Pimenta: Golpe é a revanche contra uma presidenta que não se curva às negociatas da política tradicional

A derrota da democracia para os interesses pessoais, nessa primeira batalha, revela uma crise desse sistema político fisiológico.

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Por Paulo Pimenta*

O dia de ontem confirmou o que já estávamos denunciando: Dilma não está sofrendo um impeachment, e sim um golpe. Com 367 votos favoráveis à admissibilidade do processo de impedimento da Presidenta, a Câmara dos Deputados escreveu na sua história uma página da qual sentirá no futuro – e, na verdade, parece já sentir – vergonha.

Dilma está sendo atacada, justamente, pelos seus acertos. Uma das principais virtudes da Presidenta reside na mudança que promoveu na relação entre governo, partidos e Congresso, não praticando o velho toma lá dá cá. A Presidenta não se curva aos ataques especulativos de parlamentares fisiologistas, não negocia cargos com pessoas de trajetória suja e não entra no vale tudo para salvar seu mandato. E foi golpeada na Câmara justamente por essa postura.

A atual legislatura da Câmara tem 198 deputados em seu primeiro mandato. Boa parte deles desconhece os acordos firmados anteriormente entre seus partidos e o governo. Eles agem individualmente e refletem o fisiologismo dos partidos que compõe: não se guiam por uma visão ideológica, por um projeto de país nem por um sonho de sociedade. Buscam tão somente sua própria sobrevivência na política institucional, os holofotes e, assim, acabam agindo cada um como um micropartido. O fim do financiamento empresarial de campanhas aprovado ano passado agravou ainda mais essa situação. Sem poder recorrer aos recursos corporativos, o que resta a esses parlamentares é a briga por cargos.

Se, de um lado, não podiam contar com Dilma para isso, de outro, encontraram um prato cheio: Eduardo Cunha, Michel Temer e Eliseu Padilha dispostos, cada um com seus motivos, a dar espaço a essa relação utilitária dos deputados com a política. Cunha precisava ser absolvido na Comissão de Ética – onde é acusado de envolvimento com desvios milionários da Petrobras e ocultação derecursos em contas na Suíça. Em troca da absolvição, aceitou abrir o processo de impeachment contra a presidenta. Michel Temer, por sua vez, guiado pelo desejo de ser presidente, mas certo de que não conseguiria isso através dos votos, era o instrumento que mais facilmente constituiria a ponte da oposição para chegar à destruição do PT e para promover sua saída do governo. Eliseu Padilha, finalmente, alçado por Temer à posição de articulador político do governo, tinha o mapa de todos os cargos do governo nas mãos: era o “El Dorado” para os partidos fisiológicos. Se não conseguiam negociar um cargo com Dilma, com Padilha levavam até mais do que pediam.

Cunha, Temer e Padilha são a expressão do fisiologismo na política e estão em consonância com os parlamentares que compõem a atual legislatura. Nesse momento prosperam justamente graças a isso.

Os votos de ontem na tribuna, que deveriam votar “sim” ou “não” ao relatório que orientava a admissibilidade do processo contra Dilma por crime de responsabilidade, não deixaram dúvidas sobre esse caráter fisiológico dos parlamentares. Ao votar, justificavam: “sim pela minha família”, “sim pelo meu grupão de amigos de Uberlândia”, “sim pela minha mulher, pelos meus filhos”, “sim pelo aniversário de minha mãe”, “sim pela minha cidade”. Votaram para televisão, para os holofotes, não para julgar se um crime de responsabilidade foi cometido pela presidenta. Temos a clareza de que não trataram do assunto porque não houve crime.Esse processo trata-se de uma farsa, de um golpe.

A derrota da democracia para os interesses pessoais, nessa primeira batalha, revela uma crise desse sistema político fisiológico. Revela que o presidencialismo de coalizão não é a saída.

O caminho, como muitos defendem, é pela esquerda. É governar para a base social e dialogar com ela.

O saldo desse processo para os movimentos de esquerda também aponta nesse sentido. Apesar das inúmeras divergências ideológicas, de projeto político e de método, a esquerda mostrou uma capacidade de se unificar que pode ser decisiva para conter o golpe. A criação de comitês e frentes democráticas ao redor do país – que unem não só a já existente militância da esquerda como novos setores da sociedade –registrou a resistência popular ao processo, e pode ser a pedra final no sapato dos golpistas.

Ainda há muita luta a ser feita. Resistiremos até o fim. Não vai ter golpe!

*Paulo Pimenta é jornalista e deputado federal pelo PT-RS.

(Foto: Reprodução/Facebook)



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