Maioria dos manifestantes de 31 de março em SP foi a ato de forma espontânea e tem em Haddad político no qual mais confiam

De acordo com pesquisa, somente 12,8% dos participantes em ato contra o impeachment compareceram em função da convocação de sindicatos ou movimentos. A maioria (50,8%) se diz pouco satisfeita com a gestão de Dilma, e 10,6% dos pesquisados...

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De acordo com pesquisa, somente 12,8% dos participantes em ato contra o impeachment compareceram em função da convocação de sindicatos ou movimentos. A maioria (50,8%) se diz pouco satisfeita com a gestão de Dilma, e 10,6% dos pesquisados estão nada satisfeitos com a gestão da presidenta

Por Glauco Faria

Uma pesquisa realizada no dia 31 de março entre os manifestantes que se posicionam contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff traz alguns dados bastantes interessantes e que destoam dos estereótipos que parte da mídia tradicional e algumas ações nas redes sociais tentam impor. Entre eles, o fato de 87,2% dos entrevistados em São Paulo terem dito que haviam ido ao ato de forma espontânea, enquanto 12,8% foram atendendo à convocação de sindicatos ou movimentos.

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Ainda que as pessoas estivessem se manifestando contra a tentativa de impedimento da presidenta, isso também não significou um adesismo automático ao governo petista. A maioria se diz pouco satisfeita com a gestão de Dilma, 50,8%, e 10,6% dos pesquisados estão nada satisfeitos. Os que se dizem muito satisfeitos correspondem a 37,2%.

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Foram entrevistadas 508 pessoas maiores de 16 anos entre as 17 e as 22 horas ao longo da manifestação realizada na Praça da Sé, e a pesquisa foi coordenada por Esther Solano (Unifesp), Marcio Moretto Ribeiro (USP), Pablo Ortellado (USP). Com base nos resultados, foi realizada uma comparação com os dados obtidos em pesquisa similar feita no dia 12 de abril de 2015, entre manifestantes favoráveis à queda de Dilma.

“O que chama mais atenção é a ideia de que os manifestantes pró-impeachment desconfiam muito mais da politica do que os que se posicionam contra. Há uma desconfiança geral, mas o índice do grupo a favor é altíssimo”, diz Esther Solano, professora de Relações Internacionais da Unifesp. No levantamento, o político depositário de maior confiança entre os favoráveis ao impedimento é o governador paulista Geraldo Alckmin, que 29,1% dos pesquisados dizem “confiar muito”. Entre aqueles contrários ao impedimento, 73,8% afirmam “confiar muito” no prefeito de São Paulo Fernando Haddad.

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Essa descrença na política demonstrada pelos defensores da queda da presidenta também se reflete em outra pergunta, relativa a eventuais soluções para a crise do atual cenário político. “Quando perguntamos quais são as saídas para a crise politica, muitos entre os que são a favor do impeachment (43,7%) disseram que seria entregar o poder a um juiz honesto , enquanto quase não existe esse tipo de resposta entre os manifestantes contrários (3,5%). Os que são contra o impeachment têm uma saída elaborada dentro do sistema tradicional”, analisa Solano.

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E quais poderiam ser as consequências dessa desconfiança em relação ao sistema político? “Acho que há dois riscos, o primeiro é que você deslegitima e enfraquece as instituições, o Congresso Nacional, o governo, a imprensa, e passa a haver um esvaziamento institucional, sendo que as instituições são a base da democracia. A democracia passa a viver um grande risco”, avalia a professora. “Deixamos a porta aberta pra figuras perigosas, mais personalistas e que estão fora do jogo político como o juiz Sérgio Moro ou o próprio [Jair] Bolsonaro, que está capitalizando essa raiva contra o sistema. Quando fui na manifestação pró-impeachment, as pessoas me falavam ‘professora, ele está fora do jogo político, é honesto’, se referindo a Bolsonaro. A corrupção é o parâmetro para a análise e o problema é que pode aumentar muito o comportamento demagógico, punitivo, radicalizado.”

Mais participação e as bandeiras do jovens

Quando se pergunta a respeito das eventuais saídas para a crise política, há um único dado que aproxima os dois grupos, pró e contra o impeachment. Questionados se uma boa solução seria que decisões passassem a ser tomadas pelos próprios cidadãos por meio de consultas como os plebiscitos, em meio aos defensores da queda da presidenta, 40,5% concordam com a afirmação, índice que chega a 49,6% entre os contrários.

“No fim das contas, isso significa que as pessoas querem participar politicamente, serem ouvidas, querem recuperar seu protagonismo. Mas os partidos mais tradicionais não reconhecem esses dados nem o problema da representatividade. O sistema representativo está em crise, mas as classes politicas não querem se renovar como a sociedade está pedindo”, argumenta Solano.

Entre os pesquisados do último dia 31 de março, também é importante observar as figuras políticas que merecem mais confiança. Quando se pergunta em quem os entrevistados “confiam muito”, entre os 11 nomes apresentados o que alcança melhor índice é o prefeito paulistano Fernando Haddad (73,8%), sendo seguido pelo ex-presidente Lula (68,3%), Dilma (65,7%), Jean Wyllys (58,5%) e Luciana Genro (30,1%).

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“Acho que isso pode ser interpretado por conta da faixa etária do protesto, venho comprovando isso muito com meus alunos. Nesse segmento não existe um reconhecimento tão grande para a figura de Lula, que não é tão presente na experiência deles como atores políticos. O mais presente e simbólico na vida deles é o [Fernando] Haddad e, em outro plano, o Jean Wyllys. O registro político desse jovens é o pós-lulismo, para eles, o PT é fundamentalmente o governo Dilma”, explica a professora. “Para o jovem, a agenda da cidade é importante, a questão de humanizá-la, e no caso de Jean Wyllys trata-se de um dos únicos parlamentares que se posiciona em relação a direitos humanos. Não são bandeiras eleitoralistas, são mais extrapartidárias.”

Dos entrevistados, 7,9% estão na faixa etária que vai dos 16 aos 20 anos; 22,4% têm entre 20 e 30 e 25,3% estão no segmento entre 30 e 40 anos.

Foto de capa: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula



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