Adriana Dias: Eu acuso

Acredito que a história contará a verdade. E os que tentam neste momento manchar a democracia com um golpe pagarão o mais alto preço: o da infame lembrança ou do esquecimento total. Estaremos do...

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Acredito que a história contará a verdade. E os que tentam neste momento manchar a democracia com um golpe pagarão o mais alto preço: o da infame lembrança ou do esquecimento total. Estaremos do lado dos que serão lembrados por lutar pela verdade e pela justiça

Por Adriana Dias

Caras companheiras e companheiros, uso aqui algumas palavras que não são minhas, mas acho-as tão pertinentes que sinto-me no “dever de falar, eu não quero ser cúmplice. ” O texto de Émile Zola parece-me tão atual e adequado a esse processo montado por Eduardo Cunha, “uma figura nebulosa, a mais complicada” de toda nossa história republicana, envolvido em corrupção até o colágeno dos ossos. Não afirmo até a alma, porque essa ele vendeu há muito. Para Collor, no escândalo da Telesp no Rio. Acostumado a escapar sempre da justiça, apelando para o apoio dos fiéis da Igreja, e jurando que os brasileiros merecem respeito. Um respeito que ele nunca ofereceu.

Preciso escrever sobre o que vivemos. Se não o fizer, “minhas noites seriam assombradas pelo espectro de uma inocente que sofre, mergulhado na mais dolorosa tortura, por um crime que ela não cometeu”. E que se diga, nunca conseguiram provar. Provaram um erro. Não provaram crime.  Mas, Cunha fez, junto com a proposta dos ressentidos “a instrução como se fosse uma crônica do século XV, misteriosa, com expedientes cruéis e todo baseado exclusivamente em uma evidência infantil, esse documento imbecil, que não passa de uma traição vulgar, a patifaria mais grosseira, pois os maiores segredos transmitidos se revelaram todos sem nenhum valor. Eu insisto porque é aqui que está a semente de onde surgirá o verdadeiro crime, a espantosa recusa de justiça que torna” o Brasil “um lugar doente”.

Esse erro grotesco, amparado e espetacularizado, numa forma de lobotomização das massas, que funciona como apresenta Wilhelm Reich em  “Psicologia de Massas do Fascismo”, desde a Roma antiga, cria um desejo gregário expresso em ódio e violência sem limites. Há um verdadeiro tesão em destruir o pobre, o negro, o gay, o deficiente, a lésbica, e o que mais aparecer, na massa fascista.

Esse erro judicial que “pôde ser possível, e surgiu das maquinações do comandante” Temer, junto com Janot e do juiz Moro, que ”se deixaram levar como cúmplices do que defendem como uma verdade santa, uma verdade indiscutível.  Cederam às paixões religiosas da comunidade e ao preconceito corporativista. Permitiram que a estupidez acontecesse.

Onde está o ministério verdadeiramente forte, de um patriotismo sábio, que terá a coragem de tudo renovar e recriar?

E a que ninho de baixarias, fofocas e esbanjamentos está entregue esse lugar sagrado, onde se decide o futuro da pátria?

E é um crime ainda terem se apoiado na impressa imunda, {…} é um crime confundir a opinião pública, utilizar para uma sentença fatal essa opinião pública que foi corrompida até o delírio. É um crime envenenar os pequenos e humildes, exasperar as paixões de reação e de intolerância, dos direitos do homem sucumbirá, se não for curada. É um crime explorar o patriotismo para as obras do ódio; é um crime, por fim, fazer do sabre o deus moderno, quando toda a ciência humana está a serviço da obra iminente da verdade e da justiça.

Afirmo ser este mais um crime, um crime que provocará a indignação da consciência universal.

Não que eu duvide, aliás, nem um pouco, que a verdade triunfará. Repito-o, e com uma certeza ainda mais veemente: a verdade está apenas a caminho e ninguém a deterá. As coisas estão apenas começando, pois apenas agora os fatos estão claros: de um lado, os culpados que não querem que a justiça se faça; de outro, os honestos que darão sua vida para que ela se faça. Já o disse antes, e vou repeti-lo aqui: quando a verdade fica soterrada, ela toma corpo, e ganha tal força explosiva que, quando explode, leva tudo consigo.

Acredito que a história contará a verdade. E os que tentam neste momento manchar a democracia com um golpe pagarão o mais alto preço: o da infame lembrança ou do esquecimento total. Estaremos do lado dos que serão lembrados por lutar pela verdade e pela justiça.

Todos os texto em itálico são de ZOLA, Émile (1840-1902). Zola /Rui Barbosa Eu acuso! O Processo do Capitão Dreyfus. Org. e trad. Ricardo Lísias. São Paulo: Hedra, 2007. p. 35 a 53

Foto de capa: Antônio Cruz/ABr 



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