nunca mostra-lo; ufa! sorte dos paulistanos. Nem mesmo quando a janela do emblemático Copan poderia descortinar a bela paisagem edificante de São Paulo ela é mostrada, apenas referida por Jessica.

Talvez a imagem mais marcante seja mesmo o corredor descendente da casa “quase modernista”, que reiteradamente é focalizado. É deste lugar sombrio que se abrem as portas dos quartos. Confesso que por diversas vezes tentei entender a geografia do espaço. Como se alcança um terraço que dá para a piscina, por exemplo; como a área de serviço parece mergulhada no meio do nada; como o quarto de empregada se abre também para o nada…

Nada disso importa, porém. Porque o foco deste plano apertado e descendente leva mesmo é para o mundo interno das pessoas. E, curiosamente, quem faz depois o caminho ascendente é Jessica e Fabinho, acompanhado do pai, subindo a bela rampa da FAU.

Não dá para deixar de registrar a cena divertida em que Val, vendo a filha analisar a planta da casa da família, pergunta: “Planta? Por que isso chama planta?” Jessica responde prontamente: “Sabe que eu não sei?” É provável que só os arquitetos saibam mesmo; nós, os comuns mortais, apenas desconfiamos…

Soube recentemente que Lenira Maria de Carvalho foi uma das contempladas com o “Prêmio Rose Marie Muraro: Mulheres Feministas Históricas”, instituído pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, em parceria com o CNPq, em 2014. Foi bonito olhar a fotografia de Lenira, com seus 82 anos, cabelos brancos e lágrimas nos olhos, recebendo esta justa homenagem.

Em janeiro de 1989, quando se realizou mais um congresso nacional das empregadas domésticas em São Paulo, decidiu-se, na fase de preparação, que a denominação tradicional, utilizada no masculino e no plural, seria modificada, para melhor identificar os 94% de mulheres que compõem esta categoria.

E mais, para reafirmar sua condição profissional, o Congresso se apresentou sob o novo título de VI Congresso Nacional das Trabalhadoras Domésticas. O movimento associativo atuante, que teve início na segunda metade dos anos1950, assim se apresentou: 157 delegadas eleitas em 35 Associações Civis, 3 Grupos de empregadas domésticas, e o que é mais expressivo, 2 Sindicatos recém formados.

Estas mudanças foram possibilitadas pela promulgação da nova Constituição, a de 1988, que deu reconhecimento à profissão. Isto para que não se pense que as conquistas legais, que levaram quase cinquenta anos para se completar, caíram do céu.

Salve Lenira, Val, Valéria, Léa, Toninha, Isabel, Olga, e tantas outras mulheres que constroem com esperança esse nosso Brasil, nosso mundo.



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