Teatro Oficina é palco de um ritual em defesa da democracia

Diferentes gerações da vida artística da cidade de São Paulo cantaram, dançaram, recitaram poesias e apresentaram cenas curtas para exaltar a diversidade e dizer não ao golpe

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Diferentes gerações da vida artística da cidade de São Paulo cantaram, dançaram, recitaram poesias e apresentaram cenas curtas para exaltar a diversidade e dizer não ao golpe

Por Leonardo Fuhrmann

Podia ser apenas um ato da cultura contra o golpe, mas o espírito do Teatro Oficina transformou a manifestação da noite desta segunda-feira (04/04) em um grande ritual em defesa da democracia e de valorização da arte como agente transformador da sociedade.

Artistas de diversas gerações se uniram a estudantes em apresentações, danças, cantorias de uma festa que invadiu a madrugada na sede da companhia do diretor Zé Celso Martinez Corrêa. O Grupo Sílvio Santos não permitiu que o ritual fosse para o terreno historicamente disputado entre o conglomerado empresarial e a companhia de teatro, mas com uma projeção e sistema de som, o teatro lotado se integrou às pessoas que apoiavam a manifestação na rua.

No chão do teatro, Zé Celso, Renato Borghi e Sérgio Mamberti representaram a geração que viveu o golpe de 1964 e seguiu fazendo a sua arte de resistência. Celso Frateschi e Dulce Muniz simbolizavam o teatro que foi para as ruas na década seguinte, inspirados pelo Teatro de Arena e pelo Centro Popular de Cultura, levaram essa arte militante para as ruas. Para lembrar esses tempos difíceis também foi cantada a música Roda-Viva, do compositor e escritor Chico Buarque.

Surgidos após a democratização, grupos como o Núcleo Bartolomeu e a Companhia Livre, da diretora Cibele Forjaz, também marcaram presença. Na rua, representando a nova geração do teatro da Grande São Paulo, chegaram os alunos da Escola Livre, de Santo André, no ABC.

Mestre de cerimônias, o ator Mariano Martins pintou o corpo de vermelho e depois uniu outras cores para celebrar a diversidade e a união de cores. Ele fez as evocações a Lina Bo Bardi – arquiteta que projetou o Teatro de Arena – e o modernista Oswald de Andrade. O ator Pascoal da Conceição citou o também modernista Mário de Andrade para pedir mais amor. A atriz Georgette Fadel leu um trecho de um texto de Augusto Boal para falar sobre as mudanças na sociedade pela arte. O poeta russo Vladimir Maiakovski e o paulistano Roberto Piva também foram lembrados.

Além de músicas do espetáculo Acordes, em que o Oficina retomou o universo do dramaturgo Bertolt Brecht, o bloco Ilú Obá de Min e a Liga do Funk cantaram pela democracia e a diversidade contra o golpe e o machismo. O cantor Chico César puxou uma ladainha que compôs especialmente para o ato. Representantes do movimento estudantil e de grupos teatrais se manifestaram também pelo aprofundamento das mudanças sociais. As cineastas Tatá Amaral e Anna Muylaert também reforçaram o coro.

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), foi alvo de diversas críticas, não só pelo envolvimento em escândalos de corrupção e manobras como o impeachment sem embasamento jurídico, mas também por liderar o movimento em defesa de uma pauta contrárias aos direitos humanos, principalmente das mulheres e da população LGBT. Para terminar o ato, foi cantada uma versão bossa-nova do grito de guerra “Não vai ter golpe!” feita pelo ator Guilherme Calzavara, uma forma de pedir resistência aos movimentos contrários à permanência da presidenta Dilma Rousseff, mas sem estimular o ódio e a violência entre os favoráveis e os contrários ao golpe, hoje presentes não só nas redes, mas também nas ruas.



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