A sociedade do triste espetáculo

Há um País continental – historicamente assolado por desigualdades e prenhe de desenvolvimento em todos os setores – por zelar, por transformar, por engrandecer. Por reconstruir. Isso não é brincadeira. Isso não é golpe....

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Há um País continental – historicamente assolado por desigualdades e prenhe de desenvolvimento em todos os setores – por zelar, por transformar, por engrandecer. Por reconstruir. Isso não é brincadeira. Isso não é golpe. Isso é diametralmente oposto ao que querem Cunha, Temer e seus acólitos, que estão a fim de somente zombar do País

Por Helcio Kovaleski*

Então, é isso? Na tarde do próximo domingo (17), teremos de assistir impotentes a esse espetáculo patético, triste, de uma Câmara Federal praticamente toda comprometida com corrupção, com as raras exceções que só fazem confirmar essa regra miserável, e presidida por um deputado vigarista, inescrupuloso, do Mal, num contexto de Golpe asqueroso, co-operado por um vice-presidente traidor e absolutamente inepto para assumir a Presidência da República, no comando da votação de impedimento de uma presidente da República sobre quem não paira a mais remota nódoa de envolvimento com falcatrua? Temos, mesmo, de aturar a notícia de que, na noite de quarta-feira (13), houve um regabofe no Palácio do Jaburu (sem trocadilho), em cujo caixão descansa durante o dia o conde transilvânico vice-presidente da República, com os convivas (!) já contando com o ovo da galinha e comemorando o Golpe antes da hora?

A narrativa passou vertiginosamente do absurdo e do nonsense para o escárnio, o cinismo, o deboche. Quem em sã consciência ainda acredita que é somente um partido o causador e operador da corrupção generalizada no Brasil? Até mesmo os seres que habitam a remota estrela Alfa Centauri sabem que a grande maioria dos partidos brasileiros tem culpa no cartório quando se trata de corrupção. O fato novo é que toda a chamada grande imprensa simplesmente relegou isso a escanteio e vem operando um massacre incessante pró-impedimento da presidenta Dilma Rousseff (PT). E tudo isso sob as bênçãos – ou a apatia, ou o cinismo, a escolher – do Supremo Tribunal Federal (STF), que corre o seriíssimo risco de passar à História como uma instituição pusilânime.

Ao citar A Sociedade do Espetáculo¹, a obra clássica do pensador francês Guy Debord, o jornalista e escritor José Aloise Bahia diz, em artigo postado no site do Observatório da Imprensa, que a mídia, “principalmente a televisiva, passa então a atuar de maneira decisiva na definição das agendas e dos temas que norteiam todo o processo cultural e social relevantes”. “Como observa Debord, ‘o conceito de espetáculo unifica e explica uma grande diversidade de fenômenos aparentes. Sua diversidade e contrastes são as aparências dessa aparência organizada socialmente, que deve ser reconhecida em sua verdade geral. Considerado de acordo com seus próprios termos, o espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida – isto é, social – como simples aparência. Mas a crítica que atinge a verdade do espetáculo o descobre como a negação visível da vida; como negação da vida que se tornou visível’”².

Ocorre que muita gente caiu nesse engodo da mídia – com Rede Globo e revista Veja à frente. Mas, vem cá. Os bem-nascidos e o grosso (sem trocadilho) da classe média, que alucinadamente bateram panelas nas varandas chiques das grandes e médias cidades, ainda acreditam piamente que estão fazendo parte de um projeto “benigno” que quer acabar com a corrupção neste País? Ainda acreditam que Sergio Moro os livrará do mal, amém? Santa ingenuidade, Batman! Como vocês são bestalhões. Caíram no Conto do Vigarista, no Conto do Paco, no Conto do Cunha. Vocês creem que, no domingo à noite, caso o impedimento de Dilma Rousseff vingue (nos dois sentidos da palavra), terão vida fácil em uma Coalizão do Mal capitaneada pelos idôneos, probos, impolutos e benfazejos Michel Temer, Eduardo Cunha et caterva e amplamente auxiliados por essa espécie de entidade neocoronelista que atende pelo nome de Fiesp? É isso mesmo? Viu o que dá não ler – ou não interpretar corretamente – livros de História do Brasil? Como vocês são bocós. O único sentimento que ocorre, agora, é o pior possível: o de compaixão, pena, dó. Dó de serem tão ridiculamente usados como massa de manobra – sim, essa mesma expressão que muitos de vocês utilizam equivocadamente para espicaçar os que consideram que estejam “do lado de lá”. Com trocadilho e tudo, vocês têm tudo a Temer.

Se existe uma imagem que simboliza todo esse desastre pelo qual vem passando o País é a daquele muro infame montado em frente ao Congresso Nacional. O fato de ele ter sido levantado por presidiários da Papuda só reforça a polissemiose e transforma aquilo em um ícone triste da falência do estado de direito brasileiro, conquistado a duras penas após o fim da Ditadura Militar, de funesta e indigesta memória.

Em linhas gerais, o que está acontecendo nada mais é do que uma versão revisitada do modus operandi de uma oligarquia decrépita que insiste em mandar e desmandar no País desde que os índios descobriram a existência dos portugueses, em 22 de abril de 1500. Sempre foi assim na História do Brasil – e não é preciso deter-se em detalhes. Os livros, os mestres e o Google estão aí à disposição de todos para conferir. Já se assistiu a várias versões desse filme ao longo da História: o medo, o pavor, natural e obviamente sem sentido, da classe média, alta e baixa, de que seus “direitos” sejam aviltados por essa “gentinha” que habita as classes situadas logo abaixo dela. O fascismo frio e cru instaura-se exatamente nesse momento, personificado em preconceito rasteiro contra a ascensão de mais de 30 milhões de pessoas das classes D e E – e do seu acesso aos bens de consumo e ao ensino de 3º grau –; do não reconhecimento dos direitos trabalhistas de empregadas e empregados domésticos; dos direitos de negros, pobres, crianças, idosos, mulheres, homossexuais, sem-terra, sem-teto; e do empoderamento crescente das mulheres chefes de família, notadamente do Nordeste. E por aí vai. Esse pânico sem nexo foi estampado em inúmeras frases idiotas, obviamente mal escritas, em cartazes presentes em manifestações pró-impedimento que ocorreram em todo o País. Infelizmente, a coisa acirrou-se a tal ponto de existir, agora, aquele Muro da Vergonha, em Brasília. Um muro que só faz ratificar essa dicotomia miserável que vem crescendo desde o segundo turno das eleições gerais de 2014.

Muito embora se saiba que a votação da Câmara é apenas o primeiro passo antes de o processo passar pelo Senado (se ele for aprovado, é claro), é de se perguntar: o que será do Brasil após a noite de domingo? É muito cedo para saber. Mas arrisco algumas possibilidades.
Se o impedimento de Dilma Rousseff for aprovado pelos dois legislativos, temo que o país ingresse definitivamente em um período de trevas, açodado – e então legitimado – por uma onda crescente de neofascismo asqueroso, definitivamente maniqueísta e discriminatório, em um cenário em que poderá instaurar-se em um clima de vale-tudo. Será o início de um processo em que gradativamente todos os direitos conquistados ao longo dos últimos anos cairão como peças de dominó. Um estado de coisas em que se perderá em definitivo o sentido real da palavra Política – que, registre-se, já está há um bom tempo desgastado. Uma situação em que haverá o acirramento das relações sociais no qual quem esteve do lado contrário à aprovação do impedimento estará marcado com a letra escarlate.

E aí, eu pergunto: como se comportarão as instituições e outros entes deste País? Em que medida atuarão o Supremo Tribunal Federal, os Ministérios Públicos federal e estaduais, os Tribunais de Justiça? A imprensa – essa dama combalida e absolutamente atrelada? A tal “sociedade civil organizada”? Como atuarão os legislativos – Senado, Câmara Federal, assembleias e câmaras municipais? Como irão comportar-se os governos estaduais e as prefeituras? As indústrias, o comércio, os agropecuaristas, os banqueiros? Os movimentos sociais? Como estarão os partidos políticos? Estarão estes imbuídos, mesmo, dos mais nobres sentimentos de mudança, no espectro do interesse comum? Essa mudança, aliás, vai ter início com as próximas eleições municipais? Haverá, mesmo, a tão sonhada renovação, mesmo em um contexto da boa (!) e velha política de sempre? E a tão falada reforma política – cada vez mais necessária, como se vê –, enfim, vai acontecer?

Se, no entanto, o impedimento de Dilma não for aprovado, aí, sim, será o momento decisivo de realmente se começar a implementar uma mudança inequívoca, de comportamentos, pensamentos, atitudes, de reconstrução da sociedade, do estado de direito. Será o momento em que, de forma inexorável, a esquerda não poderá mais esquivar-se da missão urgente de acertar o foco, lamber as próprias feridas, examinar profundamente os seus erros, que não são poucos, e de avocar para si a responsabilidade magna da manutenção de todos os direitos sociais e trabalhistas – uma das maiores riquezas que o País possui há muitos anos e que está seriamente ameaçada. Mesmo que o momento ainda seja conflitante – rescaldo inevitável do que vem acontecendo há mais de um ano –, será a hora de, enfim, fazer o movimento contrário: ao invés de ir para a luta, para o conflito aberto, estender a mão a quem votou a favor do impedimento, acolher, sentar para dialogar e estabelecer um novo pacto, um novo projeto de País. Será difícil? Muito. Mas não impossível. Será a hora de abandonar de vez a truculência, de extirpar o ódio. Será a hora de realmente predispor-se a resolver as mazelas – as recentes e as centenárias. Isso pode demorar anos, décadas. Mas será um início.

O Brasil está preparado para realizar essa reconstrução? Avalio que sim, mas suspeito que essa possibilidade ainda esteja subjacente, ou mesmo invisível, contaminada pelo ódio e pela intolerância que grassam no País. Entretanto, se não acontecer dessa maneira, confesso que não sei de outro caminho. Pois de nada terá adiantado ter saído às ruas – nem contra e muito menos pró-impedimento.

Há um País continental – historicamente assolado por desigualdades e prenhe de desenvolvimento em todos os setores – por zelar, por transformar, por engrandecer. Por reconstruir. Isso não é brincadeira. Isso não é golpe. Isso é diametralmente oposto ao que querem Cunha, Temer e seus acólitos, que estão a fim de somente zombar do País. Quem ainda não percebeu esse flagrante delito que vem assolando o Brasil, das duas uma: ou não está entendendo nada, ou é conivente com a catástrofe em curso. Não há meio-termo.

*Helcio Kovaleski é jornalista, roteirista e crítico de teatro, autor do livro “Festival Crítico – Dez Anos escrevendo Sobre o Fenata (Festival Nacional de Teatro)”. Atualmente, é assessor parlamentar da Câmara Municipal de Ponta Grossa, Paraná.

  1. A sociedade do espetáculo. Guy Debord. Rio de Janeiro, Editora Contraponto, 1997.
  2. A sociedade do espetáculo”. José Aloise Bahia, ed. 313, 25 jan. 2005. Disponível em http://observatoriodaimprensa.com.br/speculum/a-sociedade-do-espetáculo/



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