A discriminação no Oscar vai além do racismo

Hollywood esconde um sistema arcaico que condena todas as minorias – ou maiorias – que não têm lugar no tradicional sonho americano Por Mónica Zas Marcos, tradução livre a partir...

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Hollywood esconde um sistema arcaico que condena todas as minorias – ou maiorias – que não têm lugar no tradicional sonho americano

Por Mónica Zas Marcos, tradução livre a partir de El Diario

O ano era 1973 e no palco do hotel Roosevelt, de Los Angeles, uma jovem de traços indígenas e roupas típicas fazia um discurso contundente. “Como ator e cidadão deste país, não posso aceitar essa premiação nesta noite.” A ativista apache só colocava um rosto para o boicote, mas era Marlon Brando que demonstrava com essas palavras sua repulsa a um grupo que, segundo ele, maltratava os índios americanos. Seu Oscar por Poderoso Chefão ficava sem dono no primeiro ato de denúncia racial de que se tem notícia na história da premiação. Como Vito Corleone, o ator não suportava o ultraje aos seus e cuspiu todo seu desdém diante da cúpula de Hollywood.

Mais de 40 anos depois, as diferenças entre aquela indústria hegemônica que justificava o massacre de uma tribo indígena e o reflexo de uma sociedade selvagem e indômita são puramente cosméticas. De pincelada em pincelada, a Academia se esqueceu de uma grande parte de seus intérpretes e diretores na 88ª edição do Oscar. Algo que a comunidade afro-americana não perdoou. O único filme que tenta cumprir a cota étnica é Straight Outta Compton: A História do N.W.A.. E disfarçar a estratégia de conciliação racial é um ajuste de contas perigoso e insuficiente.

A realidade é que no Oscar não há negros pelo segundo ano consecutivo. E isso foi enfatizado pela saraivada de críticas disparadas nos últimos meses em todos os meios de comunicação do planeta. Spike Lee, Will Smith e Jada Pinkket seguiram o exemplo de Brando e anunciaram que não vão participar da cerimônia em função da falta de diversidade. Infelizmente, esta discriminação assume outras diferentes identidades que muitas vezes não recebem espaço nos meios nem hashtags no Twitter.

“Não creio que as pessoas estejam conscientes de que a indústria cinematográfica tem castigado todas as comunidades étnicas. Todas as minorias”, declarava Brando ao The New York Times, em uma reclamação ainda atual. E não precisam ser necessariamente minorias. As mulheres, que representam a metade da população do planeta, continuam sua cruzada por reconhecimento junto aos latinos, asiáticos, lésbicas, deficientes ou transexuais dos Estados Unidos.

Os estúdios de cinema deveriam ser um espelho da sociedade? Provavelmente sim, mas isso não mudaria o fato de 80% dos 6 mil membros da Academia terem uma idade média de 62 anos, serem homens, brancos, e abertamente tradicionalistas. Até que a indústria deixe de lado seu cenário edulcorado, os filmes indicados seguirão sendo reflexo de seu mundo fictício de opulência e exclusão.

O que Hollywood esconde no armário

“Tom Hanks, Philipp Seymour Hoffman e Sean Penn ganharam Oscar por interpretar homens gays. Por que não venceram por representar um papel heterossexual?”, questionava Ian McKellen ao The Guardian, afirmando que a homofobia é um mal muito mais arraigado na indústria que o racismo.

Há um ano, a organização GLAAD divulgou um estudo denunciando que as edições do Oscar passam uma imagem “em geral grotesca” do segmento LGTB. De acordo com a entidade, o fato de filmes como Brokeback Mountain, Philadelphia ou Milk terem sido premiados, ou do terremoto lésbico Ellen Degeneres ter estado à frente da festa são fatos anedóticos. Uma acusação que não importunou a Academia, que teve este ano várias contratações para a causa que ficaram no banco de reservas. Sem entrar em polêmicas trans ou juízos de valor, Hollywood deixou escapar seu troféu LGBT com a pouca visibilidade de Carol e Garota Dinamarquesa.

Talvez tenham sido muitas frentes abertas ou apenas ecoaram o alvoroço exagerado causado por ambos os filmes. “As mulheres devem revelar menos nas cenas de sexo”, disse a rede de televisão ABC, rejeitando divulgar o trailer. “É muito sexy para a televisão”, se justificava a distribuidora, que também tomou a decisão de mostrar Cate Blanchett e Rooney Mara separadas nas imagens promocionais. Algo que não se viu em outros filmes com temática homossexual como Azul É a Cor Mais Quente, Minhas mães e meu pai ou Brokeback Mountain. Como criticou o blog de IndieWire, “é triste que o romance lésbico siga sendo visto como objeto de desejo masculino” e, consequentemente, censurado como tal.

O estereótipo como bandeira cultural

A categoria preponderante em Hollywood é o blockbuster, uma espécie de gênero anárquico que não respeita nada e se rende a tudo que é puro espetáculo. Segundo esta lei não escrita, há uma espécie de licença poética na hora de representar etnias e culturas. À diferença do la Berlinale, o Oscar não tem preocupação em documentar os problemas sociais da atualidade. Não há refugiados, não há Oriente Médio, não há Michael Brown nem assassinatos em Ferguson, não existem violações nem extorsão por parte dos chefões da indústria.

O único filme sobre a Índia premiado foi Quem quer ser um milionário?, que temperava o cheiro da miséria dos subúrbios de Mumbai com bailes Bollywood repletos de cor e felicidade. Benicio del Toro é um rosto bem vindo sobre o tapete vermelho da Academia com filmes como Traffic e Sicario, que tratam do narcotráfico na América Latina. E os filmes que retratam a Ásia de que nos lembramos nas edições do Oscar são Memórias de uma gueixa, Cartas de Iwo Jima ou A Conquista da honra e são – surpresa – produzidos e dirigidos por Steven Spielberg e Clint Eastwood.

“Nossa cultura é uma parte vital da realidade do país, mas é considerada como algo exótico”, escreveu o cantor e ator panamenho Rubén Blades, um dos poucos membros latinos votantes na Academia (representam só 2%). “A diferença é que nós não exercemos nenhum tipo de pressão [sobre a indústria] contra os que nos estereotipam ou nos atacam”, afirmou, a respeito da escassa repercussão da luta de outras etnias.

As mulheres e o liquidificador de discriminações

“É injustificável que viajemos o mundo proclamando a igualdade da mulher em outros países e que não tenhamos os mesmos direitos no Estados Unidos”, dizia Patricia Arquette em seu discurso após vencer o prêmio de melhor atriz coadjuvante por Boyhood. Sem dúvida, no ano passado as mulheres alçaram sua bandeira para denunciar a diferença salarial entre gêneros da qual não escapa nem a Meca do cinema. Mesmo homens, assim como diretoras e jornalistas, recorreram ao feminismo necessário em sistemas retrógrados e tradicionalistas como o da Academia de Hollywood.

A caixa de Pandora se abriu há um ano, mas nada foi feito para enfrentar suas denúncias nesta edição. O Oscar, assim como o prêmio Goya, indica o que os homens escrevem e dirigem, e o que as mulheres penteiam e vestem. Além disso, a idade segue como um estigma injustamente relacionado a elas. “Todos vimos como James Bond ia ficando mais e mais velho, enquanto suas namoradas eram cada vez mais jovens. É muito chato”, dizia Helen Mirren.

Bem, se colocamos em um liquidificador todas as discriminações anteriores, o resultado é desolador para as mulheres. Às negras foram concedidos papéis de mucamas ou de garotas marginais do Bronx. As latinas são representadas por protótipos hiperssexualizados de beleza curvilínea. E as protagonistas de uma história de amor lésbico são acusadas de alimentar as mentes obscenas daqueles que veem o filme como uma história pornográfica.

Há um caminho longo e exasperante à sombra dos dinossauros da Academia. Mas alguém vai ter que tomar as rédeas à força, como fez Marlon Brando em 1973, para injetar uma dose de realidade a este mundo de fantasia.



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