Dilma Feminista – Por que nenhuma mulher está sozinha diante do feminismo

Marcia Tiburi: “Nesse momento em que a violência contra a mulher Dilma se confunde com a violência à democracia não é um erro falar em estupro político. A democracia é feminina e, assim como...

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Marcia Tiburi: “Nesse momento em que a violência contra a mulher Dilma se confunde com a violência à democracia não é um erro falar em estupro político. A democracia é feminina e, assim como as mulheres, foi historicamente manipulada e violentada, tratada como objeto, como coisa a serviço dos homens. Nesse momento brasileiro mais do que nunca. Estupro político é o nome do golpe”

Por Marcia Tiburi*

Ontem fui ao Palácio do Planalto participar do encontro Mulheres com Dilma em que feministas manifestaram seu apoio à presidenta Dilma Roussef diante da grave ameaça de golpe ao seu mandato.  Um golpe machista, capitalista, fundamentalista religioso, preconceituoso, autoritário, coronelista, plutocrata e oligárquico, um golpe fascista em cada detalhe de suas técnicas judiciárias, legislativas e midiáticas.

Foi um grande encontro, não apenas pela quantidade de mulheres que ali estavam para prestar “sororidade” (a solidariedade feminina) à presidenta, mas também pelo colorido dessas mulheres feministas de todas as idades, de todos as religiosidades, de todas as raças, de todas as sexualidades, de todas as culturas. Foi um encontro cheio de beleza, mas de uma outra beleza, uma beleza política como só vemos quando as mulheres se levantam e vão à luta juntas.

Fomos abraçar Dilma, fomos ouvi-la, fomos dialogar com ela que nos ouviu atenta e generosamente como é comum nos encontros feministas. Fomos dizer à presidenta que estamos com ela, que não vamos abandoná-la nesse momento de tremenda violência vivida por ela e por todos os que defendem a democracia e o Brasil.

Estupro político

Nesse momento em que a violência contra a mulher Dilma se confunde com a violência à democracia não é um erro falar em estupro político. A democracia é feminina e, assim como as mulheres, foi historicamente manipulada e violentada, tratada como objeto, como coisa a serviço dos homens. Nesse momento brasileiro mais do que nunca. Estupro político é o nome do golpe.

Queremos ressignificar a democracia, o que só é possível em bases que levem em consideração a luta das mulheres em todas as suas formas. Queremos devolver à democracia a ela mesma, devolver a democracia ao povo, assim como devolver o corpo das mulheres a elas mesmas, com os meios lúcidos e esclarecedores do feminismo, ele mesmo uma teoria e uma prática, ele mesmo uma visão de mundo crítica e uma luta por direitos para todas. O direito de representação política, o direito de ser mulher e fazer política, o direito de não ser difamada, caluniada e violentada em seu lugar e em seu cargo democraticamente eleito é a questão que estamos enfrentando nesse momento.

Fomos também dizer à presidenta que queremos nos aproximar de seu governo, que queremos ajudar a pensar melhor em políticas públicas para mulheres, que queremos intensificar nosso diálogo rumo a uma democracia feminista. Que queremos barrar retrocessos promovidos pelo machismo estrutural de uma câmara machista, e que precisamos nos unir para isso.

Fomos dizer à Presidenta que ela precisa saber que não está sozinha. Que nenhuma mulher está sozinha. Até porque a democracia radical que almejamos é necessariamente feminista, ou seja, é uma defesa de lugar para todos os excluídos dos processos políticos. Como mulheres feministas somos conscientes disso desde que percebemos nossa condição de excluídas da representação em um país em que as mulheres não chegam com facilidade ao poder barradas que são pela estrutura machista.

Amor para todas

Quando as mulheres politizam a sua condição, elas se tornam feministas. Ontem a Presidenta falou em nome de sua condição de mulher no poder. Em sua fala ela foi solidária à todas as mulheres como cidadãs que lutam contra um sistema de privilégios em si mesmo machista.

Foi um verdadeiro momento de alegria política ouvir as amigas feministas que se manifestavam ao microfone ou em coro formado por mais de mil e quinhentas mulheres. Foi um alento ver as crianças entre nós na festa democrática que foi aquele ato quando sabemos de pais que incitam seus filhos pequenos ao autoritarismo desde cedo e que educam pelo ódio como se isso não fosse, em si mesmo, um gesto de desamor para com as crianças. Ali havia amor para todas e todos. Era um momento anti-fascista em nossa política, que foi possível porque as feministas estavam ali cheias de amor, cheias de alegria.

Foi divertida a hora em que a Presidenta, entendendo muito bem o discurso misógino nas suas sutilezas, pediu que o mestre de cerimônias se acalmasse, ele que tinha antes pedido calma às presentes e que, por isso, foi muito vaiado, mas ironicamente vaiado. Vaiado também foi alguém que entrou sem ser convidado e sem ser querido. Não pude ver se o próprio deputado homofóbico machista e fascista Jair Bolsonaro ou se algum representante seu estava em meio às presentes num gesto de acinte.  Essa pessoa teve que sair. Nosso coro não deixaria machistas e fascistas mascarados entre nós. Em um evento feminista em que a própria Presidenta da República deixava clara a importância de que as mulheres respeitem a sua condição e que não se deixem humilhar, gritar Fora Bolsonaro, Fora Cunha e fora machistas e fascistas em geral, foi um gesto de respeito ao que desejamos em termos de política.

Feminismo necessário

Ontem ficou claro que a Presidenta Dilma Roussef precisa das feministas, assim como as feministas precisam dela. Estamos juntas e unidas na luta feminista, temos umas às outras.

Agora é hora da presidenta assumir que as feministas prometem eixo e esperança, aquilo mesmo que ela defendeu ontem, enquanto que os machistas ao seu redor ameaçam com o Golpe.

Assim como todas as mulheres precisam umas das outras para acabar com o machismo estrutural que prega o isolamento e a competitividade feminina como se isso fosse natural e não um jogo de manipulação machista.

Já sabemos que nenhuma mulher está sozinha diante do feminismo.

Nem a presidenta que nos representa e que, lucidamente, deve afinar cada vez mais o seu discurso e a sua prática com o feminismo como promessa de felicidade política para as mulheres. E para toda a sociedade.

*Marcia Tiburi é filósofa

Foto: Lula Marques/Agência PT



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