O dilema tucano, por Murilo Cleto

Os eleitores agora contestam o que já pode ter parecido bastante sedutor um dia. A principal medida contra a corrupção não é tirar o PT do governo. Hoje o dilema do PSDB, que despenca nas intenções de voto, é simples: como oferecer uma alternativa...

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Os eleitores agora contestam o que já pode ter parecido bastante sedutor um dia. A principal medida contra a corrupção não é tirar o PT do governo. Hoje o dilema do PSDB, que despenca nas intenções de voto, é simples: como oferecer uma alternativa para o país e não parecer apenas mais uma facção que luta desesperadamente para voltar ao poder?

Por Murilo Cleto*

Um pouco de memória neste ano meio que nos separa das últimas eleições presidenciais não faria mal a ninguém, sobretudo ao PSDB, que rejeita profundamente a alcunha de golpista na escalada contra o governo que deve ter, no próximo domingo, um desfecho significativo.

Primeiro Aécio Neves colocou em xeque a legitimidade de um dos processos eleitorais mais transparentes do mundo, duvidando do resultado que reelegeu o PT e pedindo auditoria dos votos. Logo depois, os tucanos resolveram investir pesado no impeachment, ainda que as investigações da Lava-Jato estivessem em curso e sem qualquer suspeita contra Dilma, e as “pedaladas fiscais” fossem apenas uma ilustre desconhecida da oposição.

Mas o impeachment nunca foi o projeto mais interessante para o PSDB, que, além das eleições de 2014, também sonha com as de 2018. Com um governo Temer, os tucanos teriam duas opções: 1) integrá-lo e correr o risco de alimentar o desejo do PMDB de lançar alguém à presidência em caso de uma eventual melhora do cenário econômico e da opinião pública sobre o Planalto; e 2) continuar na oposição, agora junto ao PT, vendo Lula crescer nas pesquisas enquanto o país segue ladeira abaixo – ou alguém acredita no sucesso de um governo, qualquer que seja, com PT e PSDB na oposição?

E isso tudo enquanto Aécio liderava as pesquisas, ou com folga, ou acompanhado de perto por Marina Silva. Por este motivo, não demorou muito e os tucanos partiram para o Tribunal Superior Eleitoral, deixando o impeachment de lado. Cassando a candidatura de Dilma, Temer cairia junto e o país teria novas eleições. Parecia o plano perfeito.

Mas no meio do caminho tinha uma pedra. Atingido em cheio por uma série de delações na Operação Lava-Jato, não demorou muito para que o nome de Aécio Neves fosse substituído por outros entre os que não votariam em Lula de jeito nenhum – 53% dos brasileiros. Os eleitores da direita raivosa, que abraçaram o PSDB como grande alternativa viável contra o PT, migraram para Jair Bolsonaro, que hoje tem 8% das intenções de voto. Outros, mais moderados, agora já apostam em Marina Silva. Ao contrário das expectativas, Geraldo Alckmin ainda não aparece como candidato em potencial do partido e, junto a Aécio, só perdeu pontos desde dezembro – 15% se somados.

Na última sexta-feira (8), o PSDB anunciou que abandonaria de vez o processo que corria no TSE, sinalizando desta forma a intenção de integrar o governo Temer com o impeachment de Dilma, apesar dos riscos eleitorais para o futuro próximo. Não era o projeto, mas precisou ser. Porque o PSDB é cada vez menos alternativa para os brasileiros desgostosos com o PT. E tem se esforçado imensamente para isso.

Em 2010, depois de perder a eleição para a sucessora de Lula, muito se especulou sobre o futuro de um PSDB combalido por uma derrota improvável. Muitos diziam que o partido se radicalizaria à direita para marcar posição, o que não aconteceu – muito embora algumas pautas conservadoras tenham sido definitivamente incorporadas por ele, como a redução da idade penal.

De lá para cá, discurso tucano assumiu de vez o tom de rancor. Ainda que sejam verdadeiras as reclamações daqueles que dizem que sim, o PSDB tem um projeto para o país, é verdade também, por outro lado, que ele permaneceu conscientemente escondido diante da necessidade de explorar a rejeição estridente ao PT. Aécio Neves chegou a dizer, em alto e bom som durante o debate do 2º turno na TV Globo, que a sua principal medida de combate à corrupção era tirar o PT do governo.

É pouco, Aécio. Na verdade, é nada. E desta vez os eleitores parecem contestar o que já pode ter parecido bastante sedutor. A principal medida contra a corrupção não é tirar o PT do governo. Hoje o dilema do partido que despenca nas intenções de voto é muito simples de entender, mas, talvez, difícil demais de resolver diante das suas últimas ações: como oferecer de fato uma alternativa para o país e não parecer uma facção que luta desesperadamente apenas para voltar ao poder?

Não tem segredo. É só apresentar. Tem muita gente querendo ouvir.

* Murilo Cleto é historiador e mestre em Cultura e Sociedade. Atua como professor no Colégio Objetivo e no curso de Licenciatura em História das Faculdades Integradas de Itararé



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